A Profissão da Senhora Warren

Saiba como foi a apresentação da ópera inédita de Maurício de Bonis no “Festival de Música Erudita do Espírito Santo”.

O público que aprecia ópera – e mesmo a música clássica, de modo geral – tem certa resistência à música atonal. Somos menos abertos àquilo que foge dos padrões estabelecidos até o fim do século XIX do que o público adepto das trilhas sonoras de filmes ou até da música popular. A explicação para isso consiste no fato de que, inquestionavelmente, as maiores obras do repertório lírico fazem parte do universo da música tonal. Il Trovatore, Don Giovanni, Carmen, Tosca são óperas que soam confortáveis aos nossos ouvidos. Quando muito, apreciamos as óperas de Wagner, já um tanto quanto avançadas (o prelúdio orquestral de Tristão e Isolda, por exemplo, é uma música extremamente arrojada para o período em que foi escrita). Alguns ouvintes mais ousados irão elencar Wozzeck, de Alban Berg, em uma lista de, digamos, suas dez óperas favoritas. Mencioná-la entre as cinco preferidas poderá inclusive soar pedante! E Wozzeck, ainda que atonal, também emprega música tonal (linguagem que o compositor jamais abandonou completamente).

Mesmo com toda essa resistência, porém, compositores contemporâneos têm empregado, em variáveis graus, a atonalidade em suas partituras. Foi o caso da ópera A Profissão da Senhora Warren, uma das obras apresentadas na 13ª edição do Festival de Música Erudita do Espírito Santo, com música de Maurício de Bonis e libreto concebido coletivamente por Livia Sabag, Eliane Coelho, Gabriel Rhein-Schirato e pelo compositor, apresentada nos dias 07 e 09 de novembro de 2025 no Teatro Sesc Glória, em Vitória/ES. Compareci à récita do dia 09.

Conforme se lê no catálogo distribuído na entrada do teatro (disponível também em https://festivaldemusicaerudita.com.br/), a ópera em quatro atos é inspirada na peça homônima de Bernard Shaw, que destaca, “sutilmente, problemáticas de surpreendente atualidade, como a relação entre ideologia e conflitos de classe, questões de gênero no mundo dos negócios e nas relações familiares, e relações entre livre-arbítrio e liberdade no mundo contemporâneo”. A composição é definida como atonal: “as melodias são marcadas por cromatismos, saltos, ou repetições intervalares, conforme a condução emocional de cada cena”.

Posto isso, uma partitura como a do compositor Maurício De Bonis não será, necessariamente, considerada agradável. A apreciação por este tipo de obra não virá do conforto ao ouvi-la, porque ela nos traz desconforto. Tal afirmação não é uma crítica negativa: é uma constatação pragmática. Desta forma, o ouvinte deve estar preparado e disposto a abraçar uma manifestação artística que tem o seu valor em aspectos que destoam, nos sentidos literal e metafórico, do tradicional. É uma experiência cansativa? Sim, principalmente para os músicos – porque ensaiar esse tipo de composição é um trabalho exaustivo. É algo que irá agradar a todos? Não, não irá. Com efeito: observei algumas pessoas – uma minoria, é verdade – deixarem o teatro após o segundo e o terceiro atos. Mas é uma experiência musical válida? É! Afinal, a música é uma arte viva, para a qual, como dizia o pai do compositor Charles Ives, temos que “abrir os ouvidos” continuamente.

Há que se considerar que outros elementos podem tornar a experiência mais palatável. Libreto, legendas que facilitem a compreensão do público, cenários, figurinos, iluminação e visagismo, quando bem executados, colaboram significativamente para que a imersão seja bem-sucedida. Também há a opção, que neste caso foi inteligentemente utilizada pelo compositor, de empregar a técnica do “Sprechgesang” (ou canto-fala), o que conferiu maior fluidez à narrativa.

No caso, o libreto, se não foi perfeito, foi eficaz à medida que transmitiu adequadamente os lineamentos do enredo da peça de Shaw. Não obstante, houve alguma dificuldade em retratar em toda a sua profundidade os conflitos existentes na relação da personagem Vivie Warren, interpretada por Carla Cottini, com a mãe, Mrs. Kitty Warren, a cargo de Eliane Coelho. Em um primeiro momento, ambas são pessoas distantes uma da outra, eis que a filha foi criada longe da mãe. Em seguida, após um comovente monólogo muito bem interpretado por Coelho, Vivie passa a admirar a figura materna, por entender que essa entrou no mundo da prostituição por uma imperiosa necessidade econômica, o que era uma realidade usualmente mascarada na Era Vitoriana (1837-1901): a outra opção seria passar fome. Quando Vivie descobre que a mãe não mais se prostitui, mas comanda uma rede de agenciamento de profissionais do sexo, a relação entre ambas novamente fica abalada. De fato: Mrs. Warren reconhece que “gosta de ganhar dinheiro”, afirmação que se choca com os ideais de Vivie. E daí, de uma forma abrupta, ambas se separam em definitivo por iniciativa de Mrs. Warren.

Nesse sentido, o fechamento da ópera foi um tanto quanto lacônico, deixando para o espectador interpretar por si só até que ponto Mrs. Warren seria uma heroína ou uma vilã nesse complexo enredo. Provavelmente, um pouco de cada. Certo mesmo é que a personagem de Vivie Warren é fascinante, à medida que se afasta significativamente do ideal vitoriano da mulher submissa a tudo, objetificada nas mãos de homens, muitos deles portadores de uma moral degenerada. Vivie é autossuficiente e busca manter-se de cabeça erguida às custas do próprio esforço (premissa não observada pela mãe, à medida que essa encara com conformismo a exploração sexual alheia).

E aqui, já entrando na seara da análise do desempenho dos cantores, vale ressaltar a grande atuação de Carla Cottini, verdadeiro destaque da noite (ou “protagonista della serata”, para usar uma expressão das mais tradicionais no universo operístico), com grande desempenho cênico, excelente projeção de voz (inclusive nos trechos falados) e afinação sempre precisa. Sua personagem funciona como o verdadeiro fio condutor do enredo e, indubitavelmente, Cottini mostrou-se eximiamente preparada para tal desafio.

De bom nível a interpretação de Eliane Coelho. Imponente em cena, com grande desempenho vocal no citado monólogo do segundo ato, atingiu o seu auge no quarto e último ato – após um intervalo técnico que lhe permitiu certo repouso vocal. Não me pareceu que a cantora estivesse tão à vontade neste tipo de repertório como já esteve em numerosos papéis do repertório tradicional. Algumas falas, a julgar pelas legendas, passaram batidas, e houve a necessidade em certo momento do auxílio do regente, que fez as vezes do ponto ao sussurrar a expressão “como pode?”. Intercorrências assim são plenamente aceitáveis na arte lírica, mas podem ser um sinal de desconforto por parte do cantor. Ainda assim, é sempre um privilégio apreciar a soprano: não há exagero nenhum em nominá-la como uma das maiores cantoras líricas brasileiras de todos os tempos, e espero revê-la, assim como Carla Cottini, em futuras edições do Festival. Aliás, é necessário dizer que ambas contracenaram muito bem – foi tocante a cena da reconciliação, e impressionante a sinergia entre as cantoras em algumas frases musicais marcadas por notas sobreagudas. Ademais, graças também ao excelente trabalho de figurino, visagismo e iluminação (pontos acerca dos quais falarei detalhadamente mais adiante), havia até certa semelhança física entre as personagens, em uma caracterização bastante verossímil.

Quanto aos personagens masculinos, muito boa a participação de Idaías Souto no papel de Praed. O personagem, em si, não é dos mais marcantes (o que também ocorre no texto de Shaw), entretanto, pela forte presença cênica e pela voz muito bem projetada, Souto conseguiu dar relevo a um papel que, teoricamente, não teria tanto destaque na ópera. As atuações de Mauro Wrona (o degenerado Sir George Crofts) e de Paulo Mandarino (o hipócrita reverendo Sam Gardner, tão degenerado quanto Crofts, somente mais discreto) foram eficazes e convincentes na medida certa. Wrona tem um quê de Charaktertenor que provocou alguns momentos de riso no público, ao passo que Mandarino optou por uma interpretação mais dissimulada – até porque estamos falando aqui de um reverendo!

Por sua vez, Rafael Stein interpretou Frank Gardner, filho do reverendo, devasso como o pai, interessado nas posses de Vivie e, ao mesmo tempo, nos possíveis favores sexuais de Mrs. Warren. Com presença cênica agradável, Stein enfrentou com bravura toda uma sequência de notas sobreagudas que caracterizam a tessitura do personagem. Teve, de fato, alguma dificuldade em termos de projeção, mas aqui há que se considerar que a acústica do teatro está longe de ser adequada para uma encenação operística. Aliás, esse é um problema sério da cidade de Vitória: produzir ópera aqui é um tremendo desafio pela falta de adequação das salas disponíveis.

Não à toa, a Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo – Oses, em uma formação reduzida (cordas em 4-4-3-2-2, pares de madeiras e metais, além de quatro percussionistas e harpa), teve que ocupar as primeiras fileiras da plateia e alguns lugares no balcão (no caso, os metais). A ausência de fosso é um problema sério para a projeção vocal, mas, mesmo assim, ouviu-se bem os cantores. Méritos, nesse caso, para o regente Gabriel Rhein-Schirato, responsável pela complexa tarefa de manter tudo funcionando corretamente (um grande desafio em obras atonais tão complexas, porque, uma vez que um dos cantores se perdem, é bastante complicado colocar a coisa toda no eixo novamente). Rhein-Schirato, além de conduzir com competência a ópera do início ao fim, também foi preciso nas indicações de entradas dos instrumentistas, bem como soube controlar a sonoridade dos músicos. Esses, por sinal, mais uma vez comprovaram que a Oses é um conjunto de alto nível, capaz de encarar com arrojo composições das mais arrevesadas.

Quanto à concepção cênica, essa funcionou perfeitamente: a direção de Livia Sabag primou por evitar o uso de elementos que provocassem distrações desnecessárias – algo que, ultimamente, não parece ser alvo da preocupação de muitos encenadores que se aventuram pelos palcos nacionais. Os cantores estavam bem situados no palco, inclusive com o uso de algumas falas vindas dos bastidores (recurso que foi bem empregado). Os belos e funcionais cenários de Nicolás Boni criaram uma correta atmosfera campestre nos atos iniciais, que gradativamente deu lugar a um ambiente misto no terceiro ato, em que a paisagem do campo passou a ser parcialmente coberta por uma pintura sombria que fazia referência à Revolução Industrial. A meu ver, essa dicotomia, de alguma forma, refletia o que se via no palco: o contraste entre o mundo de aparências dos personagens do sexo masculino, no qual tudo é lindo e maravilhoso desde que as mulheres estejam em seus devidos lugares, e o mundo de opressão das personagens femininas, ora vistas como objetos sexuais, ora vistas como possíveis fontes de renda. Por fim, um cenário urbano de escritório foi o adequado palco para o último ato.

Aos cenários, somaram-se os elegantes figurinos de Fabio Namatame e o discreto visagismo de David Scardua, harmonicamente concebidos de modo a fazerem sentido no contexto da encenação, tornando as caracterizações individuais e a interação entre os cantores extremamente convincentes. Excelente o trabalho de iluminação de Valéria Lovato, principalmente no monólogo de Mrs. Warren, quando sutilmente todas as atenções se voltam para a cantora (e aqui há que se elogiar o tour de force de Eliane Coelho, que capturou a atenção da plateia nessa tão impactante cena).

Schoenberg, um dos pais da música atonal, disse certa feita que “um dia, até os contínuos assobiarão as minhas músicas”. Se as composições atonais irão perdurar com o passar dos séculos, não sabemos ainda. Talvez contemplem um nicho específico de público, como ocorre desde o século XX, após o advento das gravações, com repertórios mais restritos como são as composições de mestres antigos como Pérotin, Léonin, Dufay e Machaut (este último autor da Messe de Nostre Dame, pináculo da música sacra medieval, mas ainda restrita ao grupo de ouvintes que explora por iniciativa própria esse tipo de repertório).

O fato é que nem a frase de Schoenberg e nem a profecia de William Mann (crítico do “The Times” que, em 1982, afirmou que o Pli Selon Pli de Pierre Boulez seria “tão popular quanto qualquer sinfonia de Mahler ou de Tchaikovsky”) se cumpriram até hoje – eu, particularmente, nunca vi um estagiário de escritório assobiando um trechinho que seja do Pierrot Lunaire. Nesse sentido, em que pese ser louvável a iniciativa do Festival de trazer com tanta mestria este tipo de espetáculo inovador aos palcos capixabas, seria interessante viabilizar também, à guisa de formação de público, uma gala lírica com peças do repertório mais tradicional, empregando os mesmos cantores que atuam nas novas óperas. Ou ainda pensar em alternativas, como promover os chamados “double bills“, mesclando às novas obras outras mais acessíveis ao grande público.

De toda sorte, o Festival de Música Erudita do Espírito Santo, nas pessoas do seu diretor geral, Tarcísio Santório, e da sua diretora executiva, Natércia Lopes, deve ser aplaudido como uma iniciativa ousada e duradoura, a ser reproduzida por outros centros culturais do nosso país.


Fotos do próprio autor.