Beleza e simplicidade

No TMRJ, encenadora Julianna Santos realiza em “Os Pescadores de Pérolas” um dos seus melhores trabalhos. Soprano e barítono também se destacam.

Les Pêcheurs de Perles (Os Pescadores de Pérolas), 1863
Opereta em três atos

Música: Georges Bizet (1838-1875)
Libreto: Eugène Cormon (1810-1903) e Michel Carré (1821-1872)

Theatro Municipal do Rio de Janeiro

20 de julho de 2025

Direção musical: Luiz Fernando Malheiro
Direção cênica: Julianna Santos
Cenografia e figurinos: Desirée Bastos
Iluminação: Paulo Ornellas
Desenho de vídeo: Angélica de Carvalho
Coreografia: Bruno Fernandes e Mateus Dutra

Elenco:
Leïla: Ludmilla Bauerfeldt, soprano
Nadir: Carlos Ullán, tenor
Zurga: Vinicius Atique, barítono
Nourabad: Murilo Neves, baixo

Coro do Theatro Municipal (regente: Cyrano Sales)
Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal

Após a sua estreia no Théatre-Lyrique de Paris, em 30 de setembro de 1863, onde ficou em cartaz por 18 récitas, Les Pêcheurs de Perles (Os Pescadores de Pérolas), ópera em três atos de Georges Bizet sobre libreto de Eugène Cormon e Michel Carré, demorou pouco mais de 22 anos para retornar aos palcos – não por iniciativa dos franceses, mas pelas mãos dos italianos, que a apresentaram em tradução para a sua língua no Teatro alla Scala, em março de 1886. O sucesso foi tanto – não só no Scala, mas também em outras casas italianas –, que os franceses acabaram se rendendo à obra, levada novamente em Paris em 1889 por iniciativa do editor italiano Edoardo Sonzogno, 14 anos depois da morte do compositor.

Se esta verdadeira joia musical não chega a ser uma obra-prima, tal fato deve-se mais ao fraco libreto oferecido ao compositor que à bela e inventiva música de Bizet, repleta de melodias cativantes e dotada de uma rica orquestração. A trama é bastante simples: no antigo Ceilão, dois grandes amigos, Nadir e Zurga, apaixonam-se ao mesmo tempo pela mesma mulher, a sacerdotisa Leïla. Para evitar o conflito e preservar a amizade, eles juram um ao outro que não irão procurá-la.

Tempos depois, Leïla aparece na aldeia dos amigos, velada, para cantar em louvor a Brahma e Shiva, buscando a proteção dos deuses para o trabalho dos pescadores. Somente Nadir a reconhece em um primeiro momento, e, ao se declarar para ela, é correspondido. Quando Zurga finalmente descobre que aquela sacerdotisa é a mesma por quem ele havia se apaixonado, e percebe que ela ama Nadir, o conflito entre os amigos se restabelece até o desenlace final.

Segunda produção lírica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 2025, Les Pêcheurs está sendo apresentada em terras cariocas com direção de Julianna Santos, que concebeu para a casa uma montagem simples, mas muito bem realizada, que alcança um belo efeito visual. Direto e sem firulas, este é um dos melhores trabalhos da encenadora que já pude apreciar – se não o melhor. E tudo é acompanhado por uma boa movimentação cênica, enriquecida pelas coreografias de inspiração oriental de Bruno Fernandes e Mateus Dutra.

Desirée Bastos assina o cenário (único, mas bastante funcional) e os bons e adequados figurinos. O cenário, por si, não chega exatamente a encantar, mas a ótima iluminação de Paulo Ornellas e o excelente desenho de vídeo Angélica de Carvalho fazem a diferença, contribuindo bastante para o impacto visual do espetáculo. Além das projeções ao fundo do palco, dentre as quais a mais bonita é um céu estrelado, o piso do palco também recebe projeções: ora simulando uma praia, com pequenas ondas; ora exibindo a maré alta (durante a cena noturna do segundo ato), com a água do mar chegando até a parte inferior da estrutura central do cenário.

O efeito é tão bonito, que até dá para perdoar as laterais totalmente abertas do palco. Cabe, no entanto, uma ressalva: somente quem assiste ao espetáculo de um plano minimamente elevado (eu estava no balcão nobre) consegue percebê-lo e apreciá-lo totalmente. Para quem está na plateia a visão desta projeção no piso do palco pode ser prejudicada total ou parcialmente, conforme confirmei com amigos que assistiram à estreia da produção. Um amigo disse que não conseguiu ver nada de onde estava, e uma amiga relatou ter conseguido ver parcialmente.

Vinicius Atique, Ludmilla Bauerfeldt (velada) e Coro do Theatro Municipal

Na récita do dia 20 de julho, o Coro do Theatro Municipal, preparado por Cyrano Sales, começou a apresentação com alguns desencontros, mas se ajustou ainda no primeiro ato e passou a oferecer uma performance segura. Já a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal seguiu em sua rotina de imprecisões, ainda que em nível menos problemático que aquele percebido em produções anteriores, como Rusalka e A Viúva Alegre (devo ter dado alguma sorte com o rodízio desta vez…). O maestro Luiz Fernando Malheiro conduziu a ópera com segurança, empregando boa dinâmica e buscando ressaltar nuances da partitura, ainda que nem sempre tenha sido correspondido pela sonoridade do conjunto.

Dentre os solistas, o baixo Murilo Neves interpretou Nourabad, o grão-sacerdote de Brahma, com voz balançada e agudos esgarçados e bem desafinados. O tenor argentino Carlos Ullán mostrou-se o exemplo perfeito de cantor estrangeiro que não teria feito a menor falta se não tivesse vindo ao Brasil: voz comum, que por vezes parecia não ter qualquer “apoio” e pouco audível entre as regiões média e grave. Sua interpretação da ária Je crois entendre encore esteve muito abaixo de qualquer expectativa, e, nos duetos com a soprano e o barítono, sua voz quase “sumia”.

Vinicius Atique e Carlos Ullán

A escalação de elencos no TMRJ é, já há um bom tempo, bastante singular. Da mesma forma que se escalam cantores sem condições vocais de interpretar as partes para as quais são convidados, escalam-se também alguns dos melhores cantores do país. O barítono Vinicius Atique (que fez recentemente a sua estreia europeia no Teatro Massimo, de Palermo, Itália; cantando a seguir também na Ópera de Bucareste, Romênia) interpretou Zurga, o líder dos pescadores, com voz generosa. Sua ária do terceiro ato, O Nadir, tendre ami, uma das passagens menos inspiradas de Bizet, foi bem defendida, e o maravilhoso dueto com o tenor do primeiro ato, Au fond du temple saint, só ficou de pé devido à sua indispensável performance.

Ludmilla Bauerfeldt

E a soprano Ludmilla Bauerfeldt, que foi indicada por Notas Musicais melhor cantora dos anos de 2023 e 2024 exatamente por atuações no TMRJ, mais uma vez demonstrou a alta qualidade da sua arte. Interpretando a sacerdotisa Leïla, a Bauerfeldt ofereceu um canto belo, preciso e expressivo. Especialmente a partir do segundo ato, em passagens como a ária Comme autrefois, o dueto com o tenor (Leïla! Dieu puissant \ Ton coeur n’a pas compris le mien!) e o eletrizante dueto com o barítono (Je frémis, je chancelle) – que reuniu os dois melhores cantores da récita –, a artista matizou a sua interpretação com um nível técnico que está cada vez mais raro de encontrar no Brasil. Quando essa técnica se une à sua entrega cênica, o resultado raramente fica abaixo da excelência.

Les Pêcheurs de Perles fica em cartaz no Municipal do Rio até o próximo sábado, 26 de julho. Alternam-se nos quatro papéis da ópera a soprano Michele Menezes, o tenor Caio Duran, o barítono Homero Velho e o baixo Leonardo Thieze.


  • O TMRJ continua devendo o conserto da cortina principal do palco, prometido desde o ano passado.
  • Não sei em que pé está a organização do concurso anunciado para os quadros da casa, mas insisto: a seleção dos músicos para a OSTM precisa ser extremamente rigorosa. E, a partir do momento em que os músicos aprovados assumirem os seus cargos, a direção da casa precisará chamar para si a responsabilidade de pôr ordem nos rodízios do conjunto.
  • Na última segunda-feira, 21 de julho, o TMRJ iniciou a venda de ingressos para todos os seus espetáculos do segundo semestre. Como sempre acontece, a chiadeira foi geral nas redes sociais. Se, antes de dividir os ingressos dos espetáculos em três lotes, já dava problema, com muita gente não conseguindo comprar, sobretudo para os balés, imagine o leitor a dificuldade agora, quando aproximadamente apenas um terço dos ingressos são colocados à venda. Comprar entradas para o TMRJ se torna cada vez mais um sacrifício e, nas redes, já tem até apelido: “jogos vorazes”. Reconhecer o erro seria um gesto nobre: é altamente recomendável que a gestão do TMRJ reverta a decisão da divisão em lotes para a temporada do ano que vem. Observemos também se, até lá, a ticketeira terceirizada que atende a casa já terá sido substituída.

Leia também o artigo de Sergio Casoy sobre a história da composição da ópera Os Pescadores de Pérolas.


Fotos: Daniel Ebendinger (na foto principal, a soprano Ludmilla Bauerfeldt).

8 comentários

  1. O problema da venda dos ingressos para o segundo semestre é que não houve divulgação de nenhum elenco. Nem mesmo do Corsário, que é o próximo espetáculo. Não dá para comprar no escuro: o público precisa saber quem vai cantar ou dançar. São informações indispensáveis na escolha das récitas e o teatro insiste em pensar que seu público é inculto.

  2. Finalmente uma crítica decente sobre o espetáculo. Os momentos mais esperados da noite foram dois grandes baldes de água fria… a ária do tenor e o dueto. Fiquei muito frustrado, porém a soprano e o barítono estavam incríveis. A pergunta que fica é: não tem cantores no Brasil parar fazer o papel? Lembro de ter assistido o dueto lindamente interpretado no dia mundial da ópera. Não puderam chamar o rapaz que cantou?

    1. Jajajjajaja🤣🤣🤣🤣. Se nota demasiado evidente su terrible odio y resentimiento para con los argentinos. Lo mismo que el odio del que escribe la Nota. Me da mucha gracia porque el aplauso de la gente demostró REALMENTE lo que pasó en el escenario. Y POR ESE PLAUSO YO ME LLEVO. Lamentablemente no se puede confiar en estas Críticas de este señor, y ya todos los cantantes brasileros me dijeron lo mismo de este “crítico de arte” y sus seguidores. Todos resentidos y fracasados en sus tareas. Lamentable , su odio para con los argentinos da mucha gracia . Jajajajajjaja. 🤣🤣🤣🤣

    2. Notas Musicais: comentário não publicado por conter conteúdo vulgar e desrespeitoso. O comentário original está salvo nos arquivos de Notas Musicais.

  3. O ideal seria o TMRJ voltar a ter uma série de assinaturas para as temporadas de ópera e balé, minimizaria parte dos problemas com a venda de ingressos.

  4. Notas Musicais: comentário não publicado por conter indícios de perfil fake, conforme testes realizados por Notas Musicais.

  5. Caro Leonardo, bela resenha, expôs exatamente o que vi na estreia em 16/07/25. Lembra que te perguntei se já havia assistido? Você respondeu que ainda iria e eu falei: “vamos ver se minha percepção será igual a sua”, e foi exatamente a mesma. Falar a verdade agora virou discurso de ódio? Já tivemos belas apresentações de argentinos e recentemente tivemos Laura Pisani na Traviata, o problema não foi esse. O que queriam que você escrevesse? Que foi ótimo, quando não foi? Pode até parecer que o público brasileiro não entende nada e isso acontece mais pela complacência do que pela falta de conhecimento. Aplausos, tivemos sim! Será que preferiam as deselegantes vaias? Os aplausos aconteceram, mas quem estava lá sabe que foi bem diferente dos aplausos para os outros papeis. A performance do tenor foi ruim, apresentou insegurança na voz, além de emissão e projeção com problemas bem perceptíveis. Os duetos em que participava mais pareciam solos, ainda mais com a nossa maravilhosa Ludmilla. Assisto óperas há mais de 20 anos e nunca vi uma apresentação tão ruim no Municipal. Nesse caso, mil vezes um brasileiro sim. Um quarteto brasileiro teria sido extremamente melhor! Te atacam porque você não faz como outros, que por mais que saibam, escrevem diferente da realidade. Não temos problemas com argentinos, nem com quaisquer outros, mas com um trabalho ruim, sim, temos, não aceitamos qualquer coisa!

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