Em 2025, o Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas chegou à 23ª edição ininterrupta, da qual tive a honra de fazer parte como membro do júri. O concurso foi realizado entre os dias 23 e 30 de março nas cidades de São Paulo e Jacareí.
Fundado e dirigido por Paulo Esper, o Concurso Maria Callas é atualmente o principal e mais longevo concurso de canto da América do Sul. Neste ano, inscreveram-se 114 cantores de nove países da América Latina, dos quais 53 foram selecionados para participar da fase semifinal (realizada em São Paulo) e 18 chegaram à fase final (em Jacareí).
A abertura oficial
As atividades do Festival Callas 2025 tiveram início no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, com um concerto onde se apresentaram vencedores de edições anteriores. A soprano Raquel Paulin, a mezzosoprano Juliana Taino, os tenores Vitorio Scarpi e Carlos Eduardo Santos, o barítono Johnny França e o baixo Gustavo Lassen foram acompanhados pela Orquestra Experimental de Repertório (OER) sob a regência de Wagner Polistchuk.
Antes da apresentação musical, houve uma homenagem à célebre mezzosoprano uruguaia Raquel Pierotti, uma pessoa doce e discreta. Pierotti passou a integrar a lista de Grandes Vozes da Cia Ópera São Paulo, dirigida por Paulo Esper. Como o leitor já sabe, desde 1997 Esper tem sido o responsável pela vinda de importantes nomes da cena lírica nacional e internacional para participar de recitais, concertos e óperas, bem como para ministrar masterclasses para jovens cantores. Na última edição do Concurso Maria Callas, Pierotti, que morou durante vários anos na Espanha e já se apresentou nos mais importantes teatros do mundo sob a direção de maestros como Claudio Abbado e Riccardo Muti, entrou na lista.

A abertura oficial foi marcada por um enorme e impactante apoio tanto do público, que lotou o teatro de mais de 900 lugares, quanto do meio artístico e de autoridades. Quem estava presente pôde testemunhar as manifestações de apoio dos consulados da Itália (e do Istituto Italiano di Cultura San Paolo), da França, da Grécia e do Uruguai. O sempre presente cônsul geral da Itália em São Paulo, Domenico Fornara, estava lá manifestando seu precioso apoio. Também se fez presente a Fundação Cultural de Jacareí, por meio de sua presidente, Juliane Guedes; e Marilia Marton, a dinâmica Secretária de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, manifestou o seu entusiasmado e sincero apoio. Foi um alento ver o apoio do Governo do Estado de São Paulo e da Prefeitura de Jacareí ao canto lírico, bem como a quantidade de pessoas que se uniram com entusiasmo em torno dessa arte.
A OER, que é um dos corpos estáveis do Theatro Municipal de São Paulo (TMSP), apresentando-se no Teatro Sérgio Cardoso como parte dos eventos do Festival Callas, já indica uma saudável parceria entre a Cia Ópera São Paulo (que, ao lado dos Amigos da Ópera de Jacareí, realiza o Concurso), a Sustenidos Organização Social de Cultura (gestora do TMSP), a Fundação Theatro Municipal e a Associação Paulista dos Amigos da Arte – APAA (responsável pelo Teatro Sérgio Cardoso). É um exemplo da união que tanto precisamos em nosso meio musical.
A premiação

Como de costume, os vencedores foram separados em duas categorias: masculina e feminina. Na categoria masculina, os premiados foram: Wilken Silveira (1º lugar), Mauricio Etchebehere (2º, um jovem com apenas 22 anos) e Eduardo Machado (3º), todos tenores. Na categoria feminina, as premiadas foram as sopranos Pollyana Santana (1º) e Laura Duarte (3º) e a mezzosoprano Gabriela Bueno (2º).
O júri foi composto por Luiz Fernando Malheiro (presidente do júri), maestro e diretor artístico do Festival Amazonas de Ópera; Raquel Pierotti; Sabino Lenoci, editor da revista italiana L’Opera; Richard Martet, crítico musical francês e presidente do Concours Voix des Outre Mer; Pedro Salazar, diretor cênico colombiano; Jorge Coli, libretista e professor emérito da Unicamp; Robson Tirotti, presidente da Amigos da Cia Ópera São Paulo; e por mim, Fabiana Crepaldi.

Como é comum em concertos de canto, além dos vencedores, alguns candidatos recebem premiações especiais. É o caso do Prêmio Toriba Musical. As sopranos Joyce Martins, Thainá Biasi, Alessandra Carvalho e Pollyana Santana foram escolhidas por Paulo Esper para se apresentar no Hotel Toriba, em Campos do Jordão, nos dias 05 de abril e 03 de maio. Joyce Martins recebeu, também, a Menção Honrosa do Rotary Club de Jacareí, cujos membros acompanharam com entusiasmo a prova final.
Rafaela Duria, mezzosoprano, ficou com o Prêmio Incentivo Glória Nogueira. Ela ganhou um quadro da artista e uma ajuda de custo como incentivo aos estudos de canto. O baixo-barítono Flávio Antonione foi o contemplado com o Prêmio Lírica Disidente. Fruto de nova parceria entre a Cia Ópera São Paulo e a Lírica Disidente, do Chile, ele foi o escolhido para participar da ópera Don Giovanni, no Chile.
Nos dias 28 (em Jacareí) e 30 (em São Paulo) de março, os vencedores se apresentaram. De novo, ingressos esgotados. Nos dois dias, os vencedores se apresentaram acompanhados ao piano pelo excelente Daniel Gonçalves.

Em Jacareí, apesar da forte chuva, não cabia mais gente na Sala Mário Lago. Foi marcante o entusiasmo e o envolvimento do Rotary Club e de autoridades da cidade. Juliane Guedes, da Fundação Cultural, que já havia ido a São Paulo para participar da abertura oficial, estava lá para entregar o prêmio à primeira colocada.
Em São Paulo, cantores e maestros estavam na plateia: todos queriam conhecer as novas vozes e dar-lhes as boas-vindas. Dentre eles, destaco o maestro Roberto Minczuk, diretor musical do Theatro Municipal de São Paulo, e o baixo-barítono Licio Bruno, o último entrar na lista de Grandes Vozes antes de Pierotti.


Além dos prêmios
O Concurso Maria Callas vai além das premiações. Alguns candidatos que não chegaram à fase final foram selecionados para participar de uma masterclass, que neste ano foi ministrada por Raquel Pierotti; outros foram escolhidos para se apresentar em espaços públicos de Jacareí.
É sempre bom lembrar que, ao longo das suas 23 edições, o concurso foi o primeiro passo para cantores que hoje estão fazendo carreira internacional. O tenor uruguaio Edgardo Rocha e os brasileiros Josy Santos (mezzosoprano) e Bruno de Sá (sopranista) são alguns exemplos. Já participaram do júri importantes cantores como Magda Olivero, Fedora Barbieri, Luigi Alva, June Anderson, Katia Ricciarelli, Sophie Koch, Chris Merritt e Patrizia Ciofi.
Como membro do júri, sou testemunha da acolhida que recebemos e da boa organização. A importância disso vai além: nesse ambiente favorável, são selados acordos, parcerias, contatos. Como Esper lembrou no concerto de encerramento, foi em um Concurso Maria Callas que foi assinado o contrato para que a ópera Lo Schiavo, de Carlos Gomes, estreasse na Itália. A estreia ocorreu em 2019, no Teatro Lirico di Cagliari, e o vídeo está disponível na Medici.
Não é à toa que o concurso está em sua 23ª edição ininterrupta (em 2020, o terrível ano da pandemia de COVID, foi realizado online) e teve no júri nomes de peso. Tudo se deve ao empenho de Paulo Esper e aos apoios que a sua personalidade cativante e determinada consegue aglutinar. Esses apoios vão desde parceiros mais próximos, como o doutor Roque Citadini, verdadeiro apaixonado por ópera e presidente dos patronos da Cia Ópera São Paulo, Dyra Oliveira, a simpática e dinâmica diretora técnica cultural da APAA, e Alberto Marcondes, coordenador da Cia Ópera São Paulo. Como resultado, estamos vendo um concurso a cada ano mais vivo, envolvente e vibrante.

Observações sobre as fotos:
Na foto principal, acima, Paulo Esper, a Cônsul Adida do Uruguai em São Paulo, a homenageada Raquel Pierotti e a Secretária Marilia Marton.
As fotos de São Paulo sem crédito, incluindo a principal, foram tiradas por mim, e estão sendo utilizadas na falta de fotos oficiais ou de autorização do uso das oficiais.

Cofundadora do site Notas Musicais, também colabora com a revista italiana L’Opera e com os sites Pro Ópera (México) e L’Ape Musicale (Itália). Fez parte do júri das edições 2020 e 2022 a 2024 do Concurso Brasileiro de Canto ‘Maria Callas’ e é membro do conselho de Amigos da Cia. Ópera São Paulo. Em 2017, fez a tradução, para o português, do libreto da ópera Tres Sombreros de Copa, de Ricardo Llorca, para a estreia mundial da obra, em São Paulo. Estudou canto durante vários anos e tem se dedicado ao estudo da história da ópera e do canto lírico.