Por ocasião do 350º aniversário da morte de Francesco Cavalli, o 43º Monteverdi Festival restaurou e apresentou Le Nozze di Teti e Peleo, primeira ópera do compositor.

Por ocasião do 350º aniversário de morte de Francesco Cavalli, o 43º Monteverdi Festival, realizado de 07 a 21 de junho em Cremona, na Itália, promoveu um importantíssimo resgate histórico: Le Nozze di Teti e Peleo, primeira ópera de Cavalli e a primeira ópera do Seicento veneziano, cuja partitura sobreviveu, foi restaurada e apresentada em 19 e 21 de junho, no aconchegante Teatro Ponchielli.
Le Nozze di Teti e Peleo estreou em janeiro de 1639 no Teatro San Cassiano (o primeiro teatro de ópera aberto ao público), em Veneza. Voltou ao palco algumas vezes durante o século XVII. No século XX, tem-se notícia de uma apresentação — provavelmente não na íntegra e com algumas adaptações —, dirigida por Filippo Crivelli, realizada em 1959, durante o XXII Festival di Musica Contemporanea (atual Bienal) de Veneza. Foi, contudo, para a edição deste ano do Monteverdi Festival que a partitura foi restaurada de modo a possibilitar a execução da obra em tempos modernos.
O manuscrito e o restauro
No programa de sala, Danilo Mattia De Pascali relata que o manuscrito original, conservado na Biblioteca Marciana, em Veneza, passou por um trabalho de transcrição e transposição em edição moderna, realizado pela professora Angela Romagnoli, a partir do qual o maestro Antonio Greco restaurou a obra. De Pascali informa que a necessidade de restauração não vem de problemas de conservação ou de ilegibilidade, mas da natureza do manuscrito, provavelmente destinado ao baixo contínuo ou a alguma outra função teatral. “O manuscrito, em suma, nem sempre conserva toda a realização sonora da obra, mas frequentemente deixa pistas. Pistas ora muito claras, ora mais esquivas, que indicam a direção da vontade musical e teatral de Cavalli, sem nos entregá-la sempre em forma acabada”.
Segundo De Pascali, apenas os dois coros do primeiro ato, Alla caccia, alla caccia e Su dunque all’armi, estão com a música escrita na íntegra. No caminho oposto está o início do prólogo: “A rubrica presente no manuscrito, ‘La Fama suona la Tromba, di poi dà principio al Canto’, pressupõe a presença de uma sinfonia introdutória, que, no entanto, não consta no testemunho. Dessa indicação nasceu a escolha, junto ao Maestro Emilio Botto, de utilizar material de Girolamo Fantini, perfeitamente contemporâneo à obra e coerente com o contexto evocado pela fonte”. Parte desse mesmo material foi usada como uma espécie de ritornelo no início do prólogo, durante o primeiro recitativo da Fama.
No texto, há uma longa argumentação em defesa da ideia de que o trabalho de Greco consistiu em restaurar uma partitura antiga (e musicalmente incompleta) para que possa ser executada em tempos modernos, e não em compor “uma ópera barroca de Antonio Greco”. A ópera, segundo De Pascali, continua sendo de Cavalli: “A imaginação original, a estrutura teatral, o mundo poético e musical de que tudo parte pertencem a ele. Mas a forma concreta que hoje chega ao público passa por muitas mãos: a fonte manuscrita sobrevivente, a transcrição moderna de Angela Romagnoli, o trabalho de restauração e integração de Antonio Greco, o diálogo com a direção cênica de Petra Deidda, as necessidades vivas da cena contemporânea”.

Metateatro em Cremona
O primeiro ato começa com a cena que consta como quinta no libreto original de Persiani: a cena “Infernale”. Nela, Eaco, juiz infernal e pai de Peleo, pede a Plutão que esmague o orgulho temerário de Júpiter. Isso porque, como ficamos sabendo apenas na quinta cena da ópera (que no libreto aparece como primeira), Júpiter havia se apaixonado por Teti. O deus, no entanto, é informado por Mercúrio que ela havia recebido uma profecia: o filho por ela gerado seria mais forte que seu pai. Júpiter, evidentemente, não gosta da ideia e determina que ela se case com Peleo. Nesse caso, como vimos, quem não fica satisfeito é Eaco. Tal inversão não contribui para a compreensão da ópera. A dúvida é se está assim no manuscrito ou se foi uma escolha de Greco ou Deidda.
Outra decisão estranha foi a de fazer o intervalo não entre os dois primeiros atos, mas antes da cena nona do primeiro ato. Assim, o “segundo ato” começou abruptamente, com o monólogo de Tritone. Após as três curtas cenas do ato anterior que haviam ficado sobrando, vieram a dança que fecharia o primeiro ato e uma sinfonia que abriria o segundo. Novamente, não sabemos como está no manuscrito.
Como é típico da ópera barroca, o libreto não busca ser fiel a qualquer versão do mito. Desse modo, o fato de não ter sido convidada para o casamento de Teti e Peleo não é, na ópera, a motivação da ação da Discórdia. Logo no início, na mencionada cena que abre a versão de Greco, enquanto juízes e deuses infernais discutem o quanto a união de Teti e Peleo os desagrada, a Discórdia aparece prometendo resolver o problema. E é assim que ela envia ao baccanale a Maçã da Discórdia com a singela mensagem: “Donisi questo pomo alla più bella”. Giunone, Pallade e Venere não tardam a se considerar, cada uma, a destinatária da maçã.
E a Discórdia não para por aí. Por meio de disfarces e intrigas, ela semeia ciúmes e desentendimentos entre o casal. Então, eis que surge Himeneo, o deus do casamento, um deus ex machina: ele restabelece a concórdia e dá seguimento às bodas. Sabemos que dessa união nascerá, de fato, um forte guerreiro: Aquiles. E não podemos nos esquecer de que, da intriga da maçã, resultou a promessa de Vênus a Páris: ela lhe concederá a mão da mulher mais bela da Grécia. Está, assim, armado o tabuleiro para a Guerra de Troia.
Um importante mérito do espetáculo apresentado em Cremona foi a sua fluência. Uma fluência difícil de se obter em uma ópera em que predomina o recitativo e que, ao mesmo tempo, é fundamental para manter o interesse do público. Isso se deve, em grande parte, à direção musical de Antonio Greco, que, mais que um restaurador, é quase um coautor da obra que ouvimos — embora o texto do programa insista no contrário. Essa intimidade com a obra ficou impressa em sua regência e na execução da ótima Orchestra Cremona Antiqua. Era notável, sobretudo, a flexibilidade com que brotava a linha do baixo contínuo.
Para as récitas de Le Nozze di Teti e Peleo, não foi utilizado o fosso: a orquestra ficou posicionada à frente da plateia. Não havia nenhuma barreira entre plateia e orquestra. Da mesma forma, a direção cênica de Petra Deidda também soube aproveitar, de modo eficiente, todo o espaço do teatro — sobretudo nos momentos em que entrava o coro. Com um currículo de assistente de importantes diretores cênicos, Deidda estreou como diretora cênica propondo um metateatro e com uma boa direção de atores, o que também contribuiu com a fluência do espetáculo.
Reforçando o metateatro e fazendo referência ao teatro clássico, máscaras grandes, todas iguais, imitando máscaras de pedra e presas por uma haste, eram seguradas por alguns — sobretudo pelo coro. Nem sempre os figurinos semelhantes de Valentina Volpi contribuíram com a diferenciação dos personagens, cujos nomes tampouco apareciam nas legendas (o que teria sido muito útil, uma vez que o texto era perfeitamente compreensível, tanto graças ao estilo recitativo quanto à ótima dicção de todos os intérpretes). Volpi também assinou o eficiente cenário: minimalista e no estilo de um pequeno teatro.
Dentre o elenco, destacaram-se os dois protagonistas: a mezzosoprano Valentina Ferrarese, como Teti, e o tenor Ferran Albrich, como Peleo. Vencedora do Concurso Cavalli-Monteverdi, a atuação de Ferrarese foi marcante, sobretudo no grande lamento de Teti no início do segundo ato. É um longo recitativo que exige da intérprete criatividade, expressividade e fraseado. Como Peleo, Albrich impôs a sua vocalidade forte, abaritonada e expressiva.

A Discórdia foi cenicamente muito bem construída por Deidda e pelo contratenor Danilo Pastore. Com braços longos, essa personagem cômica, que consegue alcançar e prender a todos, teve o seu protagonismo acentuado pela ótima atuação cênica de Pastore. Vocalmente, alternando entre o falsete e o registro mais próximo do falado, o contratenor não só explorou um eficiente recurso utilizado para personagens cômicos, como distinguiu a Discórdia de Meleagro, papel que também interpretou.
A lista de intérpretes coadjuvantes é numerosa: conta com catorze nomes além dos três já citados. De um modo geral, saíram-se muito bem. Causou-me preocupação, contudo, a emissão do jovem tenor Angelo Testori (Marte, Momo e Minos). No sentido oposto, Matteo Straffi (Mercúrio e Eaco), outro tenor, merece destaque. Também merece aplausos o desempenho do Coro Cremona Antiqua, preparado por Diego Maccagnola.
Fotos: Antonino Dimondo (na foto de destaque, Ferran Albrich como Peleo).

Cofundadora do site Notas Musicais, é a correspondente no Brasil das revistas l’Opera (Itália) e Pro Ópera (México). Colabora, ainda, com a revista Opera with Opera News (UK) e com o site L’Ape Musicale (Itália). Fez parte do júri das edições 2020 e 2022 a 2026 do Concurso Brasileiro de Canto ‘Maria Callas’ e é membro do conselho de Amigos da Cia. Ópera São Paulo. Em 2017, fez a tradução, para o português, do libreto da ópera Tres Sombreros de Copa, de Ricardo Llorca, para a estreia mundial da obra, em São Paulo. Estudou canto durante vários anos e tem se dedicado ao estudo da história da ópera e do canto lírico.
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