Uma representação histórica que dialoga com a contemporaneidade (Gerson Valle escreve sobre a nova ópera do compositor Jorge Antunes).
A ópera Leopoldina foi escrita com a intenção de ser levada no ano de 2022, quando se completaram 200 anos da Independência do Brasil. Ela apresenta a nossa História, levantando as razões e idealismos dos fundadores da nova nação (fundamentalmente, o humanista e político José Bonifácio de Andrade e Silva, que vivenciou a Revolução Francesa; a culta princesa austríaca arquiduquesa Leopoldina; e o talentoso, mas contraditório, príncipe herdeiro português Pedro de Alcântara). Tais ideais, no entanto, sofreram reveses em meio aos tristes legados do colonialismo e da escravidão. O país se tornou independente de Portugal com a atuação dos três personagens citados, mas não nos moldes visados por eles seguindo um projeto idealizado por José Bonifácio. A representação da ópera se faz não linearmente, com alternâncias cronológicas, contrastantes e significativas da formação e evolução histórica. E que conferem o dinamismo necessário à linguagem artística multifacetada característica do gênero operístico.
Já no primeiro ato, a contextualização se dá com a princesa interessada na descrição de seu noivo distante, que lhe faz o marquês português encarregado de lhe pedir oficialmente a mão em casamento. Isto num baile de um palácio vienense (seguindo dados realmente históricos), ao som da nova dança que tanto iria caracterizar a cidade, a valsa, sendo referido o recente e importante Congresso de Viena que refigurou a Europa após a queda de Napoleão. Dele se fala logo após, em outra cena, num diálogo de Leopoldina com sua irmã mais velha, Maria Luiza, que foi a segunda esposa do imperador francês. Contextos histórico-culturais se apresentam, contrastando com cenas do século XXI do ensaio de uma escola de samba carioca que homenageia Leopoldina. A trama se vai apresentando em narrativa diacrônica, que se junta no final do espetáculo.
O segundo ato apresenta o jovem príncipe Pedro, que surge com o nascimento do sol, representando sua força prepotente em meio à ingenuidade de quem se sente dono de tudo após uma educação dispersa na capital da colônia de urbanismo insipiente e hábitos pouco rígidos. Brinca com uma espada, fingindo galopar a cavalo, como uma criança. O Historiador que trabalha no preparo da escola de samba, cujo enredo é Leopoldina, depois de observar o caráter ambíguo de dom Pedro, lembra da exigência do povo português do retorno de dom João VI para Portugal. Isso dá a Leopoldina a esperança de voltar à Europa, ficando mais próxima de seus costumes e família. Efetivamente, dom João retorna, mas deixa Pedro e Leopoldina como representantes do reino no Brasil.
José Bonifácio conta a Leopoldina todo um projeto que ele construiu por anos de um futuro Brasil independente, que abolisse a escravidão, dando prioridade à educação do povo em igualdade de condições, seja índio, branco ou negro, proteger e renovar as florestas como riqueza nacional, dando ao índio a capacidade de existência cultural autônoma, além de dividir os latifúndios de forma a possibilitar trabalho e subsistência para a população, sem grandes desproporções sociais (observo que José Bonifácio deixou escritos com esses ideais, que foram reunidos e comentados por Miriam Dolhnikof sob o título “Projetos para o Brasil”, publicação da Publifolha sob licença da Companhia das Letras, em 2000).
Leopoldina encanta-se com a possibilidade de ser criada uma nova nação com tais características, e fica contente em ter permanecido no Brasil, podendo obrar por sua independência. Ela, Bonifácio e Pedro estão de acordo que o novo país deve ser uma monarquia liberal, com Constituição promulgada por um congresso representativo do povo, que delimite os direitos e deveres dos cidadãos, e não uma frágil república como foram constituídas no resto da América colonizada pelos espanhóis. Bonifácio comenta ser essencial ter as províncias favoráveis ao movimento independentista, e como Pedro já tinha pacificado as Minas Gerais, seria bom que fosse a São Paulo conseguir a adesão de lá. Pedro consente nesta viagem, deixando Leopoldina como sua interina.
Em São Paulo Pedro conhece Domitila, por quem se apaixona, e ela por ele. No Rio, no dia 02 de setembro de 1822, Leopoldina preside o Conselho dos Procuradores-Gerais das Províncias do Brasil, que declara a necessidade de o Brasil separar-se de Portugal, o que é aprovado por todos os procuradores, que ficam a repetir com Leopoldina: “Brasil separado”! No dia 07 de setembro, às margens do rio Ipiranga, dom Pedro recebe de um mensageiro cartas enviadas por Leopoldina. Ao abrir uma delas, um alto-falante expõe a fala na voz da princesa:
– Pedro, o Brasil está como um vulcão. As Cortes ordenaram vossa partida imediatamente, ameaçam-vos e humilham-vos. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças se partirmos agora para Lisboa. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais. O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ou sem o vosso apoio ele fará sua separação. (Mais forte e com algum tema heroico na orquestra, sem cobrir sua voz:) O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece.
Pedro levanta-se decidido. Arranca com força as fitas azul e branco de sua roupa, símbolos de Portugal. E, levantando a espada, no tema heroico antecipado pela orquestra, grita:)
– “Independência ou morte!”
Contrastando com o entusiasmo do final do segundo ato, o terceiro começa com um solo de violão, contando o Historiador que dom Pedro trouxe a Domitila de São Paulo para o Rio e começa a passar mais tempo enfeitiçado com a amada que nas obrigações do palácio, esposa, filhos e nação. Em continuidade, o violão acompanha uma serenata de Pedro para Domitila, emendada por um dueto, onde ela sobressai mostrando dominá-lo, inclusive politicamente, em defesa de seus familiares e amigos, além de obter dele o título de Marquesa de Santos. Bonifácio critica numa ária: “Enquanto a imperatriz / escreve-lhe os discursos, / preparando um percurso / para um novo país, / dom Pedro imperador / apenas espera a hora / de dar-se à aproveitadora! / Se os mores do tempo permitissem / da mulher ter primazia / sobre as fraquezas dos homens, / que imenso país seria, / com muito melhor sina, / o Brasil de dona Leopoldina! / Se ela fosse ele… / Ah, se ela fosse ele!” (Esta última frase é tida como de fato pronunciada historicamente por José Bonifácio).
E Bonifácio ainda tenta fazer Pedro voltar às intenções da construção de um novo país, mas, ao insinuar que Domitila recebe dinheiro de pessoas para levar seus nomes a dom Pedro e obter assim favores no império, este lhe dá as costas. Demite todo seu ministério, nele indo embora José Bonifácio, que acaba tendo de se exilar na França, o que é contado pelo Historiador, que também narra que, com nove anos de Brasil, Leopoldina está na nona gravidez. Ela queixa-se em carta à irmã Maria Luiza da muita humilhação que vem sofrendo na frente de toda a corte. E, com toda honestidade, expõe a dom Pedro o horror que tem passado, pedindo que ele não se deixe mais levar pelas torpezas da amante. E ele, convicto em seu orgulhoso machismo, afirma:
– “Ainda que eu perca o império, a ela não renunciarei!”
Leopoldina desmaia, aborta o nono filho e morre.
Desfila a Escola de Samba Unidos dos Sambaquis toda de preto, na caracterização do luto, e adereços também referentes à morte, cantando e dançando o Samba Fúnebre. No desfile há um carro alegórico com o destaque da professora Dina, a mesma cantora que representou Leopoldina na ópera, com uma coroa na cabeça e outros adornos que dão o toque carnavalesco. Ao lado do desfile, alguém o transmite, com câmera e microfone ao alto, para um canal de televisão. Depois do desenvolvimento do desfile, a escola de samba sai. A professora Dina desce do carro alegórico. Uma jornalista vai em sua direção para entrevistá-la, a câmera de televisão filmando, o microfone se aproximando dela.
JORNALISTA – (Fala sem canto:) Vou entrevistar a líder comunitária professora Dina, destaque do desfile num carro alegórico. Você é conhecida por suas firmes críticas à nossa sociedade, aos preconceitos, à misoginia, às injustiças sociais, à violência das milícias. Elas, aliás, a perseguem, e até ameaçaram matá-la neste carro alegórico… Parabéns pela coragem! Como foi representar uma rainha, afinal, dentro da monarquia, sistema político contrário às suas convicções?
DINA – Eu me vejo voltar de longe. (….) Não importa qual o lado / quando o sonho é maltratado. / Os homens tudo tolhendo, / as mulheres só submissas. / Os pobres das ruas tristes, (….) Como pode tanto sol, / tanto mar abençoado, / e tanto desabrigado? (Chegando-se à frente da cena, abrindo os braços, para o público) Mas, o tempo chegará! / Tudo se mexe em mudança / no grande país mestiço. / Renasce em nós a esperança!
Professora Dina permanece estática de braços abertos em frente ao público, enquanto dos bastidores se ouve um coro repetindo sua quadra esperançosa, finalizando a ópera.
O compositor Jorge Antunes, no ano 2020, ganhou residência artística em Paris na Cité Internationale des Arts, com bolsa do Prêmio Icatu de Artes 2020, onde musicou meu libreto da ópera Leopoldina.
Durante o trabalho de composição musical, e após, ele me passava informações animadoras de seu trabalho. A ópera, embora ainda inédita, já teve sua Abertura estreada na performance que pode ser seguida no Youtube, onde se confirmam algumas informações que o compositor me transmitia e tanto me animaram:
Há uma constância na Abertura de uma célula melódica de três notas, que são usadas no decorrer de toda a obra, com suas dezenas de variações, recursos derivados da análise combinatória: permutações, rotações, arranjos e combinações. A célula é calcada nas três primeiras notas do canto descendente inicial do Hino da Independência: “Já po-deis”. No hino, a célula é um arpejo descendente de um acorde perfeito maior. Na ópera, é empregada a transmutação permanente desse perfil melódico, com analogias pitagorianas: ascendente para momentos alegres, descendente nos momentos tristes.
O ambiente popular das ruas do Rio de Janeiro daqueles anos do século XIX é desenhado com batuques mesclados a sons eletrônicos que prenunciam o futuro. Assim, o lundu se faz presente no arcabouço sonoro, com os atabaques rum e rumpi. Claro, isso acontece com bailado de negros escravos.
O compositor realizou pesquisa para as passagens de preparação e desfile da escola de samba. Descobriu fato curioso que aconteceu durante os 90 anos, de 1935 a 2025, em que, no Rio, desfilaram as escolas de samba. O andamento metronômico aumentou gradativamente, chegando hoje a alcançar a semínima igual a 140. Assim, é com esse ritmo frenético que construiu as cenas com a escola de samba. Os sons eletrônicos, as falas e os cantos dos personagens se ajustam a todos os elementos da manifestação popular, com suas paradinhas, apagões, breques, bossas e viradas.
Além do canto e de falas, em algumas passagens o compositor utiliza o “sprechgesang” (canto falado), a técnica vocal usada por Schoenberg, que transita entre a fala e o canto. Mas, em Leopoldina, há a inovação em algumas passagens, com outra escrita musical a que Antunes chama de “strumentgesang”: simultaneamente às falas e a performances em “sprechgesang”, instrumentos da orquestra, em geral madeiras, tocam melodias sincrônicas à silabação dos textos.
Infelizmente, foi durante o período de composição que se alastrou a pandemia, dificultando as programações teatrais e toda aglomeração em qualquer lugar. Leopoldina não foi apresentada em 2022 como obra representativa do bicentenário da independência do Brasil, mas seu significado histórico-cultural, demonstrando nossas mazelas e esperanças, não marca somente uma efeméride. Ao contrário. Deve ser motivo de constante revisão e reflexão. Para tanto, seus autores a veem como uma representação sempre necessária. Claro que, assim, urge que seja doada ao público.
Retrato de Leopoldina: Joseph Kreutzinger, O.S.T., 1817 (Coleção Kuntshistorisches Museum — Viena).

Carioca, formado em Direito, lecionou em diversas faculdades do Rio de Janeiro. Durante 17 anos, foi chefe da Assessoria Jurídica da FUNARTE. Publicou livros de poesia, ficção, tradução, arte, política, direito e mais de 500 artigos no Brasil, França, Itália e Áustria (sobre Música, Literatura, Política, Cinema, crônicas, contos, poemas). É autor dos libretos das óperas Olga e Leopoldina, ambas com música de Jorge Antunes (esta última ainda inédita), e teve poemas musicados por compositores como Ricardo Tacuchian, Ernani Aguiar, Guilherme Bauer, dentre outros.





