Quem me lê aqui sabe o quanto gosto de apontar a contraditoriedade das emoções humanas, por vezes raiando o paradoxo, mas isto é sumamente bom. O texto que escrevi aqui sobre o Barroco musical não me deixa mentir. E a música reflete, na progressão de sons que se intercalam como um caleidoscópio, um conjunto de emoções que é fluxo, que é andança, que nunca se prende a uma fotografia de momento, mas que abarca as impressões mais díspares e opostas. E a obra que comentaremos hoje se debruça principalmente sobre uma destas antíteses: o popular, de ouvido, de memória prosaica, e o intelectual, denso, repleto de meneios.
Dito isto: abram alas, Notas Musicais, que eu quero passar! A programação de música clássica do Rio de Janeiro para esta temporada não para; em artigo anterior, avisei que seria uma temporada promissora. A apresentação de Carmina Burana, no TMRJ, a partir de 08 de abril, faz jus à chamada. É reedição de uma versão bem sucedida em 2025, conforme anunciado aqui. Estamos diante da música do terror, da tensão, daquelas que muitos já ouviram sem saber qual era o seu título. Trata-se de uma cantata composta pelo compositor e pedagogo alemão Carl Orff, estreada em 1937; não a chamem de ópera, se não quiserem cometer uma atrocidade musicológica. A obra, de aproximadamente uma hora de duração, segue uma estrutura não linear que ecoa os primeiros versos: O Fortuna, velut luna, statu variabilis (Oh, sorte, és como a lua: de estado variável).
Estes são os versos pertencentes ao prólogo, O Fortuna, indiscutivelmente a parte mais famosa da cantata. Para muitos o maior coro de todos os tempos. Madeiras, metais e percussão formam um colorido orquestral tonitruante em Ré menor intercalado com alguns instrumentos de sopro em Si menor e em Mi menor, que ressoam na memória de quem quer que tenha ouvido os seus primeiros acordes, garantindo a sua eternidade no “Hall da fama”. Poderia escrever um livro aqui sobre as emoções que este trecho evoca para justificar a sua merecida popularidade.
Carmina Burana é uma adaptação de uma antiga coletânea de poemas bávaros medievais, escritos num contexto de mosteiros religiosos, tão importantes para a cultura local nos séculos XI, XII e XIII. Foi composta como componente de um trio, que também compreende Catulli Carmina (1943) e Trionfo di Afrodite (1953), que, infelizmente, não alcançaram o repertório comum.
Ironicamente, o não tão célebre centro da cantata, além do prólogo, tem tom predominantemente alegre, cantando os prazeres do vinho e o despertar da primavera. Mais ironicamente ainda, não se trata de meros textos solenes religiosos, muito pelo contrário: há zoeira e bebedeira à vontade, safadeza, amizade, primavera e festejos, com direito a versos em latim, alto alemão e provençal, que evocam o que os contos de cavalaria não contam: a taverna, os joguinhos de amigos e a alegria de viver que contrariam o estereótipo que as escolas por muito tempo espalharam sobre a Idade Média. Os autores dos versos eram goliardos, famosos “vagabundos” chiques que perambulavam pelas nascentes universidades da época, mantendo relações ambíguas com o clero1.
Por tudo isso é que, talvez, o trabalho como um todo consiga obscurecer as frequentemente artificiais fronteiras entre o intelectual e o popular. É uma obra popular, mas sem perder brilho e consistência intelectual. Consigo pensar em poucos paralelos que tenham obtido tal êxito, ainda mais na música clássica, tão colocada no lado “intelectual” da cerca.
Musicalmente, trata-se de uma fusão entre o moderno e o antigo, com fortes tons expressivos e um ritmo percussivo por vezes insistente de inspiração em Stravinsky e Prokofiev, ao mesmo tempo em que tinge a sala com tintas melódicas grandiloquentes, que remontam ao Romantismo wagneriano. Há um senso de unidade perpassando a cantata que o ouvido consegue apreender sem tanta dificuldade – diferentemente de um Mahler, por exemplo. Ela consegue ser autenticamente moderna e simples ao mesmo tempo, com o ritmo imprimindo ao texto musical uma feição simples, autêntica, rural. E termina como começou: com o mesmo refrão de O Fortuna.
Por fim, esta cantata remete-me a considerações de cunho pessoal. Nada evoca mais as máscaras, os ambientes sombrios com tensão intermitente e um ego à espreita, desejando o próximo perigo com aquela sensação de prazer culposo. Eu, calouro, acabara de ser classificado para estudar numa instituição na qual os alunos dormem no próprio alojamento que ela oferece. Um dia, inventaram uma intervenção policial no campus que nos obrigou a permanecermos dentro dos nossos quartos, com medo, para horas depois nossos amados veteranos entrarem em nosso recinto mascarados e nos retirarem de lá.
A cena que se segue é cinematográfica: ao som de Carmina Burana (O Fortuna) em volume máximo, velas acesas e cada um segurando a mão do próprio colega, rojões anunciam o fim do trote após alguns minutos de lavagem cerebral benigna. A música não é coadjuvante na cena: anos mais tarde, os versos de O fortuna, velut luna ressoariam como lembrança de que a vida é isso mesmo: sujeita aos ventos do acaso, inefável, se nos escapa quanto mais tentemos controlá-la. Sua fatuidade é execrada com a mesma elegância com que é exaltada.
Foi o que eu senti no fulgor daquele momento, em que veteranos nos lecionavam sobre união em momentos de dificuldade, e nos infundiam aquele companheirismo particular que, então se acreditava, forjaria as futuras noites em claro na vivência da faculdade. A trilha sonora em Ré menor do autodescobrimento como “ser-no-mundo’, “ser-aí”, vivência em eterno projeto, em construção, precisava estar à altura. E não poderia ser outra. Se você comparecer ao TMRJ nos próximos dias, caro leitor, logo entenderá por quê. Que esta fonte de inspiração fale por si.
1- PENA, B. Análise musical: a Idade Média em Carmina Burana de Carl Orff. R. Científica UBM – Barra Mansa (RJ), ano XXIII, v. 20, n. 38, 1. Sem. 2018. p. 95-122. ISSN 1516-407.
Foto: internet (o compositor Carl Orff).

Bruno Góes nasceu em 1988, é formado em Engenharia e pós-graduado em Filosofia. Já escreveu no site Movimento.com, e fez cursos de piano e violoncelo, este último no conservatório de sua cidade Natal, Passa Quatro. É assíduo interessado em tudo o que concerne a música clássica, com ênfase em compositores de ópera como Wagner, Verdi e Puccini.





