Conferência 2025 da OLA: uma convivência que gera frutos

De 17 a 20 de junho, o monumental Palau de les Arts, na quente e acolhedora cidade de Valência, na Espanha, recebeu a 18ª Conferência Anual de Ópera Latinoamérica (OLA). Dentre os brasileiros, participaram do encontro o Festival Amazonas de Ópera (FAO), os teatros municipais do Rio de Janeiro (TMRJ) e de São Paulo (TMSP), e a Cia Ópera São Paulo. A convite desta última, Notas Musicais esteve presente no evento.

Prêmio Ópera XXI

A conferência foi aberta, no dia 17, com a cerimônia de entrega do Prêmio Ópera XXI. É o mesmo prêmio que, no ano passado, laureou a montagem de Il Guarany do Theatro Municipal de São Paulo na categoria de melhor produção latino-americana de 2023. Neste ano, a vencedora do prêmio latino-americano foi a produção de Tosca (encenada por Francisco Krebs) do Teatro Municipal de Santiago, do Chile.

Na ocasião, pudemos ouvir o barítono catalão Jan Antem, de 27 anos, premiado na categoria jovem cantor, e o excelente e já consagrado baixo-barítono Simón Orfila, eleito melhor cantor masculino. Dentre as 16 premiações, merecem destaque, ainda, a de melhor maestro, que ficou com Pablo Heras-Casado; a de melhor diretor cênico, entregue a Calixto Bieito; e a de melhor nova produção: Die Meistersinger von Nürnberg, de Laurente Pelly, uma coprodução entre o Teatro Real de Madri, a Royal Danish Opera e o Teatro Nacional de Brno.

A cerimônia, apresentada pelo midiático Ramón Gener, foi transmitida ao vivo pelo Opera Vision e pode ser vista pelo YouTube até dezembro.

Conferências: o público no centro dos debates

Neste ano, o público foi o tema central dos painéis da OLA. Procurou-se desvendar qual é o público para o qual os teatros programam, o que programam, e como é feita a comunicação com esse público. A busca por um público jovem foi algo recorrente. Embora todos reconheçam a importância de trazer os jovens para a ópera, a obsessão por atrair esse público foi questionada. Para Ramón Gener, que participou da mesa a respeito de divulgação, os jovens que hoje frequentam eventos musicais para jovens tendem, com o passar dos anos, a ampliar os seus horizontes musicais e a querer conhecer a ópera. Durante a mesa Las Comunicaciones hoy y el Público, um dos membros da OLA que estava na plateia lembrou que, há cinquenta anos, quando era criança, foi ao teatro ver uma zarzuela com seu pai, que lhe disse: “Quantos cabelos brancos! Quando eles se forem, quem virá aqui?”. A conclusão natural é que os cabelos brancos vão se sucedendo ao longo das gerações e preenchendo as cadeiras dos teatros.  

Javier Ibacache (Red LAP), Hein Mulfers (Oper Köln), Eric Herrero (TMRJ) e Guy Coolen (O. Festival)

Também merecem destaque as discussões acerca da comunicação com o público. Eric Herrero, diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, destacou a importância da comunicação por meio das redes sociais e podcasts, além do contato direto com o público nos dias das récitas. As discussões mais interessantes, no entanto, foram quanto aos objetivos dessa comunicação e o papel da imprensa tradicional, jornais e revistas, nessa comunicação. A comunicação via redes sociais vai além do nicho daqueles que já seguem os teatros e os artistas? E o público mais velho, que ainda se informa por meio dos jornais e revistas impressos? Se, sem a divulgação na imprensa, os ingressos se esgotam, seja com público pagante, seja com convidados, o dever foi cumprido e a comunicação é desnecessária? Para Ramón Gener, o objetivo é lotar os teatros, e cada um tem que descobrir o seu meio, que nem sempre precisa envolver a imprensa. Felizmente, Augusto Techera, do Teatro de la Maestranza, vê a questão por outro ângulo, e reconhece que a importância de envolver a sociedade e de com ela se comunicar vai além da lotação do teatro.

O equilíbrio entre obras novas e as de repertório era um assunto que não podia faltar. Naturalmente, o tema surgiu envolto na tradicional e falaciosa divisão: novas obras para atrair novos públicos, especialmente os jovens; óperas de repertório para o público tradicional e de cabelos brancos ou tingidos. Felizmente, não tardou para que essa divisão caísse por terra: o público tradicional é receptivo a novidades (cito, aqui, por minha conta, O Nome Da Rosa, que estreou há pouco no Teatro alla Scala e conquistou grande sucesso), e o novo público se fascina e se emociona com os encantos do repertório tradicional. E aqui assino embaixo do que falou Ramón Gener: as obras que foram incorporadas ao repertório têm algo a nos dizer como indivíduos e como sociedade, e devem ser transmitidas ao público não de forma mistificada, como objetos sagrados, mas com naturalidade.

Fórum das Mulheres

Não poderiam faltar, neste relato, algumas palavras a respeito do importante Fórum das Mulheres OLA, que nasceu em 2023, em Manaus, durante um café da manhã para mulheres gestoras de teatros. Dele participaram duas gestoras brasileiras: Flávia Furtado, do Festival Amazonas de Ópera, e Andrea Caruso, diretora do Theatro Municipal de São Paulo. Caruso apontou o baixíssimo percentual de compositoras na programação do TMSP: até 2022, as obras das mulheres representavam, no máximo, 5% das apresentadas no teatro. Agora, após um trabalho de pesquisa e de convencimento de que existem boas compositoras, esse número saltou para 38%, o que, em termos de tempo de música, corresponde a aproximadamente 25%. Suponho que, com essa pesquisa por obras de compositoras e a preocupação de as incorporar à temporada, podemos ter a esperança de, finalmente, ver, em um futuro próximo, alguma obra de Kaija Saariaho no TMSP.  

Valentí Oviedo (Liceu), Andrea Caruso (TMSP), Flávia Furtado (FAO) e Julia Sánchez (Fundação Albéniz)

Caruso tem trabalhado em conjunto com a fundação inglesa Donne, Women in Music, fundada e presidida pela soprano brasileira Gabriella Di Laccio, que, em razão justamente deste trabalho, recebeu, no mês passado, uma das mais altas honrarias da coroa britânica: o título de Member of the Most Excellent Order of the British Empire. Nos dias 19 e 20 de setembro, haverá, no TMSP, um fórum de mulheres, dando seguimento ao do encontro Abram Alas, iniciado no ano passado para pensar a presença das mulheres na música e na ópera.

Óperas: Roberto Devereux e Cendrillon

Além das conferências, os organizadores do encontro ofereceram aos participantes dois espetáculos operísticos bastante distintos: a ópera Roberto Devereux, de Gaetano Donizetti, na sala principal do Palau de Les Arts Reina Sofía, e uma produção volante, em valenciano, da Cendrillon, de Pauline Viardot, em uma praça da província de Puçol.

Com os belos cenários de Ben Baur e figurinos de Klaus Bruns, a produção de Jetske Mijnssen transportou a ação de Roberto Devereux para uma casa de alto padrão de tempos modernos indefinidos, talvez para algum cenário hollywoodiano do século XX. Com direção cênica fria e desprovida de dramaticidade, a leitura de Mijnssen não foi capaz de transmitir nenhuma ideia interessante, nem de meramente ilustrar a ação. O coro, sempre um desafio para os encenadores, apresentou-se em geral estático em volta da cena.  

Musicalmente, no entanto, o espetáculo mais que se sustentou. Um bom maestro, uma orquestra de qualidade e um ótimo quarteto de solistas são os ingredientes indispensáveis para que se tenha sucesso com Roberto Devereux, e esses ingredientes estavam presentes no Palau de Les Arts.

Logo na primeira cena, em All’afflitto è dolce il pianto, a mezzosoprano espanhola Silvia Tro Santafé, intérprete de Sara, já demonstrou a qualidade do seu canto, exibindo um timbre quente e consistente em toda a extensão, com peso nos graves e brilho nos agudos. Com uma voz que se projeta com fartura, o barítono italiano Lodovico Filippo Ravizza soube salientar o lado dramático e atormentado do Duque de Nottingham. O brilho do belo timbre do tenor Ismael Jordi e a beleza do seu fraseado deram o tom do papel-título. Na pele de Elisabetta, a protagonista, a soprano italiana Eleonora Buratto mostrou por que tem merecido destaque e se apresentado nos mais prestigiados palcos de ópera. Um perfeito legato, fraseado rico e belos pianos são marcas do seu canto. Seu timbre penetrante ocupou todo o Les Arts.

À frente da Orquestra de la Comunitat Valenciana, Francesco Lanzillotta fez uma leitura precisa e que respeitou os cantores. Preparado por Jordi Blanch Tordera, o Coro de la Generalitat Valenciana apresentou uma sonoridade homogênea e envolvente.

A ópera encerrou a temporada 2024-2025 do Les Arts e, ainda, concluiu a trilogia Tudor iniciada em 2022, com Anna Bolena. A direção cênica foi sempre de Mijnssen – segundo relatos de frequentadores, funcionou bem melhor nas duas primeiras óperas –, e os três títulos tiveram Buratto, Santafé e Jordi como protagonistas.

Quanto à Cendrillon — ou La Ventafocs, uma vez que foi adaptada para o valenciano —, faz parte do projeto Les Arts Volant, que leva a ópera para diferentes vilarejos, especialmente aqueles onde não há uma atividade musical. O palco é a carroceria de um grande caminhão, onde está montado o cenário. Ali se apresentam os cantores do Centre de Perfeccionament del Palau de les Arts (Opera Studio do Palau de les Arts Reina Sofía), atualmente dirigido pela renomada soprano espanhola María Bayo. Em Puçol, às 22h, a praça — enorme e cheia de cadeiras — foi tomada por uma multidão. A qualidade do espetáculo superou qualquer expectativa para o gênero.

Cendrillon (foto: Fabiana Crepaldi)

Frutos dos encontros da OLA

Para finalizar esse relato, é sempre bom lembrar dos frutos que a OLA já trouxe para os teatros membros. Citando apenas algumas cooperações e coproduções envolvendo teatros brasileiros, estreou, em fevereiro, no Teatro Colón, em Bogotá, na Colômbia, em coprodução com o FAO, a ópera La Vorágine, de João Guilherme Ripper, uma encomenda do Centro Nacional de las Artes – Delia e de La Compañia Estable. A obra integrou ainda o FAO deste ano. O mesmo compositor teve a sua obra Domitila apresentada no Teatro de la Zarzuela, em Madri. Em outubro, nas Ilhas Canárias, estreará a coprodução do FAO e do Auditório de Tenerife de Yerma, de Villa-Lobos. Dentre as companhias independentes, há a coprodução de Don Giovanni (2025) e de La Traviata (2026) da Cia Ópera São Paulo e da Ópera Disidente, de Santiago, uma parceria que nasceu no encontro da OLA de 2024. Na ausência de coproduções nacionais, que bom que há esse intercâmbio entre teatros e compositores brasileiros com os membros da OLA de outras nacionalidades!

A cada ano, além da oportunidade de os gestores trocarem ideias, conversarem informalmente, tomarem contato com o trabalho realizado por outros teatros e, eventualmente, se inspirarem, os participantes são expostos a diferentes tipos de espetáculos operísticos, enriquecendo a sua experiência. Neste ano, conforme acima exposto, aos membros da OLA foram oferecidos uma ópera de alto nível musical e profissional e um espetáculo itinerante, que forma jovens cantores e novos públicos, levando a ópera ao interior da província. São duas atividades fundamentais e que se complementam no mundo da ópera. Nada mais saudável para os gestores do que sentar lado a lado e experimentar essas duas facetas do espetáculo operístico.


Fotos: Les Arts.

2 comentários

  1. Parabéns, querida amiga Fabiana!
    É maravilhosa a sua dedicação e competência no estudo, na pesquisa, no acompanhamento e apreciação de tantas óperas maravilhosas , tradicionais e modernas, em todas as partes do mundo. Você nos brinda, com a oportunidade de curtir e conhecer o que acontece no mundo da lírica!
    Obrigada, querida.
    Liz .

  2. Bem interessante este encontro das principais casas de ópera latino-americanas. Intercâmbio e novas propostas. Achei a opção de ópera itinerante particularmente interessante, levando este tipo de espetáculo a locais onde uma montagem tradicional jamais chegaria.

    Creio entretanto que ainda há pouca integração, no sentido de propor produções conjuntas entre as grandes companhias. Poderia baratear alguns custos, mantendo a confecção dos maiores cenários em cada casa, transportando em contêineres figurinos, adereços, elementos esculturais, tapeçarias, etc. Um esforço de logística que teria de ser investigado por ter vários ganhos de escala. Aumenta o número de espetáculos em cada casa, torna a vivência de cada montagem uma possibilidade para distintos públicos. Infelizmente não é realidade no mundo da ópera.

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