Concepção criativa e inteligente de Bruno Fernandes de Mateus Dutra é o principal destaque da remontagem.
Carmina Burana (1937)
Cantata profana e cênica
Música e organização do libreto: Carl Orff (1895-1982)
Theatro Municipal do Rio de Janeiro
08 de abril
Direção musical: Victor Hugo Toro
Direção cênica: Bruno Fernandes e Mateus Dutra
Cenografia: Fael di Roca e Matheus Simões (conforme créditos da montagem original, pois não há crédito específico sobre a cenografia no programa de sala da remontagem)
Figurinos: Desirée Bastos
Iluminação: Jonas Soares
Elenco:
A Noite: Michele Menezes, soprano
O Louco: Santiago Villalba, barítono
O Cisten: Guilherme Moreira, tenor
Coro do Theatro Municipal (Cyrano Sales)
Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal
Menos de um ano depois da sua apresentação original (em setembro de 2025, quando integrou o Festival Oficina da Ópera), a produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para a cantata cênica e profana Carmina Burana, de Carl Orff, está de volta ao palco em remontagem até este domingo, dia 12 de abril. A crítica original, publicada no ano passado, pode ser relembrada aqui, e dela recupero o parágrafo abaixo (com adaptações):
Os diretores Bruno Fernandes e Mateus Dutra, ao abordarem a obra apostando na sua alta carga erótica, dividem a encenação em duas partes: a primeira delas (que reúne os blocos da cantata Fortuna, Imperatrix Mundi; Primo Vere; e Uf dem Anger), é inspirada especialmente na obra O Jardim das Delícias, do pintor holandês Hieronymus Bosch; enquanto na segunda parte (reunindo os blocos In Taberna; Cour d’Amours; Blanziflor et Helena; e a repetição da primeira peça de Fortuna, Imperatrix Mundi) a ambientação retrata uma boate contemporânea. A primeira metade evoca um ar mais fantástico, apresentando a busca pelo prazer na antiguidade. A segunda, segundo as palavras dos próprios Fernandes e Dutra, oferece “uma leitura satírica do hedonismo moderno e das frustrações do amor”. Em ambas, diversas formas de amor e prazer são apresentadas, seja em duplas ou em trios, seja com formações heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. Sem pudores e sem preconceitos.

Para a remontagem, os encenadores empregaram algumas alterações que não diminuíram a principal qualidade da produção: a ousadia, provocativa na medida exata. A primeira cena, que se repete no final com outra roupagem, ao som de O Fortuna, na qual a sociedade abastada desfila até cair em um moedor de carne, continua impactante, ainda que talvez um pouco menos que em 2025 – quando a entrega da carne moída à massa de desvalidos me pareceu mais chocante (no melhor dos sentidos). Ainda assim, permanece uma cena forte e criada com inteligência bem-humorada.
O bom humor, aliás, marca boa parte da encenação, mesclado com o erotismo e uma ótima movimentação cênica. Tal movimentação atinge o seu ápice no movimento In taberna quando sumus: ambientada em uma espécie de “balada liberal”, a taberna de ontem ou a boate de hoje é apresentada como um lugar democrático, onde todos bebem e onde acontece de tudo. É neste ponto que se apresentam manifestações da cultura urbana, como o passinho e a break dance, e passamos a ver também as figuras de duas drag queens, uma passista de escola de samba, um casal sadomasoquista, e, especificamente nesta remontagem, uma violinista dominatrix (representada com desenvoltura pela musicista Antonella Pareschi). Como já havia acontecido no ano passado, este movimento foi bisado na apresentação de 08 de abril.

A cenografia bastante simples, originalmente creditada a Fael di Roca e Matheus Simões (e desta vez sem indicação precisa no programa de sala), poderia ter recebido um tratamento mais caprichado nesta retomada, a exemplo do que aconteceu com os figurinos, agora sob a responsabilidade de Desirée Bastos: se já eram muito bons no ano passado, ficaram ainda melhores agora. A iluminação de Jonas Soares teve trajetória semelhante, e ficou ainda mais inspirada na remontagem, especialmente na segunda parte do espetáculo.
Assim como já havia acontecido em 2025, a execução musical deixou a desejar. As partes corais são muito importantes nesta obra de Orff, mas o Coro do Theatro Municipal, preparado por Cyrano Sales, apresentou na maior parte do tempo uma performance aquém até mesmo daquela de setembro passado, que já não havia sido muito boa. A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, novamente sob a regência de Victor Hugo Toro, apresentou uma performance regular, com boa sonoridade. Alguns tempos lentos empregados pelo regente certamente não foram as melhores opções.

Dos três solistas que cantaram no dia 08/04, os dois primeiros aqui citados participaram da montagem original. O tenor Guilherme Moreira (O Cisne) repetiu tanto a boa performance cênica quanto a fuga dos agudos do seu único solo, Olim lacus colueram. A soprano Michele Menezes (A Noite) reexibiu a sua atuação segura, com destaque para os movimentos Amor volat undique e In trutina, interpretados com expressividade. Já o barítono Santiago Villalba (O Louco), que somente agora chegou à produção, teve uma performance regular, e sua melhor passagem foi o solo Ego sum abbas Cucaniensis).
No cômputo final, apesar do desempenho musical abaixo das expectativas, a remontagem de Carmina Burana valeu pelo reencontro com as ideias criativas, ousadas e inteligentes dos encenadores.

Fotos: Filipe Aguiar (na foto principal, cena do movimento “In taberna”).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.






Como o nepotismo no TMRJ virou tradição, é claro que na cenografia e concepção cênica isso não seria diferente… Os diretores, bailarinos aposentados do BTM, que agora ocupam cargo especial na direção artística (conforme consta no programa), escalaram um de seus parceiros para encabeçar parte do projeto, e o lado criativo dos assinantes originais da montagem, participantes no Festival Oficina de Opera, não teve espaço sequer para creditação aqui. No fim, me senti vendo uma grande colagem de outros espetáculos e lastimo que uma cantata cenica tenha tomado vaga de um título operístico na temporada oficial da casa… que por sua vez… apresentará dois títulos (ou trechos) de opera no Salão Assyrio.
O ponto alto, sem dúvidas, é ver a contratação e participação plural de artistas diversos! Pena que ao me informar, soube que estes receberam o mesmo cachê do ano passado apesar do triplo de récitas apresentados (considerando o geral aberto).