Com performances vocais irregulares e destaque positivo para a OSMG, encenação divertiu o público.
Le Nozze di Figaro (As Bodas de Fígaro), 1786
Ópera em quatro atos
Música: Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Libreto: Lorenzo da Ponte (1749-1838)
Base do libreto: La Folle Journée, ou le Mariage de Figaro, comédia de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1732-1799)
Palácio das Artes
23 de maio de 2026
Direção musical: André Brant
Direção cênica: Mario Corradi
Cenografia: Elena Toscano e William Rausch
Figurinos: Elena Toscano
Iluminação: Fábio Retti
Coreografia: Lair Assis
Elenco:
Figaro: Fellipe Oliveira, baixo-barítono
Susanna: Melina Peixoto, soprano
Conde Almaviva: Homero Velho, barítono
Condessa Almaviva: Deborah Bulgarelli, soprano
Cherubino: Julia Solomon, mezzosoprano
Bartolo: Saulo Javan, baixo
Don Basilio: Geilson Santos, tenor
Marcellina: Fabíola Protzner, soprano
Antonio: Ramiro Souza e Silva, barítono
Barbarina: Camila Corrêa, soprano
Don Curzio: Rhaniel Veríssimo, tenor
Duas jovens: Indaiara Patrocínio, soprano, e Bárbara Brasil, mezzosoprano
Coral Lírico de Minas Gerais (Maria Clara Marco Fernández)
Orquestra Sinfônica de Minas Gerais
A trama de Le Nozze di Figaro (As Bodas de Figaro), ópera em quatro atos de Wolfgang Amadeus Mozart, acontece anos depois das peripécias narradas em O Barbeiro de Sevilha. A espevitada Rosina, depois de se casar com o apaixonado Conde do Barbeiro, torna-se a Condessa de Almaviva. Nas Bodas, nós a encontramos mais madura, às voltas com a infidelidade do marido.
No dia do casamento de Figaro e Susanna, o Conde de Almaviva quer fazer valer, por baixo dos panos, o seu direito de senhor, ou seja, o direito de manter relações sexuais com a noiva do seu criado – direito este que, publicamente, ele havia abolido em suas terras. Figaro, Susanna e a Condessa tramam para evitar que os planos do Conde se concretizem, tudo com a ajuda do jovem pajem Cherubino. No final, como quase sempre ocorre nas comédias, tudo acaba bem.
O libretista Lorenzo da Ponte precisou filtrar bastante a pesada crítica social presente na comédia original de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (cuja leitura recomendo), devido à censura da Viena da época, mas, mesmo assim, seu libreto para as Bodas de Mozart é um dos melhores de todos os tempos. Ainda que de forma bem mais branda que em Beaumarchais, da Ponte não deixa de abordar a crítica social, especialmente na ária do Conde no terceiro ato (Vedrò mentr’io sospiro), e até mesmo a opressão feminina, como se pode observar em uma breve passagem de Marcellina no ato final, mesmo com o corte tradicional da ária da personagem. Há ali, quase no fim da ópera, uma clara demonstração do que hoje chamamos de sororidade.
Mozart musicou o libreto de da Ponte com refinamento. E o que mais impressiona nesta obra-prima é o caráter distinto que o compositor atribui a cada personagem através da música e, ao mesmo tempo, a maneira como ele entrelaça essas personalidades diferentes nos números de conjunto. A Condessa é mais lírica; Figaro é extremamente esperto e vivaz; Susanna, a espevitada apaixonada que a Condessa havia sido um dia; o Conde representa o poderoso hipócrita, que diz em público o que as pessoas querem ouvir, mas, ao mesmo tempo, quer trair a esposa e é ciumento; e Cherubino é a representação do adolescente que descobre o amor e a sexualidade. A orquestração é brilhantemente precisa, com ritmos e coloridos que ilustram cada cena à perfeição.
O Figaro mozartiano passou por Belo Horizonte na última semana, em produção da Fundação Clóvis Salgado com apresentações no Palácio das Artes entre os dias 17 e 23 de maio. A direção geral foi de Cláudia Malta.
Encenação simples, mas divertida

A encenação preparada pelo italiano Mario Corradi mostrou-se simples e tradicional. Sem polêmicas ou provocações vazias, apostou no que a obra tem de melhor: as cenas conforme foram criadas pelos seus dois geniais autores, com apenas uma ou outra pequena ousadia – das quais a melhor foi a hilária “condução” do coro na cena do casamento, no terceiro ato, por um Basilio impagável (o personagem, afinal, é professor de música).
Menos convincente foi a opção de fazer Susanna se sentar no colo do Conde por livre e espontânea vontade, durante a cena em que Cherubino se esconde dele no primeiro ato: careceu de sentido dramático essa atitude da serva que, durante toda a obra, procura fugir das investidas do patrão. De todo modo, Corradi contou com boas atuações cênicas de praticamente todo o elenco.
Quem estiver disposto a esmiuçar os pormenores, porém, encontrará alguns senões. Se, por um lado, a cenografia de Elena Toscano e William Rausch mostrou-se bastante funcional, proporcionando cenas ágeis, por outro pareceu simples demais para uma ambientação tradicional.
Os figurinos (também de Elena Toscano), em geral muito bons, transmitiram certa incongruência ao vestir as camponesas daqueles tempos de maneira bastante elegante. A boa iluminação de Fábio Retti cumpriu bem o seu papel, enquanto a maior parte da coreografia de Lair Assis foi apenas burocrática.
OSMG tem ótima récita

As performances vocais variaram bastante. O baixo-barítono Fellipe Oliveira ofereceu um Figaro seguro, de boa presença e voz firme e bem encaixada. O artista soube aproveitar as duas árias do personagem (Non più andrai e Aprite un po’ quegl’occhi), especialmente a segunda, para cativar o público.
Dentre os nomes mais experientes do elenco, o barítono Homero Velho interpretou o Conde Almaviva com a inteligência cênica de sempre e voz correta. O tenor Geilson Santos foi um bom Don Basilio, com boa contribuição nos números de conjunto e a já mencionada presença impagável “regendo” o coro no terceiro ato. Também experiente, o baixo Saulo Javan teve uma récita pouco inspirada como Bartolo, com presença burocrática e “engolindo” algumas palavras durante a ária do personagem, La vendetta.

Dentre as vozes femininas, as sopranos Deborah Bulgarelli e Melina Peixoto interpretaram, respectivamente, a Condessa e Susanna. Ambas demonstraram possuir as vozes adequadas às respectivas partes e materiais vocais de boa qualidade que necessitam, no entanto, de aprimoramento. Peixoto, especificamente, precisa ficar atenta à qualidade da sua projeção. Ambas as artistas voltaram do intervalo mais seguras: Bulgarelli esteve próxima da perfeição ao interpretar com sensibilidade a ária Dove sono i bei momenti, da mesma forma que Melina Peixoto em Deh vieni, non tardar.
A mezzosoprano britânica-brasileira Julia Solomon, que me pareceu bem jovem e tem atuado na Europa em pequenos papeis, demonstrou possuir uma voz de lindo timbre e que também precisa evoluir em termos técnicos. Ainda assim, seu Cherubino mostrou-se bastante musical e recebeu ótima interpretação cênica. É um nome para se ficar de olhos e ouvidos atentos.
A soprano Fabíola Protzner, apesar dos seus esforços, foi uma Marcellina de problemas técnicos muito evidentes, da mesma forma que o Antonio do barítono Ramiro Souza e Silva. Completaram o elenco a soprano Camila Corrêa (Barbarina), o tenor Rhaniel Veríssimo (Don Curzio), a soprano Indaiara Patrocínio e a mezzosoprano Bárbara Brasil (duas jovens).
Preparado por Maria Clara Marco Fernández, o Coral Lírico de Minas Gerais apresentou-se bem nas suas poucas intervenções, ao passo que a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais foi, talvez, o principal destaque da récita, muito bem conduzida por André Brant. O regente ofereceu uma ótima leitura da partitura, com atenção à sonoridade do conjunto e às dinâmicas empregadas.
A montagem como um todo, portanto, ficou na média. Se não chegou a deslumbrar, tampouco foi uma grande decepção, e os seus acertos pareceram-me mais relevantes. A julgar pela reação do público mineiro na última récita, a opção tradicional do encenador agradou – comprovando de forma cristalina que, para ser bem compreendida, uma obra-prima do século XVIII não precisa ser deformada. Quem assistiu à montagem de Don Giovanni, dos mesmos Mozart e Lorenzo da Ponte, há exatamente um ano no TMSP, sabe bem do que estou falando. No Palácio das Artes, a propósito, os recitativos estavam todos lá, sem tirar nem pôr. E ninguém arredou o pé do teatro até o fim de um espetáculo que durou cerca de três horas e meia.
O leitor interessado em saber mais sobre a chamada “Trilogia Fígaro” de Beaumarchais (que inclui O Barbeiro de Sevilha, As Bodas de Fígaro e A Mãe Culpada), pode consultar este excelente artigo de Fabiana Crepaldi.
Fotos: Paulo Lacerda/FCS (na foto principal, da esquerda para a direita, Geilson Santos, Saulo Javan, Fabíola Protzner, Homero Velho, Melina Peixoto, Fellipe Oliveira e Deborah Bulgarelli).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.
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