Ópera e Carnaval

Hoje em dia, ópera e Carnaval parecem eventos distantes, quase incompatíveis, no entanto a relação entre eles é muito mais estreita do que parece. O processo de desenvolvimento e popularização da ópera, em Veneza, na primeira metade do século XVII, deve muito ao famoso Carnaval da cidade. A relação mais óbvia é que a temporada de óperas acontecia durante o longo período de Carnaval, mas essa não é a única.

Para citar Ellen Rosand, autora do indispensável Opera in Seventeenth-Century Venice: The Creation of a Genre:

“Nascida em Florença e desenvolvida em Roma, a ópera definiu-se essencialmente como gênero em Veneza. Lá, e somente lá, existiam três condições que se provaram cruciais para o seu estabelecimento permanente: demanda regular, apoio financeiro confiável e um público amplo e previsível.”

A ópera no Carnaval

A inauguração do primeiro teatro de ópera aberto ao público, o Teatro San Cassiano, ocorreu em fevereiro de 1637, durante o Carnaval. Na data, foi apresentada a ópera L’Andromeda, com música de Francesco Manelli e libreto de Benedetto Ferrari. Sabemos que foi, muito provavelmente, em fevereiro, porque a dedicatória do libreto, datada de 6 de maio de 1637, menciona que o teatro já havia renascido há dois meses e, naquele ano, a Quaresma, período em que não se apresentavam óperas, começou no dia 25 de fevereiro.

Foi dito que o teatro “renasceu” porque em 1633, quando era um teatro de prosa, ele foi destruído por um incêndio. Ao reconstruir o teatro, os irmãos Tron, proprietários do San Cassiano, resolveram transformá-lo em um teatro de música (ou seja, de ópera, termo ainda não utilizado na época). Isso mudou radicalmente a história dessa arte que existia há apenas três décadas.

Até então, a ópera era um espetáculo exclusivo da nobreza, apresentado nos palácios para convidados. Com a abertura do San Cassiano como teatro de ópera, ela passou a ser um evento comercial, aberto ao público mediante a compra de ingressos, como acontece até hoje.

L’Andromeda, por sua vez, foi a primeira ópera da história aberta ao público pagante. A ela seguiu-se, no Carnaval de 1638, La Maga Fulminata, também de Manelli e Ferrari. Infelizmente, todas as obras da dupla se perderam — não sabemos como foram as primeiras óperas públicas da História.

Foi no mesmo San Cassiano que, em 1639, foi apresentada Le Nozze di Teti e di Peleo. O título marcou a estreia de um dos compositores mais importantes do século XVII: Francesco Cavalli, discípulo de Claudio Monteverdi. No Carnaval seguinte, a grande atração do San Cassiano foi justamente uma ópera do próprio Monteverdi, escrita já com a estética musical de Veneza: Il Ritorno d’Ulisse in Patria, com libreto de Giacomo Badoaro.

A lista de óperas é enorme e o San Cassiano foi apenas o primeiro teatro. A ele se seguiram tantos outros, inclusive o Teatro Novissimo, que foi o primeiro teatro de ópera concebido desde o início para ser exclusivamente um teatro de ópera. O Novissimo contava com um sistema especial de maquinário e com os sofisticados cenários de Giacomo Torelli. A inauguração ocorreu em janeiro de 1641 (portanto durante o Carnaval) com a ópera La Finta Pazza, de Francesco Sacrati e libreto de Giulio Strozzi. O sucesso da ópera foi tamanho que as apresentações foram retomadas após a Quaresma, excepcionalmente fora do período de Carnaval.

Os reflexos da sociedade de Veneza na construção das tramas das óperas

A influência do Carnaval nas óperas vai além do calendário. Em primeiro lugar, era preciso haver público para que os espetáculos se sustentassem financeiramente. Com o prestígio do Carnaval, nobres e burgueses de toda a Europa iam à Veneza. Segundo Rosand, entre 1637 e 1678, o público de Veneza viu mais de 150 óperas em nove teatros diferentes. Segundo ela, havia cerca de vinte compositores e quarenta libretistas.

Além disso, essa sociedade carnavalesca era uma sociedade consideravelmente mais liberal — libertina mesmo — e humanista que a do restante da Itália. Esse espírito da sociedade de Veneza moldou um estilo de ópera barroca com tramas amorais, cheias de personagens e ramificações, com traições e troca de casais, além de cenas cômicas inseridas no drama.

Christophe Dumaux na produção de Mariame Clément de Il Giasone, que estreou em 2010 (Foto: Annemie Augustijns)

Em óperas como Il Giasone, de Cavalli, por exemplo, uma das mais populares e emblemáticas do século XVII, Giasone (ou Jasão), como se sabe, foi enviado a Cólquida para buscar o Velocino de Ouro (a lã de um carneiro alado). Lá, apaixona-se por uma amante misteriosa, com a qual só se encontra à noite, no escuro. Ele está apaixonado, deixa a sua missão em segundo plano, pouco se importa com a identidade da sua amada, e nem sabe que ela se trata de Medeia, uma princesa e feiticeira. Medeia engravida, dá à luz gêmeos e procura Jasão para se identificar e exigir que ele se case com ela. O enamorado Jasão aceita, mas o problema (e ele nem se lembra disso) é que, antes de partir da Tessália, ele já havia deixado sua noiva Isífile, outra princesa, grávida também de gêmeos. Como é típico das óperas barrocas, Isífile vai a Cólquida em busca do noivo infiel.

Esse é apenas o começo de uma trama intrincada, narrado em linhas bastante gerais, sem mencionar todos os personagens cômicos, como as amas das duas princesas. Já serve, contudo, para que o leitor tenha uma ideia do tipo de enredo nada ingênuo e bastante distante da mitologia na qual se baseia, o que é típico da Veneza do século XVII. Ao contrário da sociedade de hoje, que busca autenticidade e indícios de veracidade até na narrativa de influenciadores de redes sociais, a sociedade da época se preocupava com a verossimilhança, mas não com a reprodução fiel do mito. Ao contrário: valorizava a criatividade. Badoaro foi, inclusive, acusado de ter sido pouco criativo por ter-se prendido demais ao mito original em Il Ritorno d’Ulisse.

O mais emblemático exemplo de personagem cômico veneziano são as amas. São, via de regra, mulheres mais velhas, irreverentes, que encaram a realidade de forma fria, amorais (por vezes, até imorais), falam o que pensam, têm humor ácido e um grande apetite sexual. Geralmente, as amas são interpretadas por tenores. Além de conferir uma voz mais áspera, masculina, à figura mais velha da ama, trata-se de um travestimento, prática típica do Carnaval em Veneza.

Nem só de irreverência, porém, era feita a ópera. Os duetos de amor, alguns com grande dose de sensualidade, tornaram-se praticamente obrigatórios; cenas de loucura entraram na moda com La Finta Pazza; os lamentos, com seus típicos tetracordes descendentes e mudanças bruscas de humor, jamais saíram de moda. Nesse período, a ária, que sempre teve que lutar contra a barreira da verossimilhança, foi caindo no gosto tanto dos cantores quando do público, e foi ganhando espaço — os libretistas tiveram que começar a se preocupar em criar situações em que as árias pudessem ser inseridas sem causar estranheza.

É claro que as encenações da óperas não podiam ficar alheias ao clima de espetáculo e esplendor do carnaval veneziano. A prova disso é que as famosas máquinas e os suntuosos cenários de Torelli foram uma marca registrada da produção operística do período.

As máscaras e os incógnitos

O disfarce também é algo forte na ópera veneziana. Nada mais natural em uma sociedade na qual as pessoas eram obrigadas a usar máscaras no Carnaval. De fato, a máscara não era algo facultativo, uma vez que padronizar e aproximar a sociedade, fazer com que nobres e plebeus convivessem na rua todos incógnitos, era um dos objetivos da festa do Carnaval em Veneza. É claro que andar pela rua (e por todos os ambientes públicos, como teatros) sem ser reconhecido tinha outros efeitos além do benéfico efeito social. Essa prática também favorecia a prostituição e as mais diversas traições — como nos enredos das óperas.

E por falar em máscaras e em incógnitos, a Accademia degli Incogniti, fundada pouco antes da chegada da ópera, foi um importante movimento intelectual da Veneza do século XVII. Foi dela que saiu boa parte dos libretistas (como Badoaro e Strozzi), proprietários e diretores dos teatros. 

É importante lembrar que, na época, o Carnaval de Veneza começava no dia 26 de dezembro, dia seguinte ao Natal, e acabava na “terça-feira gorda”, que hoje chamamos de terça-feira de Carnaval, o último dia antes do início da Quaresma (período de jejum e abstinência de carne). No finalzinho do século XVII, durante o XVIII, e até o fim da República de Veneza, o período do Carnaval ganhou mais alguns meses: tinha início no segundo domingo de outubro, fazia um breve intervalo que começava duas semanas antes do Natal, e era retomado no dia 26 de dezembro. Desse modo, durante praticamente metade do ano, era Carnaval em Veneza. E havia, ainda, outras festas, como a Ascensão, em maio. Com isso, na época de Vivaldi, a temporada de óperas se expandiu consideravelmente.

O Carnaval na ópera

No século XIX, a ópera já estava desvinculada do Carnaval, mas, como nosso tema é ópera e Carnaval, não podemos deixar de lembrar das óperas que mencionam o Carnaval. Em La Traviata, de Verdi, no terceiro ato, em seus últimos momentos, Violetta ouve o Carnaval na rua. Em Fosca, de Carlos Gomes, não há Carnaval, mas é retratado o rapto das doze noivas por piratas, ocorrido no século IX, em Veneza, e que deu origem à Festa delle Marie no Carnaval. Por sua vez, La Gioconda, de Ponchielli, se passa exatamente no Carnaval de Veneza.

Bom Carnaval e… boas óperas!


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