Matinê em Gala numa tarde com Puccini

A tarde de domingo de 26 de julho presenteou o público carioca no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, às 16h, com a apresentação de um concerto dedicado a Giacomo Puccini (1858-1924), compositor italiano recentemente memorizado por seus 100 anos de morte em 2024. Autor de muitos títulos operísticos, sua atuação seguiu além, incluindo composições orquestrais e gêneros religiosos. Para o concerto, as peças foram selecionadas de variadas óperas, cantadas por solistas, além de uma abertura orquestral designada por Preludio in La maggiore.

O evento foi realizado a partir de uma parceria do TMRJ com o Programa Ópera Itália, uma iniciativa internacional extremamente relevante que visa à promoção de atividades líricas na América Latina, oportunizando os jovens à formação e à apresentação em concertos. Representado no país pela soprano Thayana Roverso, o evento contou ainda com a parceria da Ação Social pela Música no Brasil, tendo a Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro participação na execução das peças regidas por André dos Santos.

Os cantores escalados ao concerto foram as sopranos Thayana Roverso, já citada anteriormente, e Mariana Gomes. Além das mulheres, o tenor Eric Herrero, atual diretor artístico do TMRJ, também participou das apresentações junto ao barítono Vinícius Atique. Para a primeira parte do programa, composta por seis números, incluindo o prelúdio executado pela orquestra, cada solista pôde apresentar-se ao menos uma vez. Após o intervalo, todos estiveram juntos para a execução do terceiro ato da ópera La Bohème.

Mesmo diante de um cenário de inverno na cidade maravilhosa, numa típica tarde de sol confortável, notou-se um esvaziamento bastante significativo das diversas cadeiras disponíveis, talvez por conta da baixa divulgação do evento. Somente no dia anterior fui informado sobre e, tão logo sugerido à compra de ingresso, verifiquei que a disponibilidade de assentos era muito grande, o que permitiu escolha adequada. Os preços praticados foram extremamente acessíveis, o que garantiria também maior presença de público. Por outro lado, interessante destacar a maneira como o evento foi propagado: Concerto de Gala Puccini. A qualquer leitor poderia parecer tratar-se de uma realização extremamente excludente, considerando os sentidos percebidos pelo vocábulo “gala”. Inevitavelmente, na enunciação do termo associações como trajes sofisticados e modos aristocráticos podem se valer no imaginário do público, algo que afastaria, em parte, a presença massiva. Com o valor praticado e o horário agendado, o que se viu, ao contrário, foi um evento desejoso de maior público, com um caráter mais de matinê do que propriamente de gala.

E, por falar em público, o que se viu durante todo o espetáculo foi o silêncio desejado para eventos musicais desse porte. De maneira muito diferente, como se tem visto nas últimas apresentações de ópera, quando telefones e conversas são ouvidas sem muita preocupação, dessa vez os presentes, detentores de maior consciência, demonstraram maior atenção à música, com raros momentos de perturbação ao ouvido alheio. Por essa característica, posso assegurar que o sucesso do evento já valeu!

Quanto à seleção das peças, foi notória a preocupação de buscar composições que demonstrassem a diversidade estilística proposta por Puccini. Os trechos de óperas buscaram atender aos naipes vocais disponíveis, considerando o conhecimento de um público que não teve a oportunidade de acompanhar legendas em português, uma vez que o sistema não estava disponibilizado. Mesmo em se tratando de obras bastante conhecidas, houve alguma dificuldade no entendimento das narrativas verbais propostas, ainda mais acentuado pela diversidade de óperas de onde as peças foram extraídas. Com essa problemática, o esforço da plateia foi ainda maior, o que torna mais louvável o espetáculo do ponto de vista dos ouvintes.

Antes mesmo do início da música propriamente dita, o evento foi apresentado sumariamente por dois dos cantores, Eric Herrero e Thayana Roverso. Os dois tiveram o cuidado com o público ao explicar como se constituía o concerto, quem eram os representantes para a ideia acontecer e o que se buscava a partir de todos os projetos envolvidos. Já nesse primeiro momento, notou-se a disponibilização de ao menos quatro microfones à frente, sem contar com mais um, este sem fio, revezado na mão dos apresentadores. Durante a fala de Roverso, o sistema de som falhou, devendo ela utilizar apenas a emissão vocal para ser ouvida por todo teatro. Com alguma demora, o sistema voltou, e parece que, durante o espetáculo, veio provocar mais algum desajuste conforme trataremos adiante.

Iniciado o concerto, depois de algumas falas e pequeno atraso, o público pôde contar com a interpretação do Preludio in La Maggiore, obra orquestral escrita em 1882. Já nas primeiras notas, percebeu-se certa instabilidade na segurança da sonoridade proposta, com flautas e cordas oscilantes na afinação. O mesmo aconteceu com os metais, sobretudo nos momentos de maior volume, algo bastante recorrente em todas as peças. Conforme o texto musical decorria, a segurança dos musicistas se consolidava, trazendo maior liberdade expressiva. No fim, o caráter romântico da obra se mostrou, a partir da linguagem desejada pelo compositor.

A segunda peça, Torna ai felici dì, da ópera Le Villi (1884), trouxe, na interpretação de Eric Herrero, uma languidez que evoca uma tradição de bel canto, audível e consumida com toda facilidade. O acompanhamento orquestral estava adequado, a não ser nos momentos fortes, quando, da parte do maestro, faltou a condução justa para que o volume não cobrisse o solista. Infelizmente, essa tendência aconteceu em todo o concerto nas demais peças.

O terceiro momento esteve na voz de Thayana Roverso, interpretando Quando me’n vo’, da ópera La Bohème (1896). Com belo timbre e boa capacidade nas notas agudas, o tempo de valsa demorou a aparecer, o que sugere melhor entrosamento das partes. Iniciada a peça, a musicalidade aconteceu, ainda com problemas relacionados ao volume nos momentos fortes. Como tal aspecto fora recorrente, fiquei imaginando se os microfones disponíveis estariam exatamente à frente para auxiliar na propagação das vozes. De minha parte, não foi possível concluir se de fato era essa a funcionalidade.

A quarta peça apresentada veio na voz de Mariana Gomes, interpretando Un bel dì vedremo, da ópera Madama Butterfly (1904). Por si só, a famosa ária, talvez uma das mais conhecidas escritas para soprano, fala sem nada dizer! E, na voz da intérprete, alcançou considerável marca de qualidade interpretativa. Notou-se a sustentação natural da voz, com clara demonstração de uma sonoridade proveniente de dentro, com total apoio corporal e peso adequado ao texto musical. Ao fim da peça, as palmas foram mais evidentes!

O quinto momento foi apresentado pelo barítono Vinícius Atique, com a interpretação de Nulla! Silenzio! da ópera Il Tabarro (1918). Aqui já foi possível notar um Puccini com boas influências de Wagner, propondo uma música bastante incidental, por vezes lembrando em muito uma típica trilha sonora de cinematografia. Com belo timbre e excelente projeção, coube ao cantor sustentar o seu momento em meio a uma orquestra que parecia não ter uma compreensão adequada da difícil partitura que representa essa obra. Muitas dissonâncias não foram devidamente mostradas, assim como os diversos momentos entre a tensão e o repouso, típico da linguagem tonal. Por fim, valeu em muito a atuação vocal e dramática da peça, sustentada com maestria!

A sexta peça esteve na voz de Herrero, com a clássica E lucevan le stelle, da ópera Tosca (1900). Aqui houve maior entrosamento entre orquestra e cantor, com adequado equilíbrio, permitindo bastante fluidez vocal.

Na conclusão da primeira parte do concerto, tivemos a sétima apresentação, com o barítono Vinícius Atique interpretando Te Deum, também da ópera Tosca. Com timbre bonito e boa projeção vocal, sua atuação expressou devidamente as características dramáticas desejadas.

Após o intervalo, a orquestra apresentou o Intermezzo da ópera Manon Lescaut (1893). Notou-se um aprazível diálogo das cordas, com boa sonoridade ao violoncelo. A poética da obra foi compreendida, mas ainda havendo necessidade de melhor expressividade nas frases e nos diversos planos sonoros do texto musical. Por se tratar de uma composição muito bonita, ao final foi possível observar a boa receptividade por parte do público.

Na conclusão do concerto, o Atto III da ópera La Bohème foi interpretado por todos os cantores, trazendo mais movimento cênico. E, ao final, toda essa dinâmica proporcionou ainda maior interação com a plateia. Diante das palmas, um bis foi realizado, com Nessun dorma, ária da ópera Turandot (1924), levando mais uma vez o público à satisfação.

No final da programação, percebi o quanto o TMRJ poderia investir em concertos desse porte. Cantores variados, diferentes timbres, boa possibilidade de conhecer as obras de um dado compositor e orquestra jovem foram alguns dos pontos positivos na agradável tarde de domingo. Oxalá que outros concertos assim aconteçam, com simplicidade e afeto, caracterizando uma excelente condição de tornar o universo operístico mais acessível. Para qualquer iniciante, foi possível acompanhar, resguardadas as pontualidades, a linguagem proposta. A meu lado, estava minha afilhada, debutando em seus oito anos num concerto erudito, emocionada por toda a programação apresentada. Assim como ela, viu-se uma orquestra que não debutou, mas esforça-se, em rostos tão jovens, ávidos pelo complexo mundo da música clássica, a absorver toda a dinâmica dos elementos musicais tão necessários à formação de um musicista. Aliás, notar os jovens na orquestra fez-me muito bem, possibilitando vislumbrar um futuro promissor àqueles que darão continuidade a tudo o que se viu! E que venham outros mais!


Foto: Daniel Ebendinger (do site da OSJRJ).

Nota do editor: Não foram foram disponibilizadas fotos oficiais do concerto. Caso sejam disponibilizadas, as fotos desta publicação serão atualizadas.


Descubra mais sobre Notas Musicais

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *