Dois momentos de arte: “Requiem” de Verdi em São Paulo; “Don Quixote” no Rio
Obra-prima de Giuseppe Verdi recebeu ótima interpretação na Sala São Paulo, enquanto balé com música de Ludwig Minkus é um belo espetáculo no TMRJ.
Em dois dias seguidos, 21 e 22 de agosto, assisti respectivamente, na Sala São Paulo, à Messa da Requiem (Missa de Réquiem), de Giuseppe Verdi, em concerto da temporada oficial da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo); e no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o balé Don Quixote, com música de Ludwig Minkus, que teve até substituição de protagonista ao longo do primeiro ato.
Requiem de Verdi: quatro ótimos solistas e uma interpretação de alto nível
Verdi era um grande admirador de Alessandro Manzoni, certamente o maior literato italiano seu contemporâneo e um dos grandes defensores do Risorgimento (o movimento político e cultural que, naqueles tempos, lutava pela unificação da Itália). Quando o escritor faleceu em 1873, comovido, Verdi decidiu homenageá-lo compondo um Requiem que seria apresentado pela primeira vez no exato primeiro aniversário de morte de Manzoni (22 de maio de 1874).
O compositor já havia proposto algo semelhante quando do falecimento de Gioachino Rossini, em 1868, quando cada uma das partes da Missa de Réquiem deveria ter sido composta por um autor diferente. O projeto acabou não dando certo, mas Verdi guardou o movimento que lhe cabia (Libera me) na obra pensada para várias mãos, e o aproveitou na homenagem a Manzoni.
152 anos depois da estreia, o Requiem de Verdi é reconhecido mundialmente como uma obra-prima, ainda que, até hoje, surjam aqui e ali acusações de que, tendo sido escrita por um grande compositor de óperas, esta obra seria mais dramática que religiosa. Não sei se é bem assim. O compositor era um homem de teatro, e a sua missa pelos mortos, de alguma forma, absorve e reflete essa verve dramática incondicional, sem, no entanto, deixar de atentar para o aspecto religioso.
Este aspecto, no entanto, é abordado na obra pelo ponto de vista de um homem que nunca teve vergonha de se declarar ateu e, portanto, tinha uma visão mais crítica sobre as crenças humanas. Qual o sentido da vida se, no final, sempre haverá o fim absoluto? O pesadíssimo – e maravilhoso – Dies Irae, retomado algumas vezes ao longo da obra, parece-me, em alguma medida, expressar mais essa questão existencial, e menos o temor sobre um eventual “julgamento” pelo qual todas as almas passarão segundo o rito cristão.
Ao peso e à exuberância do coro e dos metais no Dies irae e no Tuba mirum, Verdi contrapõe passagens resignadas, outras impregnadas de fé e lirismo, por vezes de dúvida e temor. Com orquestração brilhante e distribuição inteligente, os movimentos da obra dialogam em um processo coeso, preciso, cuidadoso. E esse cuidado pôde ser percebido na sexta-feira, 21 de agosto, quando a Sala São Paulo abrigou uma interpretação de alto nível desta obra incontornável.

Comecemos pelo quarteto de solistas. Única brasileira à frente do palco, a mezzosoprano Luisa Francesconi ofereceu aquela que, para este autor, foi a sua melhor prestação em tempos recentes. Com uma voz segura e sempre bem projetada, a artista abordou a partitura com expressividade e intenção, com destaque para a beleza do seu fraseado em passagens como Recordare e Lux aeternam. O mesmo pode-se dizer do tenor britânico-americano Joshua Blue, que exibiu também um lindo fraseado e ótima afinação nos movimentos dos quais participou, com destaque para o seu tocante Ingemisco.
O baixo chinês Peixin Chen apresentou uma voz dotada de um timbre absolutamente cativante, e cantou muito bem o Mors stupebit e outras passagens. Deixou transparecer, no entanto, certa imprecisão nos agudos, como se pôde perceber no seu Confutatis maledictis. Também chinesa, a soprano Guanqun Yu exibiu uma voz bastante equilibrada e homogênea, com excelente domínio técnico. Assim, cantou muito bem durante toda a noite, mas, justamente no movimento final, Libera me, sua abordagem careceu de certo peso, pelo menos para o gosto do autor. Esses apontamentos, no entanto, são pequenos detalhes, e faço questão de registrar que, quando analisados em conjunto, os solistas escalados pela Osesp formaram o melhor quarteto que já pude ver ao vivo interpretando esta obra-prima.
O Coro da Osesp recebeu o reforço do Coro Lírico Municipal (TMSP), sob a preparação de Hernán Sánchez Arteaga, e durante a maior parte do concerto os conjuntos reunidos se apresentaram muito bem, ressaltando os contrastes e as cores de cada passagem com intervenção coral. As vozes femininas, especialmente, estavam muito bem calibradas e expressivas. Talvez tenha faltado, apenas, algum controle maior do volume nas partes mais pesadas, como no já citado Dies Irae. Nesses momentos, o peso das vozes era tanto que até a orquestra restava abafada.
A Osesp, muito bem conduzida pelo norte-americano Andrew Litton, ofereceu ao público toda a sua qualidade técnica, com sonoridade limpa, excelente articulação e uma expressividade musical que se impunha. E, mesmo considerando a ressalva do parágrafo anterior, Litton primou pelo equilíbrio da construção musical durante a maior parte do concerto, alcançando uma interpretação realmente qualificada deste Verdi superlativo.
P.S.: a apresentação de sábado (22/08) está disponível no Youtube e pode ser assistida até esta terça-feira, 25/08 (neste link).
Don Quixote: um espetáculo encantador

No dia seguinte, já de volta ao Rio de Janeiro, conferi no Theatro Municipal a uma das apresentações do balé Don Quixote, com concepção, adaptação e coreografia de Hélio Bejani e Jorge Teixeira.
Muito bonita e muito bem realizada, a obra expressa alguns dos ideais quixotescos, como o amor e a justiça. No recorte do balé, Don Quixote ajuda dois jovens apaixonados a ficarem juntos, apesar do desejo do pai da moça de casá-la com um homem de posses. Os coloridos figurinos de Tania Agra, os eficientes cenários de Glauco Bernardi e da Pará Produções e Eventos, e a ótima iluminação de Paulo Ornellas (que alcança um belíssimo efeito no segundo ato) contribuem bastante para o encanto visual da produção.
Na récita de sábado, a primeira-bailarina Márcia Jaqueline deveria interpretar a jovem Kitri, mas, ainda no primeiro ato, sofreu uma contusão e precisou ser substituída por Marcela Borges, que estava escalada nesta récita para ser a Rainha das Dríades. Marcela já estava escalada também para interpretar Kitri nos dias 28 e 30 de agosto, e, com a contusão da colega, precisou antecipar a sua estreia como a protagonista.
A arte, por vezes “arteira”, prega essas peças de vez em quando. Como costuma acontecer nessas ocasiões, o público jogou junto, e apoiou Marcela Borges durante toda a apresentação. A artista deu muito boa conta da personagem, e substituiu Marcia Jaqueline à altura. A contusão sofrida pela primeira-bailarina, apurei depois, é na panturrilha: ela está bem e se recuperando.
Outras ótimas atuações que merecem destaque foram aquelas de Cícero Gomes (Basílio) – que se mostrou emocionado diante da contusão da colega –, Edifranc Alves (Don Quixote), Ronaldo Martins (Sancho Pança) e Diovana Piredda (Cupido).
A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, bem conduzida por Tobias Volkmann, interpretou com segurança a música de Ludwig Minkus, e merece menção especial o belíssimo solo de violoncelo do começo do segundo ato, muito bem interpretado por Marcelo Salles.

Fotos Osesp: reprodução do Youtube.
Fotos Don Quixote: Daniel Ebendinger.

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.
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