O grito da Princesa Lo-u-ling, entalado na alma de uma descendente que séculos depois manipula os seus pretendentes, completa mais um ciclo neste mês. 100 anos de China vertida na arte europeia, naquela que muitos dizem ser a última verdadeira ópera romântica italiana. Quanta coisa o mundo não viu neste tempo! Mais uma Guerra Mundial, uma Guerra Fria, uma integração mundial como nunca antes e o advento dos computadores, da Internet e, mais recentemente, da Inteligência Artificial, que eu prometo não usar para escrever estas linhas. Na lírica, vimos o triunfo dos Três Tenores, Mario del Monaco cantando Otello, Joan Sutherland… e isto basta. É de minha mentalidade analítica à la Sheldon Cooper lembrar datas de aniversário, tanto de pessoas quanto de eventos. Quanto ao meu aniversário, por exemplo, não tenho do que reclamar, já que conto com a companhia do compositor Beethoven e de Olavo Bilac.
Mas hoje é outro aniversário que celebramos. Em 25 de abril de 1926, um domingo, estreou no Teatro alla Scala de Milão a ópera Turandot, de Giacomo Puccini. É a última ópera do compositor, que faleceu em novembro de 1924 antes de completá-la, em decorrência de uma cirurgia arriscada na garganta. O libreto é assinado por Giuseppe Adami e Renato Simoni, e a regência da estreia mundial coube ao celebérrimo maestro Arturo Toscanini, que na minha família diziam ser apelidado l’ometto. Este episódio reuniu toda a nata da música lírica italiana à época, e, como não podia deixar de ser, foi afetado pela hiperpolitização em tempos de regime fascista. Mussolini quis participar do evento, mas as desavenças com Toscanini já haviam transbordado o copo; il Duce então optou pela diplomacia e se ausentou, não sem depositar flores, por meio de algum representante, na estátua do compositor.
O tema da princesa de gelo, infensa a qualquer fraqueza afetiva ou sentimental, mas que por fim cede aos encantos do príncipe desconhecido, fascinou Puccini, o qual, após Madama Butterfly, já havia perdido as resistências em se aventurar em projetos “exóticos”1, isto é, orientalistas e muito distantes da cultura europeia à qual ele pertencia. Verdi, seu predecessor e supremo inspirador, já havia abordado este gênero com a ópera Aida, ambientada no Egito. Convém lembrar, inclusive, que foi por ter assistido a esta ópera durante a sua juventude que Puccini decidiu ingressar no mundo da composição operística. O trecho “já havia perdido as resistências” não deve ser tomado ao pé da letra; por vezes, a ambientação chinesa da ópera o fez pensar em desistir. Mesmo assim, em 1922 ele já havia recebido o libreto todo pronto, e em 1923 já havia musicado a partitura até a morte de Liù, personagem que inspira pena, compaixão e ternura. Durante a composição, ele sempre refletiu muito sobre como deveria ser o clímax da ópera: o beijo entre o príncipe e a gélida soberana, cuja música, no entanto, um tumor maligno na garganta não lhe permitiu terminar. O mestre fumava demais.
Em Bruxelas, Giacomo expirou, sem deixar qualquer instrução sobre quem terminaria a ópera incompleta. Um acordo a portas fechadas incumbiu desta insigne e delicada tarefa o compositor Franco Alfano, o qual, após palpites e um pedido de refazimento por Toscanini, finalmente completou a versão que hoje é a mais apresentada mundialmente nos teatros. Outros finais para a ópera surgiriam posteriormente, como por exemplo o de Luciano Berio (2001), mas nenhum se fixou em repertório como o de Alfano; a meu ver, acertadamente.
A soprano polonesa Rosa Raisa foi Turandot. Era dotada de potência sonora invejável, tendo ambos (Puccini e Toscanini) se encantado com a sua voz muitos anos antes. Somado ao sucesso que fez mundo afora, inclusive nos Estados Unidos, não surpreende nem um pouco a sua escolha no cast da première. Anos depois, sopranos dramáticos e spinto de diversos matizes imortalizaram este papel: Ghena Dimitrova, Birgit Nilsson, Eva Marton e… ah, o meu próprio sangue também, Leila Guimarães. Miguel Fleta, tenor espanhol que dispensa apresentações, foi o príncipe estrangeiro Calaf, e Maria Zamboni, artista que teve carreira intensa aqui mesmo também, na América do Sul, falecida em 1976, foi a primeira Liù. O decorador florentino Galileo Chini ocupou-se do cenário2. Aqui você poderá ver mais detalhes sobre o percurso artístico que levou Giacomo a escolher o Sr. Chini para tão grandiloquente tarefa.

Toscanini, um homem duro, por vezes rabugento, mas de uma ética e de uma coerência pessoal admiráveis, era um sentimental. Quando afeiçoado a alguém, ou quando tinha desafetos, fazia questão de deixar claro, como por exemplo com seu antifascismo que tantos dissabores lhe custou. Assim, nada poderia ser mais típico do que quando ele interrompeu a condução da ópera logo após a morte de Liù para anunciar: “Aqui a ópera acabou, porque morreu o maestro”3. A plateia comoveu-se, e a récita cessou ali, diante daquela homenagem que se tornaria uma das mais icônicas da história da ópera.
A versão incluindo o final de Franco Alfano só seria apresentada nas récitas seguintes. Justiça seja feita, Alfano, cujo nome só é lembrado mecanicamente na apresentação, também fez um trabalho digno de todos os louvores. A cena do beijo entre Turandot e Calaf é entrecortada por acordes intensos que conferem à orquestra um som marcial. “Il bacio tuo mi dà l’eternità”, diz Calaf, trêmulo, mas apaixonado, pronto a despir o seu interior, a sua identidade, a sua inspiração suprema para viver em nome de uma princesa que poderia desprezá-lo; mas ele a vence, por fim, antes que ela anuncie ao pai: “Il suo nome è Amor!”. O espetáculo termina com um coro triunfante, recapitulando o mesmo tema da ária Nessun dorma, cantada minutos antes no mesmo ato. Uma daquelas coincidências prosaicas, mas de certo valor simbólico, é que Verdi também terminara a sua carreira operística com um coro alegre e de redenção: “Tutto nel mondo è burla”…
Desta vez, não tenho récita ao vivo para anunciar, caro leitor. Claro, que las hay, las hay, mas estão fora de meu circuito, infelizmente. Era apenas este registro mesmo. Turandot marcou a minha infância de uma maneira tal que, se eu a fosse descrever aqui, poderia ser criticado por favorecimento familiar. Escrevo isto com um sorriso nostálgico, lembrando o quanto o coro da Testa Mozza me soava misterioso e o quanto o Festival de Torre del Lago, na edição de 1998, dedicado à música de Puccini, quando contava eu apenas com nove anos, foi daquelas experiências que fazem a palavra “inesquecível” virar eufemismo clichê. Uma última coisa: disse lá em cima que no meu aniversário nasceram Beethoven e Olavo Bilac. Pois bem: também em 16 de dezembro de 2017 morreu Simonetta Puccini, neta de Giacomo, que eu conheci. Lembrar datas tão bem, às vezes, faz ciscos caírem no olho.
Notas
1. Que me perdoem os mais sensíveis, influenciados pela cultura universitária moderna, se a passagem lhes parecer eurocêntrica; mas “exótico” é tomado aqui apenas sob a perspectiva e o contexto puccinianos, no começo do século XX.
2. The first performance of Puccini’s Turandot – archive, 1926. Matéria disponível em https://www.theguardian.com/music/2026/apr/22/tfirst-performance-of-puccini-turandot-opera-1926.
3. Serie 5: “Cronologie. N. 1: Le otto stagioni di Toscanini alla Scala 1921-1929”. por Carlo Marinelli Roscioni (Roma 1993).

Bruno Góes nasceu em 1988, é formado em Engenharia e pós-graduado em Filosofia. Já escreveu no site Movimento.com, e fez cursos de piano e violoncelo, este último no conservatório de sua cidade Natal, Passa Quatro. É assíduo interessado em tudo o que concerne a música clássica, com ênfase em compositores de ópera como Wagner, Verdi e Puccini.





