No TMRJ, faltou “estilo” à “Missa em Dó menor”, de Mozart

Soprano Carolina Morel foi o destaque positivo do concerto de abertura da temporada.

Na última sexta-feira, 13 de março, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro abriu oficialmente a sua Temporada 2026 com a Missa em Dó menor K.427, dita “Grande Missa”, de Wolfgang Amadeus Mozart. Composta entre 1782 e 1783, esta foi a primeira obra sacra escrita por Mozart depois da sua transferência de Salzburg à Viena.

Foi também a sua primeira missa fora dos padrões estilísticos impostos por Colloredo, o Arcebispo de Salzburg. A obra não fora encomendada, mas sim uma iniciativa do próprio compositor, como uma forma de agradecimento, conta-se, pela recuperação da saúde de Constanze Weber e pela superação dos obstáculos à sua união matrimonial com ela.

Apesar do seu evidente valor musical, esta missa permaneceu inacabada, até hoje sem nenhuma explicação definitiva. Mozart compôs apenas cinco movimentos: Kyrie; Gloria; Credo; Sanctus; e Benedictus – sendo que este último não foi completado, e o Agnus Dei sequer foi iniciado. Para conhecer mais a obra, leia o artigo que Bruno Góes publicou em Notas Musicais.

Na sexta-feira, o que mais chamou a atenção durante a execução da obra no TMRJ foi a pouca preocupação geral com o estilo. Preparado por Cyrano Sales, o Coro do Theatro Municipal abordou a peça, talvez, achando que estava cantando o Requiem de Verdi, ou, quem sabe, uma ópera de Wagner (que a casa, a propósito, não oferece ao público há mais de uma década). Assim, muitas das passagens corais da Missa soaram bem operísticas, por vezes “pesadas” e com pouca atenção à precisão da forma.

Também faltou cuidado com a proporção: a quantidade de coristas (em grande número) contrastava com a quantidade de músicos. E essa é uma conta a ser cobrada do diretor musical do concerto, Felipe Prazeres, que até conseguiu extrair da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal alguma expressão, ainda que com a sonoridade irregular de quase sempre.

Dos quatro solistas vocais, o tenor e o baixo são pouco exigidos por Mozart, de forma que Geilson Santos e Licio Bruno tiveram participações discretas, em oposição ao maior destaque das duas sopranos. Michele Menezes ofereceu uma prestação razoável, mas também ela esteve pouco atenta ao estilo, ao contrário da sua colega Carolina Morel, que foi o principal destaque da noite e merece um parágrafo só para ela.

De pé, a soprano Carolina Morel

Morel se sobressaiu não apenas pela boa afinação e pela ótima projeção, mas, principalmente, pela sua atenção à melhor maneira de interpretar Mozart. A artista ofereceu uma performance equilibrada durante toda a Missa, com menção especial à sua sensível interpretação do Et incarnatus est (um Andante em Fá Maior que integra o Credo e que é uma das mais raras joias musicais criadas pelo gênio de Salzburg): abordada com delicadeza e inteligência musical, esta passagem, na voz de Carolina Morel, fez valer todo o concerto.


Agora em 2026, pela primeira vez em muito tempo (pelo menos uns 10 anos), o Theatro Municipal do Rio de Janeiro anunciou a sua programação completa para o ano antes do início da sua temporada. É verdade que, nos últimos dois anos (2024 e 2025), a casa anunciou a sua programação própria ainda no começo dos trabalhos, mas sempre depois do concerto oficial de abertura da temporada. Desta vez, finalmente, a divulgação aconteceu antes deste concerto.

Com a provável mudança dos ventos políticos no âmbito do estado do Rio de Janeiro a partir das eleições deste ano, é bem possível que esta tenha sido a última oportunidade de a gestão atual da casa conseguir esse feito. Antes tarde que nunca.

Dentre as obras que integram a sua programação de 2026 (que pode ser conferida aqui), os dois principais destaques são a ópera Salvator Rosa, de Carlos Gomes, e o balé Romeu e Julieta, que conta com música de Sergei Prokofiev. A ópera, pela raridade do título (que não é apresentado no Rio há 80 anos) e pela parceria com o Festival Amazonas de Ópera (evento no qual ela também será apresentada); e o balé, por oferecer ao público uma nova coreografia de Reginaldo Oliveira, o brasileiro radicado na Áustria que foi o responsável pelo melhor espetáculo de 2025 na casa: o balé Frida.

Talvez o leitor se pergunte: e a ópera Turandot, que não é apresentada no Rio há 24 anos? Bem, vai depender (muito!) do elenco. A produção de André Heller-Lopes, apresentada originalmente no Theatro Municipal de São Paulo em 2018, é de boa qualidade, apesar de um ou outro detalhe menos inspirado – arestas que, aliás, podem ser aparadas pelo encenador nesta oportunidade. Esta ópera de Puccini, no entanto, exige cantores de alto nível e em plena forma para que possa ser oferecida adequadamente ao público. Teremos esses cantores no Rio? A ver.

Além da Turandot trazida do TMSP, neste ano o TMRJ vai remontar uma produção lírica (a cantata cênica Carmina Burana, apresentada no ano passado). A possível economia gerada por essas iniciativas poderia significar, pelo menos, um título lírico a mais na programação em relação aos últimos anos, mas, infelizmente, não é o caso.

Para além da programação, a manutenção do palco – prometida há mais de um ano – finalmente começa a ser percebida pelo público. Durante o concerto de abertura, já foi possível ver nas laterais da boca de cena a cortina principal do palco devidamente reinstalada (depois de mais de 10 anos ausente). Por outro lado, também foi possível perceber a pintura do teto da sala de espetáculos ainda “descascando” (próximo do palco).

Outra promessa da gestão atual, o concurso para os corpos artísticos, técnico e administrativo da casa finalmente deve acontecer neste ano. A banca que organizará o certame foi escolhida no mês passado. Interessados em prestar a prova, portanto, devem ficar atentos.


Antes da Missa em Dó menor, falaram o diretor artístico e a presidente do TMRJ, a representante do patrocinador e o regente. Por mais que nenhum dos citados tenha se estendido, vamos combinar: é muito.


Fotos: Filipe Aguiar (na foto principal, à frente da Orquestra e do Coro do TMRJ, Carolina Morel, Michele Menezes, Felipe Prazeres, Geilson Santos e Licio Bruno).

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