“Missa em Dó menor” de Mozart, K.427 –  A Inacabada mais genial de todas

Salve, Mozart no Rio de Janeiro! É a suprema das ironias que, até aqui, todos os espetáculos que eu anunciei neste espaço tenham se dado no TMSP, na nossa Terra da Garoa, sendo que eu sou morador inveterado da Maravilhosa. Ora, rivalidade entre cariocas e paulistas? Estou fora. Sou mineiro de nascimento, por sinal; um juiz imparcial, confiem, mesmo vivendo na Gema. Antes de adentrar a obra, não poderia deixar de dar a minha impressão sobre quem a compôs: Wolfgang Amadeus Mozart, ilustre filho de Leopold. Li recentemente um artigo de 1968, por Roland Barthes, chamado “A morte do autor”1. Nele, Barthes argumenta que, ao lermos um texto, devemos abandonar o vício de transformá-lo num inventário sobre a mente do autor. O autor morre, metaforicamente, dando vida ao leitor, que preenche o escrito com a sua intransferível personalidade. Em que pese a coerência do argumento, espero que Barthes perdoe o meu lado curioso, que não se priva de fantasiar sobre o que se passava na mente de Mozart ao escrever as suas missas. Não sei se o argumento de que isto é música, e não texto, seria suficiente para amenizar o sorrisinho de desprezo com que Roland me receberia.

Se há alguma ironia machadiana em meu parágrafo inicial, façamos como Brás Cubas e comecemos pelo final: Mozart é o fechamento de uma era da História da Música caracterizada pelo apego às formas e às simetrias, herdadas via Haydn, inseridas no ideal apolíneo do comedimento e da elegância. A eterna hipocrisia das classes dominantes, neste caso a dos nobres europeus pré-Revolução, não remove o brilho da arte dos sons apenas por ter sido composta para eles. O jovem Amadeus provou ao mundo que a finesse d’esprit também pode ser a do status quo, coisa que o típico intelectual ocidental moderno não consegue aceitar, de tão viciado que se tornou na hermenêutica da suspeita de um Nietzsche, um Marx, um Freud.

Lembro que, quando era jovem, eu desprezava Mozart frente a Beethoven e Wagner, não porque a sua música me agradasse menos, mas porque meu pai me ensinou: Mozart não foi um inovador estilístico como os outros dois. O gênio de Salzburg manteve-se fiel ao Classicismo ao longo de sua vida, e esta corrente artística já estava bem firmada quando ele nasceu, tendo sido a tendência pós-barroca dominante pelo século XVIII, ao menos na música dita “culta”. A despeito de grandes inovações em seus trabalhos finais, que poderiam, sim, indicar novas rotas caso tivesse vivido mais tempo, Apolo nunca o abandonou. A música em Mozart é solene e ao mesmo tempo alegre, divertida, de uma ingenuidade infantil muito atraente por vezes, mas nunca romântica como uma concepção íntima. Mozart não se despe para o ouvinte, mas sempre se apresenta mediatizado pela lógica do contraponto, da elegância, do rito e da harmonia. Demorei a perceber, ao longo da minha vida, que era isso mesmo e está tudo bem, afinal, os mais elevados ideais artísticos não necessitam do elemento desestabilizador a que os compositores do século XIX apelavam.

Arte: Carla Marins

Quem diria que um menino prodígio que compunha música desde os sete anos e que foi levado pelo pai a exibir-se nos salões austríacos seria capaz, antes mesmo de atingir a maturidade etária (que ele nunca alcançou), de criar obras de tão profunda inspiração e de uma verve sublime, digna dos maiores sábios da História? Exemplo disso é a Missa em dó Menor, K.427, que teremos no dia 13 de março, no Teatro2 Municipal do Rio de Janeiro.

Esta Missa foi composta a partir de 1782 e deixada incompleta por nosso protagonista, não obstante as constantes menções de terminá-la. Aqui você encontrará mais pormenores. Detalhes históricos à parte, é uma sinfonia que mantém magistralmente a tensão entre a permanência (o tom solene é sempre o mesmo) e a mudança (múltiplos movimentos, mais de dez). Tal como em sua Sonata para Piano n. 14, K.457, a tonalidade em Dó menor é ainda mais trágica e melancólica para Mozart que a maioria das tonalidades menores concorrentes.

A Missa apresenta características barrocas, o que aumenta o meu prazer em descrevê-la, haja vista meu último artigo por aqui ter sido justamente sobre esta corrente musical, joia pouco explorada do repertório. Por ser inacabada, com múltiplas partes faltantes, surgiram ao longo do tempo diversas versões adaptadas para dar à obra uma feição coerente. A que será apresentada há de ser a do musicólogo H.C. Robbins Landon, com partitura publicada pela primeira vez pela editora Eulenburg em 1956, cujo meticuloso trabalho em juntar as peças da obra lhe valeu uma das versões mais conceituadas e apresentáveis.

O destaque em termos de fama vai para o trecho Et incarnatus est, o 11o movimento e aquele com os ares mais operísticos da inteira missa, envolvendo flauta, oboé e fagote além da soprano solista, e cuja inspiração… bem, palavras num texto não lhe fariam jus. Mozart, que as más línguas diziam não gostar de flauta, deu a este instrumento função primordial no trecho, adocicando-o com uma sensibilidade digna de Flauta Mágica. Ouçam-no por si próprios, se prometerem não perder o sono nos dias seguintes para fazer vigília na Igreja mais próxima. É o que dá vontade de fazer, garanto-lhes, mesmo para quem não é católico. Também foi deixado inconcluso, mas o que temos é mais que suficiente para alçarmos voo neste paraíso sonoro. Estamos num patamar em que até obras inacabadas tornam-se obras-primas completas.

Mais detalhes sobre a apresentação estão aqui. Não ouse deixar de comparecer se não quiser perder a abertura de umas das temporadas musicais que mais prometem nesse tão combalido Riozinho de Janeiro. Se for prenúncio de algo sombrio por se tratar de uma sexta-feira 13, não me acanharei: na sombra desejarei deitar-me, com água fresca, como diz o ditado popular, e com uma galeria para ouvir a orquestra.


Notas


Um comentário

  1. Cometi uma pequena imprecisão no início do texto. Nem todos os espetáculos que eu havia anunciado antes deste foram no TMSP. O último, a respeito de La Serva Padrona e La Contadina, havia sido no Teatro B32. Mas todos foram em SP, de qualquer forma.

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