Produção dupla de “Le Villi” e “Friedenstag”, assinada por André Heller-Lopes, recupera na casa o protagonismo da arte lírica.
Le Villi (As Willis), 1884
Ópera em dois atos
Música: Giacomo Puccini (1858-1924)
Libreto: Ferdinando Fontana (1850-1919)
Base do libreto: Les Willis, conto de Alphonse Karr (1808-1890)
Friedenstag (Dia de Paz), 1938
Ópera em ato único
Música: Richard Strauss (1864-1949)
Libreto: Joseph Gregor (1888-1960)
Base do libreto: um esboço preparado pelo escritor Stefan Zweig (1881-1942), por sua vez inspirado em El sitio de Breda, de Pedro Calderón de la Barca (1600-1681)
Theatro Municipal de São Paulo
19 de julho de 2025
Direção musical: Priscila Bomfim
Direção cênica: André Heller-Lopes
Cenografia: Bia Junqueira
Figurinos: Laura Françozo
Iluminação: Gonzalo Córdova
Coreografia: Luiz Fernando Bongiovanni
Visagismo: Malonna
Elenco – Le Villi:
Anna: Gabriella Pace, soprano
Roberto: Eric Herrero, tenor
Guglielmo: Rodrigo Esteves, barítono
Elenco – Friedenstag:
Comandante: Leonardo Neiva, barítono
Maria: Eiko Senda, soprano
O Piemontês: Eric Herrero, tenor
O Holsteiner: Sérgio Righini, baixo
Sargento: Saulo Javan, baixo
Soldado: Geilson Santos, tenor
Corporal: Marcio Marangon, barítono
Mosqueteiro: Daniel Lee, barítono
Corneteiro: Rafael Thomas, baixo
Oficial: Santiago Villalba, barítono
Oficial da linha de frente: Jessé Vieira, barítono
Prefeito: Miguel Geraldi, tenor
Prelado: Leonardo Pace, baixo
Uma mulher do povo: Adriana Magalhães, soprano
Coro Lírico Municipal (Hernán Sánchez Arteaga)
Orquestra Sinfônica Municipal
Depois do verdadeiro desastre que foi a encenação constrangedora de Don Giovanni em maio passado no mesmo palco, o primeiríssimo destaque positivo da nova produção lírica do Theatro Municipal de São Paulo é o tratamento da ópera como ópera. Não por acaso, a dobradinha formada por Le Villi, de Giacomo Puccini, e Friedenstag, de Richard Strauss, é a única montagem da casa neste ano comandada cenicamente por um diretor especializado em ópera: André Heller-Lopes. Pode-se discutir um ou outro aspecto da produção, como, inclusive, este autor fará alguns parágrafos abaixo a respeito da obra de Puccini, mas o ponto principal, em se tratando do TMSP, é que a forma de arte “ópera” foi respeitada e valorizada na sua essência.
Isto posto, comecemos por observar que, à primeira vista, Le Villi e Friedenstag são óperas que não têm absolutamente nada a ver uma com a outra, seja pela temática (a primeira com forte presença de um elemento fantástico; a segunda baseada na crua realidade da guerra), seja pela natureza da música. Um possível ponto em comum talvez seja a violência em sentido amplo: a violência psicológica, que, mesmo de forma velada, a protagonista sofre na obra de Puccini; e a violência evidente e física da guerra em Strauss – lembrando que a guerra, inevitavelmente, também acaba trazendo consigo alguma forma de violência psicológica.
Le Villi: balé e soprano se destacam

Le Villi (As Willis – por vezes também chamada de As Fadas em tradução livre e, a meu ver, imprecisa) é uma ópera-balé (ou opera ballo, em italiano) em dois atos que Puccini escreveu sobre libreto de Ferdinando Fontana. Este se baseou em um conto do escritor francês Alphonse Karr sobre a lenda das willis, virgens que morrem de amor depois de serem traídas pelos seus amados, e que se tornam espíritos vingativos, atraindo homens infiéis à floresta para uma dança mortal.
Na trama da ópera, Anna e Roberto estão noivos, mas ele precisa realizar uma viagem com a intenção de receber uma herança. Longe, Roberto se deixa seduzir por uma cortesã (chamada eufemisticamente na obra de “uma sereia”), trai o amor de Anna e se esquece dela. Anna adoece de amor e morre. Tempos depois, abandonado pela amante que lhe sugou as posses, e cheio de remorsos, Roberto finalmente retorna à sua vila, onde o espírito de Anna está à espreita. Com o auxílio das suas irmãs willis, ela o atrai para um sabá macabro, no qual ele será obrigado a dançar até a morte. Roberto pede piedade à Anna, mas ela é implacável: “Você é meu!”
Em sua encenação, e segundo o seu texto no programa de sala, André Heller-Lopes situa a ação da ópera algumas décadas antes dos acontecimentos de Friedenstag (situados por ele em 1945). O diretor também transpõe a ação da floresta original para um ambiente fechado, que pode ser, talvez, e a julgar por algumas das inspirações citadas no mesmo texto do programa de sala (filmes como Metrópolis, de Fritz Lang, e Tempos Modernos, de Charlie Chaplin), um escritório ou o setor administrativo de uma fábrica. No primeiro ato, tudo resta muito estranho, já que a ambientação (com o bom cenário de Bia Junqueira) não parece combinar em nada com a parte fantástica da trama que ainda está por vir, porém, mais estranhamente ainda, quando essa parte chega a partir do intermezzo, tudo funciona muito bem (pois é, “L’arte nel suo mistero”…), apesar de uma evidente falha dramatúrgica.
Em meio aos dois atos desta sua primeira ópera, Puccini interpõe um intermezzo em dois tempos em que são apresentadas passagens faladas (breves textos não cantados, mas sim declamados por um narrador): o primeiro tempo do intermezzo (L’Abbandono / O Abandono) apresenta o motivo de Roberto não ter voltado e o falecimento da protagonista; e o segundo tempo (La Tregenda / O Sabá) antecipa o desfecho da ópera ao já apresentar a dança macabra – e ao mesmo tempo irresistível – das willis. Também nessa segunda parte, é sugerido que Roberto gastou toda a fortuna com a cortesã e, por isso, volta à sua vila acometido pelo remorso.

Neste ponto, o encenador alterou o texto falado da narrativa, causando uma falha na lógica dramática da obra. Heller-Lopes preferiu resgatar um trecho do conto original no qual a ópera é baseada, onde Roberto se deixa enamorar não por uma cortesã, mas sim pela riqueza de uma prima com quem acaba se casando. No conto de Alphonse Karr, ele não se arrepende de ter deixado Anna, e, embora vá morar nas proximidades da casa do pai da falecida, nunca tenta ir até lá: está casado, já é pai, tem posses e, ao que tudo indica, está satisfeito com a sua vida e as suas escolhas.
Segundo o próprio texto do encenador no programa de sala, a alteração teve o objetivo de reforçar a culpa de Roberto pelo abandono de Anna, já que, em sua leitura, o libreto de Fontana retira a culpa do homem infiel, e coloca-a em outra mulher. Entendo a alteração como absolutamente desnecessária, pois, ainda que Fontana seja muito breve quando trata das razões do abandono, resta evidente que a culpa é de Roberto, pois foi ele que se deixou cair nos encantos da cortesã, quebrando os seus votos. Daí o remorso demonstrado no segundo ato. Em outras palavras, dramaticamente a cortesã é necessária para haver remorso. Sem cortesã, com Roberto casado e satisfeito em sua nova vida, o remorso perde muito o sentido.
Por outro lado, há opções muito acertadas na direção de atores, como em uma cena do primeiro ato em que Roberto olha com cobiça para outra mulher, já evidenciando a fraqueza de caráter do personagem.
É quando a encenação chega ao segundo ato, no entanto, como já sugeri acima, que os mistérios da arte fazem com que a cena fantasmagórica das willis funcione muito bem mesmo no ambiente pensado para a produção, e para isso contribui bastante a excelente coreografia de Luiz Fernando Bongiovanni (também responsável pela direção de movimento do espetáculo), a belíssima iluminação de Gonzalo Córdova e o visagismo de Malonna. Os figurinos de Laura Françozo são corretos em geral e ótimos para as willis (com livre inspiração na mulher-robô do filme Metrópolis).

Na récita de estreia, em 19 de julho, viu-se claramente que, da criação à execução, essa grande cena de opera ballo foi um belíssimo e impactante trabalho conjunto, no qual a atuação de todas as bailarinas foi essencial. E quem também teve uma atuação cênica marcante foi a soprano Gabriella Pace, que interpretou Anna com grande entrega, inclusive participando da coreografia. Ainda que em algumas passagens a sua voz não tenha se mostrado totalmente “encaixada” à personagem, a artista interpretou a sua ária do primeiro ato, Se come voi piccina, com sensibilidade e belos matizes. O dueto com o tenor, Non esser, Anna mia, mesta sì tanto / Tu dell’infanzia mia, soou seguro.
Intérprete de Roberto, o tenor Eric Herrero ofereceu boa atuação cênica e um desempenho vocal apenas razoável, com a sua voz apresentando-se um tanto anasalada e com pouco brilho. Por sua vez, o barítono Rodrigo Esteves interpretou o pai de Anna, Guglielmo, com ótima presença e boa voz. Tanto na oração Angiol di Dio, quanto na romanza Anima santa della figlia mia, o artista mostrou-se dramaticamente convincente.
Cantando no palco e também das coxias, o Coro Lírico Municipal, preparado por Hernán Sánchez Arteaga, apresentou-se bem e com boa desenvoltura cênica durante o primeiro ato.
Friedenstag: apesar da orquestra, uma bela estreia sul-americana

Friedenstag (Dia de Paz) começou a ser concebida em 1934. Richard Strauss e o escritor austríaco Stefan Zweig preparavam a ópera A Mulher Silenciosa, que estrearia no ano seguinte, quando o libretista propôs ao compositor um tema sobre os horrores da guerra. A trama seria situada no dia exato da declaração de paz da Guerra dos 30 anos, que afetou principalmente a Europa Central entre 1618 e 1648.
O projeto foi desenvolvido lentamente, até que estreou em 24 de julho de 1938, pouco mais de um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial. Como era judeu, Zweig precisou abdicar de assinar o libreto, pois, do contrário, a obra não teria chance alguma de subir ao palco. Assim, o escritor e libretista Joseph Gregor, seu amigo, acabou escrevendo o libreto conforme o esboço de Zweig.
Strauss, que durante os primeiros anos do nazismo se equilibrou em posição um tanto contraditória (chegou a ocupar um cargo no governo, e depois foi afastado exatamente devido a ser próximo de alguns judeus), admitiu em uma carta ao libretista que o tema da ópera não era do tipo que mais lhe inspirava. Não à toa, embora tenha o seu interessante, é evidente que Friedenstag não se aproxima das suas grandes obras-primas. Ao mesmo tempo, é um absurdo que esta sua ópera tenha tido que esperar 87 anos para ser apresentada pela primeira vez na América Latina.

A trama é simples: em uma fortaleza, após um soldado piemontês entoar uma canção que evoca a paz, os soldados locais, que só viveram em tempos de guerra, demonstram desconhecer tal conceito. O povo, faminto, implora ao Comandante da fortaleza que se renda. Este não atende o pedido, pois é sua obrigação defender a fortaleza. Para evitar a humilhação da rendição ao exército que sitia o local, o Comandante ordena preparativos para explodir a fortaleza com todos aqueles que desejarem ali permanecer. Durante os preparativos, Maria, sua esposa, sem saber dos planos do marido, sonha com a volta dos tempos de paz. Quando a fortaleza já está prestes a voar pelos ares, chega a informação de que a paz foi declarada. O Comandante, desconfiado, reluta em aceitar o cumprimento do chefe do exército que até então era seu inimigo, mas Maria intervém e convence o marido, que finalmente aceita o cumprimento. Um hino à paz encerra a ópera.
Aqui a encenação de André Heller-Lopes é impecável, extraindo performances cênicas bastante eficientes de todos os solistas. A maneira como o diretor constrói a participação do povo – desesperado, faminto, com a ansiedade à flor da pele – reforça as consequências da guerra (com mais uma atuação segura do Coro Lírico Municipal).
Heller-Lopes prefere situar a ação em 1945, em vez de 1648, e utiliza logo no começo uma imagem de uma biblioteca bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial: um símbolo, pois, da destruição do conhecimento e da Cultura por parte desta mistura nefasta entre a ambição e a imbecilidade humanas, representadas pelo nazismo.
O cenário funcional de Bia Junqueira serve muito bem à ação, inclusive com a utilização inteligente de um dos elevadores do palco durante a primeira aparição da personagem Maria. A boa luz de Gonzalo Córdova e os figurinos eficientes de Laura Françozo mais uma vez complementam muito bem a encenação.
A ópera, mesmo sendo relativamente curta, exige a presença de nada menos que 14 solistas. Ainda que com alguma oscilação entre as vozes dos personagens secundários, de modo geral tudo correu bem no mesmo dia 19 de julho.
A soprano Adriana Magalhães (uma mulher do povo) e o baixo Leonardo Pace (Prelado) apresentaram vozes menos satisfatórias. Os barítonos Jessé Vieira (Oficial da Linha de Frente) e Daniel Lee (Mosqueteiro), e também o baixo Rafael Thomas (Corneteiro) ofereceram performances discretas.
Os barítonos Marcio Marangon (Corporal) e Santiago Villalba (Oficial), e ainda o baixo Saulo Javan (Sargento) exibiram vozes consistentes. Dois tenores se destacaram: Geilson Santos (Soldado), interpretando uma parte bem diferente do habitual em sua carreira, mostrou uma voz capaz de enfrentar novos desafios; e Miguel Geraldi (Prefeito) cantou com precisão e brilho.
Dentre os solistas com mais destaque, o baixo Sérgio Righini, que aparece no final como o Holsteiner, comandante do exército inimigo, apresentou uma vocalidade razoável, enquanto o tenor Eric Herrero deu via ao mensageiro Piemontês com segurança.

A soprano Eiko Senda, desde a sua entrada em cena para o monólogo Wie? Niemand hier?, passando pela grande cena ao lado do barítono, e até a cena derradeira, interpretou a difícil parte de Maria com grande expressividade. E, ainda que se pudesse perceber que alguns saltos vocais não tenham sido tão naturais, a soprano demonstrou possuir todas as notas, em uma performance marcante. Não menos marcante foi a atuação do barítono Leonardo Neiva como o Comandante da fortaleza. Sempre com voz potente e expressiva, o artista soube moldar à perfeição a personalidade deste militar rigoroso e inflexível.
Durante toda a noite, a Orquestra Sinfônica Municipal, desta vez sob a condução da sua regente assistente, Priscila Bomfim, foi um ponto fora da curva. Em Le Villi, o conjunto ainda se mostrou razoável, apesar de uma evidente falta de capricho em vários arremates de frases musicais. Já em Friedenstag, o problema se acentuou, com passagens desencontradas e problemas de afinação nos metais, nas madeiras e até nas cordas. O volume, pelo menos, não esteve nas alturas.
No cômputo final, o resultado da dobradinha entre Puccini e Strauss, que fica em cartaz no TMSP até o próximo domingo, dia 27, é bastante positivo, especialmente porque, desta vez, ninguém da equipe de criação parece ter sentido vergonha de estar trabalhando com ópera. Pelo contrário: com talento e competência, o protagonismo foi devolvido à arte lírica.
Fotos: Rafael Salvador (exceto aquela indicada como de Larissa Paz).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.





