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Uma grande artista e uma grande interpretação

Em Niterói, a soprano Gabriella Pace interpretou à perfeição monólogo de Francis Poulenc.

Há quase dois anos, escrevi em uma resenha sobre um Nabucco muito mal encenado que não havia nada mais importante em uma ópera que os cantores. Meu objetivo era destacar a excelência do canto de uma das solistas escaladas para aquela produção cênica descartável.

Na ocasião, dentre outras coisas, escrevi: “O que faz alguém se apaixonar pela ópera são a música e os cantores. (…) A ópera pode ser apresentada em forma de concerto, sem encenação. Pode ser apresentada até sem orquestra, acompanhada ao piano por exemplo”. E, após mais alguns argumentos para defender a ideia, concluí: “Assim, no princípio era a música, criada pelos grandes compositores, mas que somente chega até nós, os amantes da ópera, por meio, principalmente, dos cantores”.

É cada vez mais raro, mas, por vezes, esbarramos por aí em alguma montagem lírica em que o foco está todo neles, os cantores. Há poucas semanas, fiquei sabendo: na programação do Festival Lírico de Niterói (FELINI) estava prevista uma apresentação da ópera-monólogo A Voz Humana, de Francis Poulenc, precedida do Lamento d’Arianna, de Claudio Monteverdi. A solista seria uma das principais cantoras líricas brasileiras da atualidade. Não tinha como dar errado. Assim, no dia 28 de agosto, parti para o outro lado da Baía de Guanabara para assistir à primeira de duas apresentações no Theatro Municipal de Niterói.

Gabriella Pace como Arianna

O espetáculo, que já havia sido apresentado em São Paulo em 31 de janeiro e em 1º de fevereiro (como uma das primeiras produções da Companhia Brasileira de Ópera de Câmara), começa com o Lamento d’Arianna, o único fragmento remanescente da ópera perdida L’Arianna (1608), de Claudio Monteverdi. Nele, a protagonista lamenta ter sido abandonada por Teseo, aquele por quem ela havia largado tudo, e a quem tanto amou e foi fiel.

Em seguida, é apresentada uma das grandes obras de Francis Poulenc, La Voix Humaine (A Voz Humana), sobre libreto de Jean Cocteau, com base na peça teatral homônima do próprio libretista. Estreada em Paris, em 6 de fevereiro de 1959, esta ópera-monólogo apresenta uma mulher abandonada pelo amante e que, através do telefone, procura manter um diálogo com ele.

Durante a conversa, ela demonstra diferentes estados emocionais, e utiliza artifícios como a mentira para tentar não deixar que seu interlocutor perceba o seu desespero com a separação. Ora esperançosa e negando-se a enxergar a realidade, ora realista e desesperada a ponto de confessar ter tentado o suicídio, esta mulher angustiada conduz, sozinha, o drama.

Quando apresentadas juntas, as duas peças, compostas com 350 anos de distância entre elas, mostram que não mudou muita coisa na maneira como as mulheres são tratadas por alguns homens – e o “caso Epstein”, revelado já neste século, está aí para não me deixar mentir.

Atuação hipnotizante

Dando vida tanto à Arianna quanto a Elle (como é nomeada vagamente a personagem da ópera de Poulenc), a soprano Gabriella Pace ofereceu uma interpretação impecável de ambas as personagens abandonadas pelos homens que amam. Sua Arianna se mostrou mais altiva em seu sofrimento, ao passo que, para Elle, Pace construiu um desespero estudadamente mal controlado que norteou toda uma atuação hipnotizante, da qual era impossível desviar os olhos.

A impaciência que a personagem demonstra com a telefonista (lembremo-nos de que a obra se passa nos primórdios da comunicação telefônica) e com uma senhora que aparece em uma “linha cruzada” já apontavam o caminho dessa construção dramática que foi se intensificando à medida que a ação avançava e que as quedas da ligação aconteciam.

Gabriella Pace como Elle

Quando a personagem conversava com o amante, Pace exibia à perfeição uma contenção mal disfarçada que, sempre que a ligação caía, descambava para um desespero cada vez maior, para uma dor cada vez mais dilacerante – uma dor aparentemente “alimentada” pelas migalhas de atenção que o amante ainda se dispõe a oferecer à Elle por telefone. No final da ligação, quando a personagem se despede do amante dizendo cinco vezes que o ama (Je t’aime, je t’aime, je t’aime, je t’aime… t’aime), essa dor pareceu saltar do palco para o público: era uma dor que se podia quase sentir, e que foi o resultado de uma grande interpretação de uma grande artista.

Com poucos elementos servindo de cenário, o encenador argentino Pablo Maritano, claro, contribuiu bastante para a construção das duas protagonistas, Arianna e Elle, seja pelas orientações passadas e seguidas pela solista, seja por não ter proposto nenhuma ideia ou expediente que pudesse retirar dela a sua natural centralidade. Ao piano, Vitor Philomeno teceu com sensibilidade a música que acompanhou os dois dramas, especialmente aquela de Poulenc.

Como lembrei no segundo parágrafo desta resenha, “O que faz alguém se apaixonar pela ópera são a música e os cantores. (…)”. No espaço aconchegante e intimista do Municipal de Niterói, uma cantora dotada de excelente voz e de amplos recursos dramáticos mostrou que esse pensamento não deve estar muito longe da verdade.

Vitor Philomeno, Gabriella Pace e Pablo Maritano

Fotos: Ulisses Franceschi (na foto principal, Gabriella Pace como Elle, em “A Voz Humana”).


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1 Comentário

  1. Tenho muita simpatia por esta pocket opera que, por sua economia de recursos, assisti representada por inúmeras vezes em meus já longos 68 anos. É curioso como as sensações perante ela mudaram com o passar dos anos. Já me arrancou lágrimas, ódio, indiferença. Hj sinto uma certa piedade pela protagonista, perdida nas sempre vãs ilusões amorosas de uma adulta ainda jovem.
    A Pace esteve divina em seu longo robe em SP. Mostrou a grande intérprete que é, esse ano já pulando de Fata Morgana para nordestina. Ameia-a aqui, parece ter sido igualmente envolvente em Niterói

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