“Don Pasquale”: quando a força do teatro se apresenta sem firulas

Com desempenho musical equilibrado, excelente encenação de Livia Sabag é o grande trunfo da montagem da obra-prima cômica de Donizetti no Theatro São Pedro-SP.

Don Pasquale, 1843
Ópera em três atos

Música: Gaetano Donizetti (1797-1848)
Libreto: Giovanni Ruffini (1807-1881)
Base do libreto: o libreto que Angelo Anelli (1761-1820) escreveu para a ópera Ser Marcantonio (1808), de Stefano Pavesi (1779-1850)

Theatro São Pedro-SP

12 de julho de 2026

Direção musical: Ira Levin
Direção cênica: Livia Sabag
Cenografia: Daniela Gogoni
Figurinos: Fabio Namatame
Iluminação: Valéria Lovato
Visagismo: Tiça Camargo

Elenco:
Don Pasquale – Rodrigo Esteves, barítono
Norina – Raquel Paulin, soprano
Dr. Malatesta – Santiago Villalba, barítono
Ernesto – Guilherme Moreira, tenor
Notário – Gustavo Lassen, baixo
Francesca – Chica Portugal, atriz

Coro (Bruno Costa)
Orquestra do Theatro São Pedro

Don Pasquale, ópera-bufa em três atos e cinco quadros de Gaetano Donizetti, sobre um libreto de Giovanni Ruffini que recebeu algumas alterações/correções do próprio compositor, é o segundo título lírico relevante apresentado neste ano pelo Theatro São Pedro, de São Paulo.

Domenico Gaetano Maria Donizetti (1797-1848) escreveu mais de setenta óperas ao longo da sua carreira, interrompida precocemente aos 50 anos pela sífilis – doença que evoluiu para a demência, levando-o à morte. Em sua produção, há desde obras descartáveis até grandes obras-primas, como Lucia di Lammermoor e Don Pasquale, passando por outras obras de grande interesse como, dentre outras, Anna Bolena, Roberto Devereux, Maria Stuarda, L’Elisir d’Amore, La Fille du Régiment, Lucrezia Borgia, La Favorita, Poliuto e Linda di Chamounix. Donizetti, tal qual Rossini e Bellini, não só precedeu Verdi, mas, homem de teatro que era, influenciou verdadeiramente a música e o teatro daquele se tornaria o maior gênio da história da ópera italiana.

O libreto de Don Pasquale é baseado em outro libreto: aquele que Angelo Anelli escreveu para a ópera Ser Marcantonio, de Stefano Pavesi. A trama da obra narra as peripécias de um jovem casal apaixonado, Ernesto e Norina, que, para se casar, conta com a ajuda do astuto Doutor Malatesta para driblar as extravagâncias de um velho rico (Pasquale, tio de Ernesto). Opa! Eu escrevi “velho”? Que jeito mal-educado de se referir a um homem idoso em nossos dias, não? É verdade, e hoje temos até um nome para definir esse preconceito: etarismo. Nos idos da primeira metade do século XIX, no entanto, e ainda mais no âmbito de uma obra cômica, esse tipo de “definição” era amplamente aceito. Voltaremos a falar disso mais adiante nesta resenha.

Coro lança contas a pagar sobre Don Pasquale (Rodrigo Esteves) no começo do terceiro ato

Apesar de simples à primeira vista, com as reviravoltas típicas de uma ópera-bufa, a trama de Don Pasquale é caracterizada por uma bem-delineada construção psicológica do personagem-título. Mesmo se tratando de uma comédia, Pasquale ganha certo ar dramático ao ter revertidas as suas expectativas em relação ao casamento, a partir do momento em que o falso matrimônio passa a representar um sofrimento para ele. No final, tudo se resolve de maneira simples – talvez simples demais –, arrefecendo um tanto abruptamente o drama construído até ali.

Tudo é revestido por uma música maravilhosa, soberbamente escrita por Donizetti. As melodias brotam com genialidade. Árias, duetos, quartetos e um terceto, escritos de maneira brilhante para a voz e acompanhados por uma orquestração magnífica (considerada inovadora para a época), fazem a ópera avançar com fluidez e dinamismo. A cena e o quarteto que encerram o segundo ato (Riunita immantinente) são de uma precisão rítmica e de uma eficácia dramática absolutas.

Vídeos “engraçadinhos” sem qualquer ligação com a obra em questão? Imagens capturadas em tempo real e apresentadas no palco em alguma tela? Cenotécnicos poluindo a cena? Ideias bizarras que ninguém entende, mas muitos fingem entender? Excesso de informações e de coisas acontecendo ao mesmo tempo (impossíveis de serem todas observadas/percebidas)?

Não, nenhuma bobagem, nenhuma nulidade cênica, nenhuma firula faz parte da produção de Don Pasquale no Theatro São Pedro. A encenação concebida por Livia Sabag foca naquilo que a obra tem de mais relevante: a sua natural força teatral. O deslocamento da ação para a década de 1920, uma época importante de lutas pelos direitos das mulheres, não atrapalha em nada o desenvolvimento da ação, e ainda reforça o caráter transgressor da jovem viúva Norina.

Com praticamente todos os solistas apresentando um excelente rendimento cênico, com ótimas atuações dos atores figurantes (que representam os empregados de Don Pasquale) e também com as divertidas cenas do Coro (muito bem dirigidas, a propósito), é o jogo cênico que prende a atenção do público do início ao fim do espetáculo – um jogo cênico que, nas mãos de Livia Sabag, costuma ser sempre refinado.

Raquel Paulin (Norina) e Rodrigo Esteves (Don Pasquale)

As interações entre os personagens são muito bem construídas, as cenas mesclam leveza e efeito teatral, especialmente aquelas de conjunto. E ainda há na montagem uma “cereja do bolo”. Lembra o leitor que, alguns parágrafos acima, citei o etarismo presente na obra? A maneira que a encenadora encontrou para abordar e criticar essa prática discriminatória foi ao mesmo tempo delicada, sutil e encantadora.

Ao longo da ópera, uma das empregadas de Don Pasquale, chamada na montagem de Francesca (papel mudo), demonstra curiosidade sempre que está passando e escuta conversas sobre o casamento do patrão. A princípio, parece apenas bisbilhotice, mas, na cena derradeira, entendemos que, na verdade, tratava-se era ciúme. Enquanto Norina canta os versos finais que, aos ouvidos de hoje, demonstram etarismo ao afirmar que pessoas idosas não deveriam se casar, Francesca, sempre muda e discretamente, demonstra que não é bem assim, e que o amor pode florescer em qualquer fase da vida.

Os demais profissionais de criação contribuem bastante para o bom resultado da montagem. Os cenários de Daniela Gogoni são eficientes e funcionais, e, com o auxílio da ótima iluminação de Valéria Lovato, apresentam quatro ambientes diferentes ao longo da ação. Os figurinos de Fabio Namatame são muito bons, com destaque para aqueles de Norina. E o visagismo de Tiça Camargo complementa bem o visual dos personagens, embora pudesse ter enfatizado mais a aparência envelhecida do intérprete de Don Pasquale. Pelo menos de onde eu estava na plateia, o personagem não parecia nem perto dos 70 anos.

Cena final da ópera / à direita, Don Pasquale (Rodrigo Esteves) e Francesca (Chica Portugal) juntos

Na récita do dia 12 de julho, a Orquestra do Theatro São Pedro apresentou-se bem sob a regência de Ira Levin, ainda que se pudesse notar, aqui ou ali, algum desencontro ou alguma frase musical que poderia ter sido melhor trabalhada em termos de sonoridade. Levin conseguiu alinhavar bem os números de conjunto, sempre um bom desafio em Donizetti, como se pôde observar, por exemplo, durante boa parte do segundo ato, do terceto entre Don Pasquale, Malatesta e Norina em diante. Por outro lado, o regente poderia ter controlado mais o volume da orquestra em algumas passagens. O coro, preparado por Bruno Costa, apresentou-se muito bem.

A atriz Chica Portugal interpretou Francesca com competência, ao mesmo em que, em momento algum, retirou o protagonismo dos cantores (e aqui, mais uma vez, foi possível perceber a “mão” da encenadora: a “mão” de quem sabe o que está fazendo, de quem tem grande intimidade com a arte lírica).

Guilherme Moreira (Ernesto)

O baixo Gustavo Lassen interpretou muito bem a pequena parte do Notário. O tenor Guilherme Moreira destoou um pouco do restante do elenco. Em termos cênicos, apresentou uma atuação abaixo da ótima média da récita, sendo pouco convincente como o apaixonado Ernesto. Vocalmente, notei que, logo no começo de cada peça musical com a sua participação, sua voz soava pouco atraente, para alguns segundos depois se ajustar. Como um todo, sua performance foi mediana.

Já a soprano Raquel Paulin ofereceu uma ótima atuação cênica como Norina. Especialmente nos dois primeiros atos (antes do intervalo, portanto), a artista interpretou muito bem essa mulher que, dentro das possibilidades da obra, busca quebrar algumas convenções da época em que a montagem foi situada – como, por exemplo, aparecer de calça e terninho (e não de saia ou vestido) logo depois do falso casamento com Don Pasquale. Vocalmente, sua performance também foi bem segura, exibindo ótimos agudos. Até a região central da sua voz, que ainda necessita de melhor projeção, correu bem na maior parte do tempo, e me deixou a impressão de que, se o regente tivesse dosado o volume da orquestra como já citado anteriormente, este não teria sido um problema nesta oportunidade.

Raquel Paulin (Norina) e Santiago Villalba (Dr. Malatesta)

Como vem ocorrendo nos últimos anos no São Pedro (Gianni Schicchi, Falstaff), coube ao barítono Rodrigo Esteves interpretar o personagem-título (que, no caso de Don Pasquale, normalmente é confiado a um baixo-bufo ou a um baixo-barítono com boa agilidade). Seu protagonista começou tímido, com a ária Un foco insolito deixando transparecer um timbre bem mais claro que o desejável. Logo em seguida, porém, no dueto com o tenor, Prender moglie?, sua voz já se apresentou mais bem encaixada e com o timbre mais escuro. Do segundo ato em diante (a partir da cena e do terceto com a soprano e o barítono), sua performance vocal mostrou-se de ótimo nível, convencendo muito bem na pele do protagonista. Durante toda a récita, sua atuação cênica foi excelente.

Por fim, a performance mais completa da récita foi a do barítono Santiago Villalba, que construiu um Dr. Malatesta impecável, com voz sempre generosa e muito bem projetada, e uma atuação cênica irrepreensível. O artista cumpriu à perfeição as funções do personagem, de ser o mentor intelectual da lição dada a Don Pasquale e de ser o elo de ligação entre os demais personagens, mostrando-se bastante convincente e persuasivo. Desde a sua ária Bella siccome un angelo, e ao longo de todos os números de conjunto dos quais participou, o barítono ofereceu um desempenho muito gratificante. Um destaque especial vai para o dueto Cheti, cheti, immantinente, interpretado por Villalba e por Rodrigo Esteves com excelente agilidade, e com todas as palavras pronunciadas claramente (o que nem sempre acontece).

Em suma, a presente montagem do Theatro São Pedro para Don Pasquale apresenta-se, desde já e em nível nacional, como um dos mais relevantes momentos líricos do ano até aqui, pela qualidade da sua encenação e pelo bom equilíbrio da sua interpretação musical. Se o leitor ainda não conferiu a produção, sugiro que vá logo vê-la: ainda há três récitas até o dia 18 de julho.

Rodrigo Esteves (Don Pasquale) e Santiago Villalba (Dr. Malatesta)

Fotos: Nadja Kouchi (na foto principal, a partir da esquerda, Chica Portugal, Raquel Paulin, Rodrigo Esteves, Gustavo Lassen, Santiago Villalba e Guilherme Moreira).


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