Um dos mais destacados encenadores de ópera do país assumiu recentemente a condução artística do principal teatro lírico brasileiro, e conversou com Notas Musicais.
Ele nasceu no Líbano, filho de mãe brasileira e pai libanês, e se formou em Paris (na École des Beaux-Arts e no Conservatoire National Supérieur d´Art Dramatique). No começo da carreira, trabalhou nos Estados Unidos com o celebrado encenador Bob Wilson (1941-2025), e poucos anos depois se estabeleceu em São Paulo, cidade com a qual teve ligação desde muito jovem por conta dos laços familiares maternos – e pela qual ele se declara apaixonado.
Com sólida carreira no teatro falado e no teatro musical, nos quais já dirigiu e produziu mais de 100 espetáculos (dentre os quais, My Fair Lady; Evita; Jesus Cristo Superstar; O Rei e eu; West Side Story; Mademoiselle Chanel; Vitor ou Vitória; Medeia; Electra; A Gaivota; O Jardim das Cerejeiras; Cabaret; Pequenos Burgueses; Madame Blavatsky; e Lago 21), ele também se destaca como um dos principais encenadores de óperas do país, tendo dirigido títulos como Tosca, La Bohème, Don Quichotte, The Rake’s Progress, Rigoletto, La Traviata, As Bodas de Fígaro, O Rapto do Serralho, Os Contos de Hoffmann e Sonho de uma Noite de Verão.
Estamos falando de Jorge Takla, que acaba de assumir o cargo de diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo – função, a propósito, inexistente na casa durante toda a administração da Sustenidos Organização Social, cujo contrato de gestão foi encerrado há poucas semanas. Takla chega à administração do TMSP junto com o Instituto Baccareli, que venceu o recente chamamento público realizado pela Prefeitura de São Paulo para escolher o novo gestor da instituição pelos próximos cinco anos.
Gentilmente, Jorge Takla encontrou tempo na sua já lotada agenda para responder, por e-mail, algumas perguntas de Notas Musicais sobre esse começo de gestão e sobre as suas ideias para as futuras temporadas líricas do Theatro Municipal de São Paulo.
ENTREVISTA
Notas Musicais – Segundo entrevista que Edilson Ventureli concedeu a João Luiz Sampaio (Revista Concerto), a programação artística de 2026 estaria mantida, no entanto, alguns dias depois, a Folha de São Paulo informou que a diretora e cenógrafa Daniela Thomas não estaria mais à frente da ópera Tristão e Isolda, prevista para julho (o próprio TMSP confirmou a informação na última sexta-feira em comunicado à imprensa, acrescentando que a direção da ópera passaria a ser de Allex Aguilera). A programação está mesmo mantida? Por que Daniela Thomas não está mais à frente da ópera de Wagner?
Jorge Takla – A programação de títulos para 2026 está mantida. No caso de “Tristan und Isolde” o projeto apresentou vários problemas técnicos como palco aberto e necessidade de amplificação, por exemplo. Tentamos adiar a produção, mas os ingressos já estão vendidos e preferimos manter as datas originais. Oferecemos então um título para a Daniela Thomas na próxima temporada, e conseguimos em 24 horas uma belíssima produção do Teatro de la Maestranza, de Sevilha, dirigida pelo brasileiro Allex Aguilera. A cenografia está sendo construída na nossa Central Técnica, os figurinos de Jesus Ruiz serão trazidos de lá. O próprio Aguilera virá, e queremos fazer parcerias com vários teatros de ópera do mundo.
A gestão da Sustenidos no TMSP gerou nos últimos anos polêmicas envolvendo especialmente as encenações de óperas confiadas a profissionais sem qualquer intimidade com essa forma de arte (e que acabaram resultando, na maioria das vezes, em espetáculos ruins, mal pensados, quase sempre cortados ou enxertados com música alheia às obras originais – ou tudo isso ao mesmo tempo). Como será a abordagem da nova gestão artística do TMSP às encenações de óperas?
A intenção da Sustenidos em trazer profissionais de outras áreas para a ópera foi superválida em alguns casos, em outros não deu muito certo. Mas sempre é importante experimentar o novo. O problema é que você arrisca demais quando coloca à frente de grandes títulos consagrados profissionais de outras áreas sem experiência ou conhecimento musical, e que nem foram assistentes de régisseurs experientes anteriormente. A nossa ideia é arriscar menos e navegar em mares mais seguros, mas sempre buscando o diálogo entre a tradição e o contemporâneo.
Com relação aos elencos das óperas, houve no último ano e meio de gestão da Sustenidos uma boa evolução na qualidade geral dos cantores estrangeiros convidados. O senhor pretende manter a salutar prática de trazer ao TMSP cantores estrangeiros realmente qualificados para se apresentarem ao lado dos artistas brasileiros?
Sempre buscaremos o melhor artista, seja no Brasil ou no estrangeiro, quando não for encontrada a voz e o preparo ideais por aqui. A prioridade sempre será do artista brasileiro, temos excelentes profissionais.

Quais os objetivos gerais da nova gestão artística do TMSP? Está no radar firmar parcerias com teatros do exterior?
Ainda estamos descobrindo, estudando e analisando, e com certeza vamos buscar parcerias no exterior. Já começamos com “Tristan”. O objetivo maior será sempre a excelência.
Na já citada entrevista à Revista Concerto, Edilson Ventureli afirmou que o maestro Fabio Mechetti passará a ser o diretor musical da Orquestra Sinfônica Municipal, enquanto Roberto Minczuk continua como regente titular do conjunto. Como será na prática a divisão de responsabilidades entre os dois regentes?
Este tipo de mudança de fórmula é sempre saudável e enriquecedor para todos. Neste semestre, por exemplo, Minczuk rege o que está programado para ele, enquanto eu trabalho com Mechetti na programação de 2027. Estamos buscando a melhor fórmula de parceria.
Desde 2017 o regente titular da OSM rege praticamente todas as óperas das temporadas líricas do TMSP (são raríssimas as exceções e, sempre que estas ocorreram, quem assumiu a direção musical das produções foi o/a assistente do titular). O senhor não concorda que isso destoa das melhores práticas das principais casas internacionais do gênero? A nova gestão do TMSP pensa em alguma solução para abrir espaço nas produções líricas da casa para regentes convidados?
Sim, com certeza. Estamos trabalhando nisso. São pontos bastante polêmicos do contrato de gestão.
Está nos planos da nova gestão oferecer ao público óperas de Bellini e Donizetti (grandes compositores ignorados na casa há décadas)?
Está sim. O bel canto tem sido um pouco abandonado, sim. Quero muito trazê-lo de volta, em 2027 ou 2028.
Notas Musicais agradece pela entrevista.
Fotos: internet (na foto principal, Joge Takla na plateia do Theatro Municipal de São Paulo – foto de Leo Martins para a Veja SP).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.
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Estou animado com Takla na direção artística. Faz trabalhos lindos, evitando radicalismos no que há tempos chamamos de ‘eurotrash’. Não sou contrário às inovações cênicas dos grandes teatros europeus que, tendo dezenas de produções dos grandes clássicos, querem oferecer montagens arriscadas a uma audiência já cansada de ver o mesmo, ano após ano.
No Brasil, entretanto, as produções mal chegam a uma dezena. Várias obras nem têm a chance de vir uma vez na vida. Temos o direito de ver uma ópera em todo seu esplendor. Além de que, o público muitas vezes é neófito no gênero. Ser presenteado com escorpiões de piscina e propaganda de Vanish nada acrescenta ao imaginário. Diria mesmo que afasta.