Em colaboração especial para Notas Musicais, Sergio Casoy analisa a “Gala de Ópera Italiana”, apresentada no domingo, 24 de agosto, no Theatro Municipal de São Paulo.
Ao cair da tarde do último domingo, 24 de agosto, pouco antes que o Theatro Municipal de São Paulo, com sua lotação exaurida, desse início a mais um espetáculo, uma alegre expectativa envolvia todo o público, ao mesmo tempo que despertava, nos frequentadores mais antigos, certas evocações nostálgicas dos concertos vocais de outras épocas.
Uma iniciativa por si só digna de aplauso, a ação cultural conjunta do Consulado Italiano, do Istituto Italiano di Cultura e da Cia. Ópera São Paulo resultou na materialização desta Gala de Ópera Italiana, na qual se apresentaram três artistas líricos italianos vindos a São Paulo especialmente para a ocasião: o barítono Simone Piazzola, o soprano Greta Cipriani, de Veneza, e o mezzosoprano Laura Verrecchia, tendo sido o público desta vez poupado, graças à não existência de um tenor no elenco, das costumeiras repetições de Nessun Dorma e O Sole Mio, as quais, apesar de belas, tão batidas estão que ninguém mais sente falta.
Os cantores contaram com o elegante apoio do professor Daniel Gonçalves ao piano, competente e discreto como sempre.
O repertório escolhido, totalmente italiano, abrangeu três períodos da ópera peninsular: o Classicismo com Rossini, o Romantismo com Verdi, e finalmente alguns dos membros da Giovane Scuola Italiana da passagem para o século XX, Puccini, Mascagni e Giordano.
Para abrir o concerto, uma receita de antigamente que sempre funcionava e sempre funciona: começar com canções (ou alguma ária muito simples), que tinha então, como teve agora, a dupla finalidade de permitir ao público se familiarizar com a voz de cada intérprete e formar suas primeiras impressões e, do lado do cantor, testar a sala e suas próprias condições vocais. Aqui, os compositores foram Tosti e Rossini.
Um repertório, enfim, pronto para deixar feliz qualquer melômano da tradição ítalo-paulistana, sem surpresas nem interrogações, predispondo o público favoravelmente ao recital. Mas esse conforto da audiência encerra um grande perigo para o intérprete. Quando os trechos cantados são, como foram os constantes do programa, muito conhecidos, cada um dos ouvintes, inconscientemente, compara a interpretação à qual está assistindo com aquela que tem estocada na memória de sua gravação de vídeo ou áudio favorita, e a exigência instintiva se torna muito mais severa.

Dos três artistas citados, a de menor rendimento foi o soprano Greta Cipriani, natural de Veneza. Greta é, apesar das cores um tanto escuras – e bonitas – de sua voz central, um soprano lírico puro. Um defeito que se nota imediatamente é que, ao passar para o registro agudo, a voz muda de cor e se torna estridente.
Suas escolhas para o recital foram, a meu ver, equivocadas, não adequadas à delicadeza de sua voz. A canção de Tosti com a qual se apresentou ao público, L’alba separa dalla luce l’ombra, é território conhecido de intérpretes portadores de vozeirões, e se tornou famosa através das gravações legadas por Enrico Caruso e Jussi Björling, pedindo um volume e uma intensidade que a voz de Greta não possui. Há outras canções de Tosti que teriam se adaptado melhor ao seu instrumento vocal. La Serenata, Ideale ou mesmo Aprile teriam ficado perfeitas em sua voz. Nesse seu primeiro contato com o público, talvez por um pouco de nervosismo, a voz exibiu um vibrato incômodo e excessivo, que desapareceu nos números seguintes.
O segundo número em que se apresentou – também esse mal escolhido – foi a ária de Leonora em La Forza del Destino, a difícil Pace, pace, mio Dio, própria para um soprano lírico-spinto, e, portanto, pesada para a voz de Greta, à qual faltou o metal necessário. Se a voz média esteve muito bonita, os graves caíram muito de volume, e os agudos se fizeram mais uma vez estrídulos. A interpretação foi não de uma cantora profissional, mas de uma acadêmica compenetrada, que desconhecia a personagem e não conseguiu, em sua execução, capturar o sofrimento desesperado de Leonora, limitando-se a emitir as notas perfeitamente afinadas.
Mas de repente, uma agradável reviravolta: em seu último solo, cuja escolha nada teria a ver, a rigor, com a sua voz, Greta, desafiando o perigo, encantou o público com a sua interpretação profunda e personalíssima da ária Vissi d’arte, da Tosca de Puccini. Consciente, ao que parece, das suas limitações vocais, o soprano as usou como ferramentas interpretativas, empregando a cor escura de sua voz para criar uma Tosca mais fragilizada do que desesperada, resignada, uma linda e diferente leitura. Foi um dos grandes momentos do recital.

Cantando desde 2015, o mezzosoprano Laura Verrecchia tem, como demonstrou logo em sua primeira entrada, grande familiaridade com o palco, que ela ocupa muito bem. A voz, com bom volume, tem o típico colorido escuro dos mezzos italianos, com reflexos de ouro velho, homogênea nos vários registros, e traz lembranças distantes de Giulietta Simionato. Mas Verrecchia sofre de divismo agudo, o que a levou – caso raro no mesmo recital – a usar três vestidos na mesma tarde. Teria ela pagado por excesso de bagagem?
Os dois números iniciais de Verrecchia foram assinados por Rossini. Primeiro, a deliciosa tarantella La Danza, na qual ela exibiu um belo fiato e seu domínio da técnica do rallentando, mantendo o ritmo do canto bem vivo enquanto percorria o espaço em torno do piano, apostando na sensualidade dos seus movimentos.
Seu segundo solo, a grande ária de Rosina Una voce poco fa, de Il Barbiere di Siviglia, foi interpretada com vivacidade e bom volume, um pouco prejudicada por alguma insegurança momentânea no ajuste dos agudos, que foi, entretanto, rapidamente corrigida e compensada com um esplêndido agudo final, embora a cantora tenha se furtado a executar as coloraturas de praxe nessa ária. Quanto à movimentação cênica, Verrecchia, talvez esquecida que de um recital se tratava, flertou perigosamente com a vulgaridade ao erguer seu vestido alguns bons centímetros acima dos joelhos, fazendo com que suas coxas fossem entusiasticamente aplaudidas pelo setor masculino da plateia.
Nos seus dois últimos solos, Laura Verrecchia cresceu bastante. Na ária verista de Santuzza, da Cavalleria Rusticana de Mascagni, o mezzo mostrou a carga dramática de que é capaz ao atuar em um drama com tintas de tragédia, usando a voz de peito para expressar a mágoa da personagem. E atingiu o seu ponto máximo nessa apresentação com a sua leitura de O Don Fatale, da ópera Don Carlo, de Verdi, dando vida a uma Eboli impressionante sob os aspectos vocal e dramático, mostrando uma profunda intimidade com a personagem. Impecável e emocionante, cantou Verdi como Verdi deve ser cantado, proporcionando ao público um dos mais destacados números do recital.

Ouvi nos corredores do teatro, de alguns dos organizadores da apresentação, que esta foi a primeira vez que o trio trabalhou junto. Talvez por isso, nos números de conjunto, o resultado tenha ficado bastante aquém do esperado.
No dueto Oh! Il Signore vi manda, da Cavalleria Rusticana, trecho impregnado de violência verista, faltou… verismo. Apesar das suas belas e experientes vozes, mezzosoprano e barítono, cantando num andamento bem mais lento que o usual, falharam totalmente em passar ao público alguma veracidade, tornando o dueto tão frio e desinteressante quanto um comercial de geladeira no Polo Norte, com um volume tão diminuto que, se o acompanhamento fosse orquestral em vez do piano, as vozes teriam sumido.

Um pouco melhor foi o famoso dueto do quarto ato do Trovatore verdiano, Mira di acerbe lagrime, entre o Conde de Luna (barítono) e Leonora (soprano), este com andamento correto, e que mostrou o barítono com alguma dificuldade nos agudos e o soprano Cipriani em boa forma. A interpretação ganhou vigor e sinceridade a partir da cabaletta Vivrà! Contende il giubilo, arrematada com um belo e duradouro agudo emitido pela dupla no final.
Neste recital, o nome mais conhecido, em torno do qual geraram-se grandes expectativas, foi sem dúvida o do barítono veronês Simone Piazzola, que canta profissionalmente desde 2005. Hoje, aos 40 anos, desenvolveu uma importante carreira e se apresenta com regularidade em alguns dos mais importantes palcos líricos da Europa. Piazzola pode ser classificado como um barítono lírico, com um timbre especial, quente, de colorido sombreado, mas não demasiado escuro. Sua cor vocal se situa a meio caminho entre a cor clara de Leo Nucci e a escura de um Hvorostovsky, uma voz que os italianos chamariam de brunita.
Piazzola cativou instantaneamente a audiência ao abrir o concerto com uma linda interpretação da delicada canção ‘A vucchella, respeitando cuidadosamente todos os cânones anteriores estabelecidos pelos grandes cantores líricos do passado.
Seu solo seguinte, A Morte de Rodrigo, da ópera Don Carlo, de Verdi, com lindos legati, passagem perfeita para os agudos e apenas uma infinitesimal queda de rendimento nos graves extremos, foi coroado por uma longuíssima nota sustentada por um fiato interminável, tornando a ária de Rodrigo veraz e comovente.
Já na grande cena do Rigoletto, Cortigiani, vil razza dannata, Piazzola não se mostrou tão à vontade quanto nos panos de Rodrigo. Cantou bem, corretamente, as notas estavam todas ali e estavam certas, mas o ódio que o bufão expressa através da música verdiana não se fez presente na intensidade necessária. Também faltou pathos na seção final, Ebben, io piango: o choro do corcunda soou falso e não patético como deveria, apesar de mais uma linda e longa nota cantada sobre pietà, a palavra final do trecho.

Mas, mesmo tendo cometido algumas falhas – e isso acontece com grandes cantores em espetáculos ao vivo mais do que se imagina – Simone Piazzola se redimiu completamente ao cantar, de maneira esplêndida, a grande ária de Gérard, Nemico della patria?!, em Andrea Chenier, a ópera verista de Umberto Giordano. Difícil dizer qual foi a melhor, se essa ária ou a de Don Carlo, mas é muito fácil afirmar que foram as duas melhores interpretações de todo o recital. O recitativo inicial foi ótimo, e já nesse ponto o barítono tinha se transformado em Gérard. Passou ao cantabile Un dì m’era di gioia com um misto de emoção e recolhimento, expressando as reminiscências do revolucionário com certa melancolia para, em seguida, sentir crescer dentro de si o amor por seu povo até culminar na magnífica frase “tutte le genti amar!”, que soou, na sala do teatro, como um sol iluminando a escuridão da noite.
Enfim, um belo concerto, com mais acertos do que erros, do jeito que São Paulo gosta… e merece.
Antes de encerrar, queria deixar aqui registrado um grande abraço ao meu grande amigo e amigo da ópera Paulo Esper, que há 35 anos, à frente da Cia. Ópera São Paulo, vem tirando da sua cartola mágica concertos como esse. Obrigado, meu caro.
Fotos: José Luiz (na foto principal, a partir da esquerda, Daniel Gonçalves, Greta Cipriani, Paulo Esper, Laura Verrecchia e Simone Piazzola).
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