Boa interpretação musical é ofuscada por encenação carregada de excessos. Enquanto isso, no Theatro São Pedro, farsa de Rossini recebeu montagem limpa e divertida.
Intolleranza 1960 (1961)
Ópera em ato único e duas partes
Música e libreto: Luigi Nono (1924-1990)
Base do libreto: uma ideia original de Angelo Maria Ripellino (1923-1978)
Theatro Municipal de São Paulo
29 de maio de 2026
Direção musical: Priscila Bomfim
Direção cênica: Nuno Ramos e Eduardo Climachauska
Elenco:
Imigrante: Peter Tantsits, tenor
Sua Companheira: Maria Carla Pino Cury, soprano
Uma mulher: Marly Montoni, soprano
Soprano solo: Caroline De Comi
Um Argelino: Isaque Oliveira, barítono
Um Torturado: Anderson Barbosa, baixo
Coro Lírico Municipal (Hernán Sánchez Arteaga)
Orquestra Sinfônica Municipal
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La Scala di Seta (A Escada de Seda), 1812
Ópera em ato único
Música: Gioachino Rossini (1792-1868)
Libreto: Giuseppe Maria Foppa (1760-1845)
Base do libreto: outro libreto, escrito por Eugène de Planard (1783-1853) para a ópera L’Échelle de Soie, de Pierre Gaveaux (1760-1825)
Theatro São Pedro
30 de maio de 2026
Direção musical: Gabriel Rhein-Schirato
Direção cênica: João Malatian
Elenco:
Giullia: Elouise Miranda, soprano
Lucilla: Camila Ceuta, soprano
Germano: Robert Willian, barítono
Dorvil: Pedro Ohoe, tenor
Blansac: Daniel Luiz, barítono
Dormont: Sérgio Cardonha, tenor
Participação especial: Paula Uzeda (empregada)
Orquestra Jovem do Theatro São Pedro
Pode-se dizer muitas coisas sobre a gestão da Sustenidos Organização Social no Theatro Municipal de São Paulo, algumas positivas, outras tantas negativas, mas não se pode dizer que a O.S. não tenha conseguido concluir a sua gestão na casa com uma verdadeira “selfie” do que foi essa administração em termos artísticos. Vamos por partes.
Uma das melhores iniciativas da gestão Sustenidos em termos de infraestrutura foi a revitalização e valorização da Central Técnica de Produções Artísticas Chico Giacchieri, que permite hoje, com mais facilidade e frequência, a remontagem de produções. Outro aspecto positivo, este sob o aspecto artístico, foi a melhora considerável, de 2025 para cá, em relação à qualidade dos cantores estrangeiros convidados pela casa. Se, até 2024, os cantores que vinham de fora eram no máximo medianos em sua maior parte (quando não simplesmente injustificáveis), isso se inverteu a partir do ano passado, quando a maioria dos estrangeiros convidados passou a ser de bom nível.
Já as iniciativas de qualidade para lá de duvidosas, pelo menos aos olhos de quem vê de fora, concentram-se bastante nas encenações de óperas, que, curiosamente, foi piorando ao longo dos anos de gestão. No começo, encenadores especializados no gênero eram convidados com mais frequência, mas, em 2025, apenas uma das seis produções apresentadas no ano foi confiada a um encenador de ópera. Agora em 2026, dos sete títulos programados (dois deles em dobradinha), quatro estão entregues a forasteiros do gênero, além de um dividido entre um carnavalesco (outro forasteiro, portanto) e uma diretora com relação bissexta com a ópera. Assim, restaram apenas dois títulos a profissionais “da ópera”, dos quais um foi entregue a um encenador experiente, e outro confiado a uma diretora que tem atuado bastante na função de assistente (e que merece a oportunidade, claro).
A defesa da Sustenidos, para aproveitar uma expressão utilizada no programa de sala de Intolleranza 1960 em texto de Andrea Caruso Saturnino e Alessandra Costa, é que a O.S. busca promover “a pluralidade de perspectivas, com a ampliação de representatividades e com a abertura a novas linguagens e modos de criação”. Pode ser, mas pode ser também que essa busca incessante por “novas linguagens” tenha passado da conta. Quando há pouco espaço para a tradição e também para quem estuda e procura se especializar no gênero, a balança fica desequilibrada.
Some-se a isso o fato de que a maioria das encenações confiadas aos forasteiros foi de péssima qualidade (inclusive com o advento de música cortada ou enxertada, ou as duas coisas ao mesmo tempo) e com alusões, por vezes, a discursos mais à esquerda do espectro político, e pronto! Nesses tempos polarizados, estava dado o mote para os aproveitadores de direita fazerem o estardalhaço que lhes é característico.
Assim, os últimos anos de gestão foram conturbados e muito desgastantes para a imagem da Sustenidos, seja porque a qualidade artística do que foi apresentado nesse período só empolgou os desavisados (que não são poucos, registre-se), seja porque a instituição assumiu um viés político por meio das suas escolhas artísticas. Nesse sentido, a gota d’água foi a montagem de Hugo Possolo para Don Giovanni: uma verdadeira porcaria cênica, recheada de discurso político barato. Dali em diante, qualquer dúvida que ainda pudesse existir sobre o viés político das ações da O.S. se dissipou de vez, apesar das suas negativas oficiais a esse respeito.
E há ainda um aspecto que creio ter sido pouco abordado até aqui: o TMSP, sob a Sustenidos, passou a contar com uma equipe de dramaturgismo. O que os seus integrantes fazem por lá, além de escrever textos para os programas de sala, não se sabe. Diante de tantas bizarrices cênicas apresentadas nos últimos tempos, com falhas grosseiras de natureza dramática, das duas, uma: ou a equipe não tem autoridade nenhuma para corrigir ou reorientar os erros crassos dos encenadores forasteiros, ou simplesmente concorda com esses erros – e, neste caso, isso seria uma demonstração da sua inutilidade para a instituição.
Com Bellini e Donizetti desprezados, resta-nos Nono

Em cinco anos de gestão, espanta que a Sustenidos não tenha encontrado nenhum espaço na programação lírica do Municipal paulistano para apresentar obras completas de dois dos maiores gênios da ópera italiana: Vincenzo Bellini e Gaetano Donizetti. Recorro ao meu amigo Sergio Casoy, pesquisador que sabe tudo de ópera – e mais ainda sobre a ópera em São Paulo –, para conferir que a última vez que o TMSP apresentou uma ópera de Donizetti foi em 2007 (La Fille du Régiment), portanto há quase 20 anos. Já a última de Bellini remonta ao século passado: Norma, em 1989 (há 37 anos!).
A culpa disso, claro, não é exclusiva da Sustenidos, já que outros gestores passaram pela casa ao longo desse tempo. A Sustenidos poderia, no entanto, ter corrigido essa lacuna, mas não o fez. De Giacomo Puccini, ao contrário, somente de 2013 para cá, foram apresentadas sete das suas 10 criações para o palco lírico. Somente Edgar, La Rondine e Il Trittico ficaram de fora, o que significa que até mesmo as raras Le Villi e La Fanciulla del West ganharam encenações – o que foi bom, a propósito, mas, ao mesmo tempo, reforça o desequilíbrio em relação a Bellini e Donizetti. O próprio Rossini, não fosse por uma montagem da popularíssima O Barbeiro de Sevilha em 2019, também estaria completando no ano que vem 20 anos longe das produções encenadas do TMSP.
Com os mestres do bel canto desprezados, a Sustenidos lembrou de outro italiano, Luigi Nono, compositor praticamente desconhecido do público brasileiro e que, para o palco cênico, compôs apenas quatro obras em 66 anos de vida: um balé, uma ópera e duas “ações cênicas”. Uma destas últimas, Intolleranza 1960, estreou na sexta-feira passada no TMSP, e terá récitas até o dia 06 de junho.
A obra, que dura apenas 1h20 e é dividida em duas partes (sem intervalo), tem um libreto enxuto (do próprio compositor, sobre uma ideia original do poeta e tradutor italiano Angelo Maria Ripellino), com 11 cenas curtas, além de um coro inicial e outro final sem acompanhamento orquestral. A trama gira em torno de um imigrante que trabalha em uma mina e deseja retornar à sua terra natal. No caminho, ele se depara com protestos dos quais não participa, mas, estando ali, é confundido com um manifestante, preso e torturado em um campo de concentração. Conseguindo fugir, chega a uma cidade, na qual encontra aquela que será a sua companheira. No final, chega ao rio que marca a fronteira para a sua terra natal, mas uma enchente mata todos nas proximidades.
No libreto, Nono utiliza trechos de escritos de Julius Fučík, Henri Alleg, Jean-Paul Sartre, Paul Éluard, Vladimir Mayakovsky e Bertolt Brecht. A obra é uma crítica à intolerância, à opressão e ao desprezo pela dignidade humana. A citação à tragédia de Hiroshima (desencadeada pela bomba atômica lançada pelos Estados Unidos no fim da Segunda Guerra Mundial) fala por si.
E, em uma das passagens mais duras da obra, na quinta cena da primeira parte, o coro canta, dirigindo-se à plateia: “E vocês? / Estão surdos? / Cúmplices no rebanho? / Na repugnante vergonha? / Não os abala o lamento dos nossos irmãos? / Megafones! Amplifiquem este grito! / Antes que a calúnia o deforme / e a indiferença o sufoque!”. Esta é uma clara crítica à passividade dos povos. Afinal, o ser humano tem por hábito criticar os seus governantes, mas, cada vez mais, são raríssimos aqueles entre nós que efetivamente fazem alguma coisa para enfrentar as ditaduras, o autoritarismo, os políticos mal-intencionados, os empresários exploradores, etc.
A ópera se encerra com uma citação a Brecht, que em dado momento escreveu: “(…) quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem (…)”. Temo, com pesar, que este momento nunca chegue de forma plena e duradoura.
Interpretação musical se destaca

A música de Nono é extremamente difícil e áspera, fragmentada, repleta de agudos para os solistas, por vezes resvalando no grito. Seu objetivo evidente é incomodar, pois foi escrita com essa intenção e sem concessões. E foi exatamente a interpretação musical o ponto alto da récita de estreia da montagem paulistana, no dia 29 de maio, mesmo considerando a amplificação das vozes.
O tenor Peter Tantsits (Imigrante) e a soprano Marly Montoni (Uma Mulher) interpretaram as suas terríveis partes com grande segurança, mas o principal destaque da récita foi a soprano Maria Carla Pino Cury, impecável vocalmente como a Companheira do Imigrante: sua interpretação foi ao mesmo tempo intensa e muito expressiva. Impossível desviar os olhos dela enquanto cantava.
Completaram o elenco Caroline De Comi (soprano solo), Isaque Oliveira (Um Argelino) e Anderson Barbosa (Um Torturado). O Coro Lírico Municipal, cantando em vários momentos com a presença no palco do seu titular, Hernán Sánchez Arteaga, caprichou nos agudos desesperados. E a Orquestra Sinfônica Municipal, conduzida por Priscila Bomfim, esteve bem durante toda a récita.
Bomfim, a propósito, está substituindo Roberto Minczuk, que precisou se afastar da produção por motivo de saúde. É lamentável que seja necessário o titular ficar doente para que haja alguma variedade, ainda que mínima, na direção musical das produções líricas do TMSP.
Encenação é uma “selfie” perfeita da gestão artística da Sustenidos

Se o desempenho musical é positivo, a encenação, concebida por Nuno Ramos e Eduardo Climachauska, é uma repetição de expedientes vistos nos últimos tempos no palco do TMSP. Estão lá: o palco nu, todo aberto (quantas vezes isso já foi visto recentemente?); transmissão em tempo real de filmagem no palco (de novo, quantas vezes?); excesso de figurantes e cenotécnicos visíveis em cena aberta (quantas vezes?); várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e dividindo a atenção do espectador (quantas vezes?).
Em termos de direção de atores, a atenção dos encenadores parece bem mais direcionada aos figurantes (?) que aos cantores. Dois casais de mestre-sala e porta-bandeira fazem evoluções; de vez em quando, alguém passa sambando pela cena, em meio às desgraças em volta. Talvez a intenção, aqui, tenha sido demonstrar como a vida segue normal para aqueles que não estão sendo vítimas de alguém ou das circunstâncias, mas o efeito acaba sendo somente distrair o público daquilo que é essencial na obra. Várias vezes, figurantes se jogam de frente no chão do palco, simulando quedas. Na última vez em que isso aconteceu na sexta passada, o público riu – será que era esse o efeito esperado?
Alguns dos figurantes representam o que os encenadores chamam de “fantasmas e contra-fantasmas” – que nada mais são do que duplos e “duplos dos duplos” (como sabemos, esse é outro expediente que “já deu”). Em termos dramáticos, seu efeito é praticamente nulo. E em termos práticos, aqueles que atuam no corredor central da plateia reforçam o amadorismo da direção de cena. Do meu assento na sexta-feira, por exemplo, praticamente não consegui enxergar em momento algum a soprano Marly Montoni, que atuava em uma diagonal em relação aonde eu estava, uma vez que os figurantes encobriam a visão de parte do público ao subir em uma rampa posicionada no corredor central da plateia junto ao fosso da orquestra. Logicamente, alguns dos espectadores que estavam do lado contrário da plateia devem ter tido a mesma dificuldade para enxergar ninguém menos que o tenor Peter Tantsits, protagonista do espetáculo. Tal “opção” acaba resultando em um desrespeito duplo: aos artistas, que não são vistos por todos, e a uma parcela do público, que pagou para ver o espetáculo completo.
Mesmo com tantos figurantes à disposição, um dos encenadores, Eduardo Climachauska, achou por bem que ele é que deveria subir ao palco, antes de a ópera efetivamente começar, para ler antecipadamente os versos de Brecht que fecham a obra. Na cena derradeira, lá está ele de novo, na rampa junto ao fosso…
Como o cenário (de Renan Marcondes e Marcus Garcia) não representa ambientes reconhecíveis, o baixo Anderson Barbosa faz as vezes de um narrador, anunciando a cada cena onde a ação seguinte se passará. Se o cenário fosse de boa qualidade, claro, esses anúncios não seriam necessários. Na segunda parte da obra, a intenção parece ser que o cenário represente a Cúpula Genbaku, de Hiroshima, também chamada de “Cúpula da Bomba Atômica”, mas, com os blocos de gelo que vão sendo colocados aos poucos em volta da estrutura, ela acaba parecendo mais um iglu. “Jenial”.
A iluminação de Mirella Brandi e os vídeos de Vic Von Poser procuram dialogar com a encenação da maneira como ela foi concebida, ora com mais eficiência, ora com menos. Os figurinos de João Pimenta alternam-se entre o comum e o exagero, enquanto a coreografia de Alejandro Ahmed pouco acrescenta à obra.
Ao fim e ao cabo, a produção de Intolleranza 1960, como adiantado no primeiro parágrafo desta resenha, funciona como uma “selfie” perfeita da gestão artística da Sustenidos no TMSP: uma obra de forte apelo político (pelo menos nessa, o conteúdo é original, e não enxertado), apresentada por meio de uma encenação de qualidade duvidosa, com excessos de nulidades dramáticas e também de referências de difícil compreensão à primeira vista – encenação esta confiada a quem não é do meio lírico e, por isso mesmo, não compreende as necessidades básicas do “fazer operístico”.
Se a última impressão é a que fica, a impressão derradeira deixada pela Sustenidos é, definitivamente, a sua cara.

Enquanto isso, um Rossini “limpo” passou pelo Theatro São Pedro
Da ambientação “suja” do Municipal para o palco “limpo” do Theatro São Pedro; da música dura de Nono para as delícias auditivas de Gioachino Rossini. No sábado, 30 de maio, fui conferir a produção de La Scala di Seta (A Escada de Seda), farsa em ato único que reuniu a Academia de Ópera e a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro.
Na Barra Funda, a encenação foi totalmente o oposto daquela que está em cartaz no TMSP. Em vez do excesso, simplicidade; no lugar de tentar dividir a atenção do público com efeitos vazios, a velha, boa e infalível atuação cênica concentrada nos solistas. Até mesmo a única figurante presente (Paula Uzeda) não estava ali de graça, como se viu na cena final.
O diretor João Malatian preparou muito bem a atuação do elenco. O começo pareceu um pouco artificial, com os solistas talvez um pouco nervosos, mas logo tudo entrou nos eixos e a ação se tornou natural. O bom cenário de Beto Mainieri, a iluminação precisa de Nicolas Marchi e os figurinos adequados de Angélica Chaves proporcionaram uma ambientação bastante eficaz.

A qualidade do canto, claro, ainda não estava no nível daquela que pude ouvir no TMSP – o que é totalmente normal quando se tratam de jovens cantores ainda em início de carreira – alguns tendo as suas primeiras oportunidades como protagonistas em um teatro relevante. E havia qualidade! As sopranos Elouise Miranda (Giulia) e Camila Ceuta (Lucilla) exibiram vozes com ótimo potencial, com Elouise demonstrando já possuir agilidade segura. Ambas ofereceram também ótimas atuações cênicas.
Dentre os homens, o personagem mais destacado é o criado Germano, interpretado com correção pelo barítono Robert Willian: muito bem cenicamente, sua voz esteve menos à vontade nos momentos de maior agilidade. Também barítono, Daniel Luiz interpretou Blansac com boa voz e boa presença. Menos satisfatório foi o tenor Pedro Ohoe (Dorvil), ao qual faltou atenção à afinação no começo da sua participação. Outro tenor, Sérgio Cardonha teve menos oportunidades como Dormont.
A Orquestra Jovem do Theatro São Pedro, conduzida por Gabriel Rhein-Schirato, ofereceu um bom trabalho, apesar de alguns deslizes pontuais em termos de afinação e articulação. O regente conduziu a ópera com segurança, fidelidade ao estilo, com a atenção devida aos tempos de uma obra cômica, e alinhavando bem os números de conjunto.
A todos os jovens cantores, uma dica, não minha, mas da experiente mezzosoprano italiana Laura Verrecchia, que se apresentou no ano passado em São Paulo: “(…) como Mozart, Rossini faz bem para os jovens, para quem está começando, porque faz com que direcionem a voz, coloquem a voz no lugar certo, sem forçar muito. Os outros compositores nos dão uma liberdade, que é aquela de abrir a voz, de deixar brotar também a emoção, mas isso é perigoso se [o cantor] for jovem, porque ele deve saber primeiro direcionar a voz (…)”. O leitor interessado encontra aqui a conversa completa de Varrecchia com Fabiana Crepaldi.

Uma ótima soprano passou pela Sala São Paulo

Entre Nono e Rossini, Wagner. Na tarde de sábado, a soprano estoniana Aile Asszonyi mostrou-se o grande destaque do programa da Osesp dedicado a Richard Wagner. Ela interpretou o canto final de Brünnhilde em Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses) com voz generosa e expressiva, intensidade bem dosada e, mesmo em concerto, com uma presença imponente. Foi uma belíssima performance vocal, que, infelizmente, durou apenas 14 minutos. O programa poderia ter aproveitado mais a presença da artista, que veio de longe para cantar tão pouco.
Ao regente alemão Marc Albrecht, apresentado como um especialista em Wagner, parece ter faltado atenção às nuances das peças abordadas, especialmente na primeira parte do concerto (Prelúdio de Lohengrin; Abertura de Os Mestres Cantores de Nuremberg; e Abertura e Bacanal de Tannhäuser). Com uma Osesp gigantesca sobre o palco, o som do conjunto foi pouco moldado, quase sempre muito forte, quase monocromático. No trecho final do Götterdämmerung, mesmo com seis harpistas aparentemente tocando “com vontade”, estes instrumentos mal foram ouvidos. Onde estava a atenção do regente com a dinâmica e com o equilíbrio sonoro? Não se sabe.
Foto principal: Rafael Salvador (com Peter Tantsits e Maria Carla Pino Cury à esquerda).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.
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