Carmela Remigio: “eu queria que a música fosse a minha vida”

A célebre soprano italiana se apresentou em São Paulo pela série Grandes Vozes

Foi em 2010, no Teatro dell’Opera di Roma. Roberto Devereux, de Donizetti. Era a primeira vez que eu assistia a uma ópera em um teatro europeu. Na cena final, Elisabetta, a rainha, estava toda de branco, sem os cabelos, em um cenário escuro. O foco de luz sobre ela. A intensa interpretação deixou a plateia hipnotizada, sem fôlego. Ainda novata, eu mal sabia o nome dos cantores, nem do maestro ou do diretor cênico, mas o nome da soprano que deu vida a Elisabetta e tanto me impactou ficou firmemente gravado em minha memória: Carmela Remigio. Na época, eu não podia imaginar que, 16 anos mais tarde, essa simpática e verdadeira artista estaria diante de mim, na mesa de um restaurante, em São Paulo, contando-me sobre a sua carreira.

Do violino ao canto

Carmela começou a estudar música ainda criança. Quando fez seis anos, ganhou um violino dos pais: como o seu irmão mais velho já estudava música, havia chegado a hora de também ela ser educada nessa linguagem. Se o seu ingresso na música não se deu por um desejo próprio ou inspiração, seja divina ou artística, o seu desenvolvimento musical daí em diante revela uma verdadeira vocação para a interpretação musical. Mais que isso, Carmela contou-me que logo percebeu o quanto gostava de música: “eu queria que a música fosse a minha vida”.

Aos 14 anos, o seu professor de violino sugeriu que ela começasse a estudar canto para melhorar o fraseado do violino. Foi assim que começou os seus estudos com a soprano italiana Nicoletta Panni, de quem foi aluna por um ano e meio. Depois passou a ter aula com o grande barítono Aldo Protti. “Em dois anos eu aprendi toda a técnica. Aprendi, com todo o entusiasmo, que a voz era um instrumento que eu podia ‘tocar’. Mas eu ainda não tinha certeza de que isso podia ser a minha vida, continuava a pensar na voz como um aperfeiçoamento para o instrumento”.

Mesmo assim, ela se aventurou em um concurso para jovens cantores. Foi quando conheceu aquele que viria a ser o seu terceiro professor de canto: o pianista, maestro e autor de vários livros, Leone Magiera. Por ele passaram grandes cantores como Luciano Pavarotti, Mirella Freni e Ruggiero Raimondi. “Com ele aprendi a ser musicista com a voz”. Foi aí que ela passou a crer que podia fazer uma carreira como cantora.

Aos dezoito anos, venceu o concurso Pavarotti (Luciano Pavarotti International Voice Competition), na Filadélfia. A partir daí, começou a fazer audições em teatros italianos e, com apenas vinte anos, debutou como protagonista em uma das principais casas de ópera: o Teatro alla Scala. Ela era a doppione de Anna Caterina Antonacci no papel-título de L’Incoronazione di Poppea, de Monteverdi. No dia da quarta récita, Antonacci, doente, não pôde cantar: Poppea ficou com Carmela. Vinte anos mais tarde, ela voltou a interpretar o mesmo papel no La Scala, dessa vez como a titular.

Claudio Abbado e Mozart

No ano seguinte, teve um encontro que mudou a sua vida. Fez audições com Claudio Abbado, que a escolheu para ser a Donna Anna no Don Giovanni que foi lançado em 1998 pela Deutsche Grammophon. Foi a partir daí que passou a ser chamada pelos teatros.

No YouTube está disponível, tanto com legendas em italiano quanto em espanhol, a produção de Don Giovanni filmada em janeiro de 1997 em Ferrara, com direção cênica de Lorenzo Marini e Claudio Abbado à frente da Chamber Orchestra of Europe. Carmela Remigio divide o palco com Simon Keenlyside (Don Giovanni), Anna Caterina Antonacci (Donna Elvira), Bryn Terfel (Leporello), Bruno Lazzeretti (Don Ottavio), Patrizia Pace (Zerlina) e Ildebrando d’Arcangelo (Masetto). Que elenco! Abaixo, destaco o Non mi dir para que o leitor possa desfrutar da interpretação de Carmela e de seus pianíssimos tanto no recitativo (em sensibile mio core e na terrível e perigosa abbastanza) quanto na ária (bell’idol mio e, sobretudo, na repetição de non mi dir). Um fraseado verdadeiramente belo, com um admirável fiato. E, claro, com a impecável direção de Abbado!

No início da carreira, Carmela cantou muito Mozart: era o mais indicado para uma jovem cantora com a sua vocalidade — e ela gostava. Segundo a soprano, Mozart é fundamental não só para a voz, mas para o teatro, para desenvolver o uso da palavra.

O bel canto

O bel canto também tem um papel importante na carreira de Carmela. De Donizetti, dentre os seus vários papeis, está a trilogia TudorAnna Bolena, Maria Stuarda e Roberto Devereux (nas duas últimas, foi a rainha Elisabetta).

Ela lembra que foi como Anna Bolena que, em 2016, foi premiada com o importante Premio Abbati, conferido pela Associazione Critici Musicali Italiani. O prêmio teve basicamente duas motivações. A primeira: era a primeira vez que a obra estava sendo feita em sua versão integral. A segunda: o estilo apropriado de Carmela ao interpretar uma personagem de bel canto, com “técnica, musicalidade e uma interpretação cênica convincente que lhe permitem oferecer performances de indubitável valor, apoiadas por um conhecimento adequado do estilo de cada partitura”.

No ano passado, em novembro, no Donizetti Opera Festival, em Bérgamo, Carmela estreou o seu mais recente papel donizettiano. Sob a regência de Riccardo Frizza, ela interpretou o papel-título da ópera Caterina Cornaro.

Ela também passou por Bellini, tanto como Norma quanto como Adalgisa. Contou, com orgulho, que esteve, como Adalgisa, ao lado de Mariella Devia várias vezes, inclusive na despedida de Devia do palco cênico, como Norma, em 2018, no Teatro La Fenice. “Mariella cantou essa última récita (…) com uma força e uma teatralidade na voz… Foi uma revelação!”

Voz e estilo

Mesmo com toda essa bela carreira, Carmela diz ter uma pequena frustração: ela queria ter cantado todas as protagonistas de Verdi, mas a sua voz não é adequada para boa parte delas. Apesar disso, ela tem com o que se consolar: cantou Alice Ford, em Falstaff, com Claudio Abbado, no Festival de Salzburg, Amelia em Simon Boccanegra em teatros do calibre do Real de Madri, e do San Carlo de Nápoles, Desdemona em Otello, e, claro, Violetta em La Traviata.

“Creio que na história da música há uma evolução natural do gosto e da voz. Eu sempre gostei de cantar as coisas que sinto que são boas para mim, mas também as que amo cantar. Muitas vezes me oferecem determinadas óperas de Puccini que, no fundo, eu amo, mas as sinto distantes da minha vocalidade” — o que, segundo ela, também traz um problema estilístico, algo a que é sempre bastante atenta.

“Do Barroco a Verdi, utilizo a palavra, e ela é importante do mesmo modo [em todo esse repertório]”, continuou Carmela. “O estilo é diferente, mas a técnica de canto é igual, muda o gosto da interpretação. Na realidade, cada vez que estou dentro de uma produção, eu amo o que canto. Eu me ponho a pesquisar o estilo, a ópera, a história… E assim eu amo o que faço!”

O teatro

A teatralidade é uma característica marcante de Carmela, mas essa teatralidade não vem de uma formação teatral. “Compreendi que o canto me dava a possibilidade de construir uma história por meio da palavra. E isso sempre me fascinou, desde o início. Também fui estimulada pelos meus professores, que me ensinaram sempre que a palavra tem um som com a voz, o som da palavra descreve a música e [palavra e música] se tornam uma coisa só. Assim, não tenho uma formação de atriz, mas tive a possibilidade de trabalhar com grandes diretores cênicos que viram em mim um instinto teatral, e eu me deixei formar, com grande disponibilidade, e em uma época em que o teatro ainda não era tão importante”. E concluiu:

Cronaca di un Amore, no Teatro Municipale di Piacenza (foto: Gianni Cravedi)

Maria Callas

Maria Callas figura no topo da lista dos ídolos de Carmela. Para ela, Callas foi muito mais do que uma grande artista. “Comecei a minha escuta da música lírica ouvindo Maria Callas. Obvio!” — contou. “E talvez isso tenha condicionado a minha pesquisa da palavra na música, porque ela foi a primeira que fez um trabalho inacreditável de união de teatro, voz e palavra, em uma época em que não se fazia isso”. Para Carmela, “ninguém conseguirá superar a intensidade teatral que ela tinha”.

Em março deste ano, em Piacenza, Carmela deu vida a Maria Callas na estreia mundial da ópera Cronaca di un Amore — Callas e Pasolini, de Davide Tramontano. “Contamos a história da Callas não mais cantora, mas atriz, mulher, que, no final da sua vida, esperava ainda um momento de alegria, por amor. A ópera voltará ao palco no ano que vem, em Trento e em Bolonha”.

Carmela Remigio e Marcello Vannucci no Grandes Vozes (foto: Emilio Rago)

Grandes Vozes: Carmela Remigio em São Paulo

No último domingo, 10 de maio, ao lado do tenor Marcello Vannucci e do pianista Leandro Roverso, Camela Remigio estreou no Theatro Municipal de São Paulo. Uma estreia que deveria ter acontecido em 2015, na ópera Così Fan Tutte, de Mozart. A produção, no entanto, foi cancelada, e a soprano teve que esperar mais de uma década para cantar na principal casa de ópera de São Paulo. E essa estreia aconteceu graças à série Grandes Vozes, criada e dirigida por Paulo Esper, patrocinada pelo Consulado Geral da Itália em São Paulo, e que conta, ainda, com a consultoria artística de Sabino Lenoci e com o apoio do Istituto Italiano di Cultura San Paolo, da Sustenidos e da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

Em pleno Dia das Mães, com chuva e frio, o público paulistano foi ao TMSP para ver Carmela Remigio e Marcello Vannucci. E, claro, para ouvir os grandes mestres da ópera italiana: Bellini, Verdi e Puccini. Para mim, em particular, foi uma preciosa oportunidade de voltar a apreciar a carismática interpretação de Carmela, a sua teatralidade. E a grande e ótima surpresa da noite foi a química perfeita entre ela e Vannucci, o que deu um sabor todo especial aos duetos.

Graças à dedicação e ao esforço — ou seria melhor dizer, simplesmente, que é graças “à paixão”? — de Paulo Esper, desde 1997, quando foi inaugurado por ninguém menos que Magda Olivero, a série Grandes Vozes tem trazido a São Paulo os mais importantes nomes da cena lírica internacional. E aqui, neste artigo sobre Carmela Remigio, vale lembrar especialmente da edição de 2014. Foi quando veio Mariella Devia, a grande soprano que, como o leitor já sabe, quatro anos depois, como Norma, se despediria das óperas encenadas tendo Carmela a seu lado. É bonito ver como se entrelaçam as histórias das tantas e tão grandes vozes que têm vindo nos encantar.

Leandro Roverso, Paulo Esper, Sabino Lenoci, Carmela Remigio e Marcello Vannucci no Theatro Municipal de São Paulo (foto: Emilio Rago)

Na foto de destaque, de Emilio Rago, Carmela Remigio na edição 2026 da série Grandes Vozes, no Theatro Municipal de São Paulo.

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