Baixo brasileiro é Gigante em Viena

Matheus França, membro do elenco estável da Ópera de Viena, interpretou Fafner em O Anel do Nibelungo.

Neste ano em que O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, completa os 150 anos da sua estreia, a Ópera de Viena está se despedindo da produção assinada por Sven-Eric Bechtolf. Abstrata, atemporal, com cenas inspiradas, mas outras de gosto duvidoso, a montagem ficou em cartaz durante os últimos vinte anos. Para nós, brasileiros, esse evento tem ainda um interesse adicional: o gigante Fafner é interpretado pelo baixo brasileiro Matheus França, membro do elenco estável da Wiener Staatsoper.

De 06 a 14 de junho, fiquei em Viena para assistir ao Anel e, claro, conversar com Matheus.

A descoberta da música

De ascendência italiana, Matheus França nasceu e cresceu em contato com a língua italiana e com o canto. “Em casa, cantar sempre foi um ofício”. Embora a sua família seja toda mineira, nasceu em Brasília, cidade onde passou parte da infância e onde cursou Biologia na Universidade Católica de Brasília, fazendo conexões com alguns departamentos da Universidade Nacional de Brasília (UNB). Foi quando tomou contato com o coro sinfônico da UNB. E aí tudo mudou. Matheus passou a fazer parte do coro e, enquanto concluía a graduação em biologia, ingressou na de música — regência, canto e licenciatura.

Na época, o seu interesse maior era a regência: para ele, o cantor não tinha liberdade alguma, devia sempre obedecer ao maestro, e ele queria ter o domínio da execução musical. “Era uma visão pequena: na verdade, no canto, você pode se libertar”, comentou. Chegou a trabalhar como regente assistente do coro sinfônico da UNB e, depois de formado, regendo orquestras.

O canto

Em 2014, uma tia, irmã gêmea da sua mãe, viu que estavam abertas as audições para o Coro Lírico Municipal, do Theatro Municipal de São Paulo, e recomendou que ele tentasse: ela queria que ele saísse de Uberlândia e fosse para um grande centro como São Paulo. Matheus relutou, mas a tia insistiu, e, em consideração a ela, ele participou das audições e foi aprovado. A tia estava gravemente doente e hospitalizada. Ele ligou para ela, falou que tinha passado e, pouco depois, ela descansou — contou Matheus, que até hoje sente a presença dessa tia querida em sua vida.

Em 2017, na semana anterior ao início dos ensaios da ópera Nabucco, de Verdi, no TMSP, Matheus foi chamado para interpretar Zaccaria. Para ele foi um susto: ele era coralista, não solista, e, evidentemente, não sabia o papel. Encorajado a aceitar pelo maestro Mário Zaccaro, Matheus aprendeu a parte em poucos dias e fez o seu primeiro solo importante. Foi nesse mesmo papel, aliás, que ele retornou ao Municipal, em 2024, já com uma carreira de solista consolidada, na produção de Christiane Jatahy. Matheus só lamenta que a sua volta ao teatro tenha ocorrido durante uma crise de pneumonia: “Eu não sei como eu consegui cantar”, contou.

A mudança para a Europa

Matheus França (foto: site oficial do artista)

No início de 2020, durante as férias do coro — portanto, pouco antes da pandemia de COVID-19 —, Matheus viajou para a Europa para fazer audições, mas sem sucesso. Desiludido, pensou em desistir, em largar o canto, a música, e voltar para a biologia. Ligou para o baixo Luiz-Ottavio Faria, seu professor e amigo, e falou que iria desistir.

O célebre baixo austríaco Kurt Rydl estava com Luiz-Ottavio. Rydl ouviu, pelo telefone, a voz (falada) forte e grave de Matheus e ficou impressionado. Entendo perfeitamente o espanto de Rydl! Quando eu estava esperando para pegar o meu ingresso, antes do Das Rheingold, vi um rapaz alto entrar no café e saudar amigos, com uma impressionante voz de baixo que ressoou no ambiente. Era Matheus, que estava recebendo visitantes brasileiros.

Luiz-Ottavio e Rydl ajudaram Matheus a comprar a passagem para ir a Viena fazer um trabalho de uma semana com Rydl. Além das aulas, o austríaco apresentou-lhe um agente. Foi o que garantiu a estreia europeia de Matheus, no ano seguinte, assim que os teatros reabriram após a pandemia. Ele foi o Padre Guardiano, em La Forza del Destino, no Festival de Klosterneuburg.

De Berna a Viena

Em seguida, Matheus foi para Berna, na Suíça, onde integrou o elenco estável até o final da temporada 2023/2024. Em julho de 2024, cantando como freelancer, mudou-se para Viena. Durante esse período, apresentou-se na Bulgária, na República Tcheca, no Japão, no México e no Brasil (o citado Nabucco em São Paulo). No começo de 2025, no entanto, conheceu um pianista que havia trabalhado durante mais de quarenta anos na Ópera de Viena e foi fazer alguns repasses com ele. Foi esse pianista que, impressionado com a voz de Matheus, sugeriu-lhe que fizesse audições na Staatsoper da capital austríaca.

Embora o pianista não tenha indicado Matheus diretamente à casa de ópera, ele escreveu um relatório que chegou ao conhecimento da direção. Foi marcada a audição. Durante a prova, Matheus teve que trabalhar sete árias em diversos idiomas. No dia seguinte, já foi contratado para integrar o ensamble da Staatsoper. Desse modo, a célebre ópera vienense, um dos principais teatros de ópera do mundo, passou a ter dois brasileiros em seu elenco estável atual, uma vez que o barítono Leonardo Neiva já estava por lá.

A Staatsoper

Em Viena, Matheus tem uma intensa rotina de ensaios. A casa de ópera tem cerca de 14 pianistas correpetidores, divididos entre coachings, maestros assistentes e suggeritori. São trabalhadas, simultaneamente, diversas óperas em um mesmo dia. Normalmente, os membros do ensamble estão em mais de uma ao mesmo tempo, seja como um solista importante, seja como doppione, seja em um papel menor. Desse modo, é comum o cantor ter o ensaio de uma ópera pela manhã, e o de outra à tarde. Para trabalhar em um teatro de ópera que tem récitas praticamente todos os dias, é preciso ter resistência física e, como bem pontuou Matheus, equilíbrio emocional.

O canto em alemão

O Anel deste ano foi o primeiro de Matheus em Viena, mas não o primeiro da sua carreira. Ele já participou da obra-prima de Wagner quando esteve em Berna. É evidente que cantar Wagner em Viena tem um peso que não é pequeno. Sempre há a expectativa da reação do público e da exigente crítica local.

Embora Matheus já seja fluente em alemão, há papéis que, segundo ele, ainda precisam esperar que ele esteja mais familiarizado com as nuances e dialetos do idioma. Hagen, no Crepúsculo dos Deuses, é um exemplo. “No dia em que eu conseguir falar o alemão sem ter que pensar, eu posso fazer o Hagen”, disse Matheus. “Quando você tem a língua embaixo da sua pele, você não pensa em adaptar a voz para reproduzir a língua: a língua surge”. E isso é fundamental para diversos personagens como Hagen, com aquela fala violenta, sob o risco de empurrar a voz se a língua não brotar com naturalidade. Outro exemplo está em Der Rosenkavalier, no barão Ochs, que tem uma fala irônica e usa o dialeto vienense. Matheus disse já ter feito repasses para Ochs, que é perfeito para a sua voz e, portanto, está na lista dos papéis que estão esperando a maior maturidade do alemão.

Para Matheus, na carreira, “é interessante você ser realista consigo mesmo, entender o seu nível e não querer correr com as coisas, dar tempo para absorver mais habilidades, ter mais maturidade”.

Fafner

Matheus França em Siegfried

Matheus se saiu muito bem com Fafner aqui em Viena. Em O Ouro do Reno, a sua voz escura contrastou de forma perfeita coma voz mais brilhante do baixo Simonas Strazdas, que fez o gigante Fasolt — aquele que está mais interessado no amor, reluta em trocar Freia pelo ouro, mas também acaba querendo o ouro e é morto por Fafner. Em Siegfried, Fafner está dormindo, na caverna. Por isso, Matheus começa cantando debaixo do palco. Se, por um lado, é criado um efeito interessante, uma discreta reverberação, por outro o som fica distante. Mesmo assim, a sua voz é ouvida e passa pela orquestra. Ferido por Siegfried, quando está morrendo, Fafner vai subindo e canta sem nenhuma barreira, até um tanto elevado. É aí que a voz poderosa de Matheus toma conta da sala.

A próxima temporada

Na próxima temporada, a segunda de Matheus no ensamble, a agenda do baixo brasileiro continuará intensa em terras vienenses. Em sua lista estão mais de uma dezena de novos papéis, o que garante uma pesada rotina de ensaios. Dentre esses papéis estão, ainda neste ano, Plutão (em L’Orfeo) e Colline (em La Bohème), e, em 2027, Titurel (em Parsifal) e Capellio em (I Capuleti e I Montecchi).

Como é bom ver um cantor brasileiro desenvolvendo uma carreira em um teatro que oferece tantas oportunidades de construir e amadurecer os mais variados papéis. Ainda mais com um verdadeiro exército de pianistas correpetidores e maestros auxiliares. Que Matheus tenha muito sucesso em Viena e no mundo!


Fotos de cena: Wiener Staatsoper/Michael Pöhn (na foto principal, Matheus França em “O Ouro do Reno”).


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