Se não é Agudo, é Grave — Encontro de gerações na ópera
A série Se não é Agudo, é Grave — Encontro de gerações na ópera realiza o terceiro ciclo da sua temporada 2026. Neste domingo, 03 de maio, às 11h, no Teatro Sérgio Cardoso, serão apresentados trechos das óperas O Barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini, e As Bodas de Fígaro, de Wolfgang Amadeus Mozart. Os jovens cantores serão preparados pelo experiente barítono Sandro Christopher, que, ao longo de sua carreira, interpretou Figaro em diversas produções das duas óperas. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados na bilheteria do teatro, 1h antes do início do espetáculo.
Beaumarchais e a trilogia Figaro
Figaro é o tipo do personagem que dispensa apresentação. Desde a infância ouvimos, cá ou lá, seja em um desenho animado, seja em um comercial, a famosa ária Largo al factotum, de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Os mais ligados à ópera, além de já terem assistido à obra de Rossini ao menos uma centena de vezes, também têm uma boa familiaridade com As Bodas de Figaro, da dupla Mozart – Da Ponte.
Figaro ganhou tanta fama que se tornou o típico caso do personagem que supera o seu criador. Se hoje, aqui no Brasil de 2026, nos lembramos do dramaturgo francês Pierre-Augustin de Beaumarchais (1732-1799), é graças à sua trilogia Figaro — ou Le Roman de la Famille Almaviva, como a chamava o autor.
E Beaumarchais foi um personagem e tanto! Dramaturgo, mas também relojoeiro (profissão que aprendeu com o pai), agente secreto, professor de harpa das filhas do rei Louis XV, militante político, vendedor de armas, pioneiro na luta pelos direitos autorais e um dos fundadores da sociedade de autores, editor da obra de Voltaire… Vale observar que entre 1764 e 1765, passou dez meses na Espanha. Isso, certamente, influenciou a sua obra, particularmente a trilogia Figaro.
Le Barbier de Séville, ou la Précaution inutile, a primeira da trilogia, uma comédia em quatro atos, foi composta em 1775 e estreou no mesmo ano na Comédie-Française. A música foi composta por Antoine-Laurent Baudron, que foi primeiro violino e maestro da Comédie-Française. A melodia de Baudron para o romance Je suis Lindor é conhecida, ainda hoje, graças às 12 variações em Mi Bemol Maior (K. 354/299a) que Mozart compôs a partir dela.
Inspirada em l’École des femmes, de Molière, a peça, como o nome sugere, se passa em Sevilha e nos apresenta o Conde Almaviva, apaixonado pela jovem órfã Rosina. O problema é que a jovem mora com Bartholo, seu velho tutor, que pretende se casar com ela. Para resgatar Rosina, Almaviva conta com a ajuda de seu antigo valet: Figaro, o astuto barbeiro faz-tudo (o factotum de Rossini). Como todos sabem, a empreitada é bem-sucedida e Rosina se torna a Condessa Almaviva.
O sucesso da peça foi tamanho que levou Baumarchais a militar pelo reconhecimento dos direitos autorais — até então, as obras teatrais eram exploradas economicamente pela Comédie-Française. Foi o pontapé inicial para o reconhecimento desses direitos, que começou parcialmente ainda no Antigo Regime e estabeleceu-se com a Revolução Francesa.
Não demorou muito para o barbeiro espanhol deixar de falar francês e passar a cantar em italiano. Em 1782, Giovanni Paisiello (1740-1816) transformou a peça na ópera Il barbiere di Siviglia, ovvero La precauzione inutile. Em 1816, ano da morte de Paisiello, foi a vez de Gioachino Rossini (1792-1868) compor o seu famoso Il barbiere di Siviglia, ossia L’Inutile precauzione.
A segunda obra, La Folle Journée, ou le Mariage de Figaro, comédia em cinco atos, foi composta em 1778. Por conta de problemas com a censura, após uma apresentação em 1781 na Comédie-Française, estreou oficialmente apenas em 1784, no teatro François, hoje Théâtre de l’Odéon. Mais uma vez a música foi composta por Baudron.
Na trama, Figaro vai casar-se com Sosanne, mas descobre que o Conde deseja “restaurar” o droit de cuissage — literalmente, direito da primeira noite, normalmente traduzido como direito feudal. Segundo a lenda, na idade média os senhores feudais tinham o direito de, na noite de núpcias, tirar a virgindade de uma noiva que estivesse sob o seu domínio.
É evidente que esse “direito feudal” é uma denúncia das desigualdades da sociedade e dos privilégios arcaicos da aristocracia. Embora as três peças tenham um tom satírico e político, esse tom é mais forte nas Bodas. Por isso, o rei Louis XVI a considerou execrável. Reza a lenda que Danton dizia que Figaro matou a nobreza e que Napoleão considerava a peça como a Revolução Francesa em ação.
Além das más intenções do Conde, Bartholo e Marceline (que não sabiam que Figaro era o filho deles), também tentam impedir a união do casal. Evidentemente, o astuto Figaro consegue vencer todos os obstáculos e, também nessa segunda peça, o casamento é bem-sucedido. Um personagem importante da peça é o pajem Chérubin, um adolescente de 13 anos, na flor da puberdade e apaixonado por todas as mulheres, inclusive pela Condessa. Ele participa da trama e, ao que tudo indica, consegue seduzir Rosina…
Apenas dois anos após a estreia da peça, mais uma vez Figaro trocou o francês pelo italiano, mas dessa vez com sotaque austríaco. Em 1786, em Viena, ele subiu ao palco do Burgtheater como personagem de Le Nozze di Figaro, de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), com libreto de Lorenzo Da Ponte.
É na terceira peça, L’Autre Tartuffe, ou la Mère coupable, que são confirmados os indícios de que a Chérubin caiu, de fato, nas graças da Condessa. O drama moral em cinco atos, que estreou em 1792 no Théâtre du Marais, começa no dia do aniversário de Léon, filho da Condessa com Chérubin.
A família Almaviva deixou a Andaluzia e mudou-se para a França. O drama gira em torno da intriga feita pelo irlandês Bégearss, que tenta se casar com Florestine, filha que o Conde teve fora do casamento. Susanne e Figaro conseguem desmascarar a intriga e a terceira peça termina com o terceiro casamento. Dessa vez, é um casamento curioso: o de León, filho da Condessa, com Florestine, filha do Conde!
Como Léon e Florestine não são irmãos e muito menos gêmeos, Richard Wagner não se interessou pela peça, que teve que esperar até meados do século XX para virar ópera. Foi quando, finalmente, Figaro pôde cantar em sua língua natal! Em 1966, a ópera La Mère Coupable, de Darius Milhaud (1892-1974), estreou em Genebra. A peça de Beaumarchais também foi o ponto de partida do libreto de William Hoffman para a ópera The Ghosts of Versailles, de John Corigliano (1938), encomendada para comemorar o centenário do Metropolitam Opera, em 1983 — mas que acabou estreando apenas em 1991.
Ao longo da trilogia, Figaro não sofre grandes alterações, mantém-se mais ou menos estável. Não à toa, em todas as adaptações para a ópera, do Barbier a La Mère, de Paisiello a Milhaud, ele é um barítono. Quanto a Almaviva, ao lançar a última parte da trilogia, Beaumarchais fez o seguinte convite: “depois de ter se divertido no Barbier de Séville com a juventude turbulenta do Conde Almaviva, depois de ter observado com alegria, em La Folle Journée, os erros de sua idade viril, venha se convencer, através do retrato de sua velhice, de que todo homem que não nasceu um vilão terrível sempre acaba sendo bom”.
Sandro Christopher

Nascido no Mato Grosso do Sul, Sandro Christopher foi criado em Brasília, onde começou os seus estudos de canto. Durante 15 anos, morou nos Estados Unidos e na Europa, onde aperfeiçoou o seu canto e desenvolveu uma carreira internacional. Além de barítono, atuando tanto em óperas como em musicais, também é ator e já participou de novelas e seriados televisivos.
Ao longo de sua carreira, Christopher participou, em diversos teatros, tanto de O Barbeiro de Sevilha quanto de As Bodas de Figaro — e foi Figaro em ambas. Além de Figaro, interpretou, ainda, Bartolo no Barbeiro e o Conde Almaviva nas Bodas.
Ficha Técnica
Concepção e direção artística: Sandro Christopher
Coordenação: Calebe Faria
Piano: Ariel Magno da Costa
Curadoria: Paulo Esper (espetáculo 2085)
Elenco
O Barbeiro de Sevilha
Figaro: Calebe Faria, barítono
Conde Almaviva: Paulo Lanine, tenor
Bartolo: Jolián Lisnichuk, barítono
Rosina: Alessandra Carvalho, soprano
Basilio: Marcus Ouros, barítono
Berta: Thayana Roverso, soprano
Ufficiale: Rodolfo Farias, barítono
As Bodas de Fígaro
Figaro: Calebe Faria, barítono
Conde Almaviva: Vinicius Atique, barítono (participação especial)
Condessa: Cintia Cunha, soprano
Susanna: Thayana Roverso, soprano
Cherubino: Stefania Cap, mezzosoprano
Bartolo: Julián Lisnichuk, barítono
Basilio: Rodolfo Farias, barítono
Marcellina: Cecilia Massa, mezzosoprano
Antonio: Marcus Ouros, barítono
Se não é Agudo, é Grave — Encontro de gerações na ópera
Até dezembro, serão dez ciclos de masterclasses e recitais (veja a lista abaixo) em que jovens cantores líricos terão a oportunidade de trabalhar trechos de óperas com um artista brasileiro experiente e já consagrado. Cada ciclo contará com uma semana de preparação e será encerrado com um recital cênico no Teatro Sérgio Cardoso, que ocorrerá sempre aos domingos, às 11h.
O projeto, realizado pela Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA), tem curadoria de Paulo Esper, diretor da Cia Ópera São Paulo.
Temporada 2026
Os recitais acontecem sempre aos domingos, às 11h, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
08 de março– Abel Rocha: A Flauta Mágica (W. A. Mozart)
12 de abril – Bruno Costa: Cenas Madrileñas
03 de maio – Sandro Christopher: Beaumarchais e seus Fígaros
07 de junho – Rosana Lamosa: Óperas Americanas
26 de julho – Paulo Mandarino: La Bohème (Giacomo Puccini)
16 de agosto – Eduardo Álvares: Tosca (Giacomo Puccini)
13 de setembro – Jorge Coli: Il Guarany (Antônio Carlos Gomes)
11 de outubro – Olga Matushenko: Heroínas de Verdi
08 de novembro – Denise de Freitas: Cavalleria Rusticana (Pietro Mascagni)
06 de dezembro – Eliane Coelho: Don Pasquale (Gaetano Donizetti)
Ingressos: entrada gratuita / os ingressos podem ser retirados na bilheteria do teatro 1h antes do espetáculo.
Foto: divulgação.
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Cofundadora do site Notas Musicais, é a correspondente no Brasil das revistas L’Opera (Itália) e Pro Ópera (México). Colabora, ainda, com a Opera Magazine (UK) e com o site L’Ape Musicale (Itália). Fez parte do júri das edições 2020 e 2022 a 2025 do Concurso Brasileiro de Canto ‘Maria Callas’ e é membro do conselho de Amigos da Cia. Ópera São Paulo. Em 2017, fez a tradução, para o português, do libreto da ópera Tres Sombreros de Copa, de Ricardo Llorca, para a estreia mundial da obra, em São Paulo. Estudou canto durante vários anos e tem se dedicado ao estudo da história da ópera e do canto lírico.





