Nova composição de Flo Menezes não se comunica com o público.
Quando o Theatro São Pedro, de São Paulo, apresentou em 2019 Ritos de Perpassagem, do compositor Flo Menezes, o que se viu no palco foi uma obra “diferente”, uma espécie de “instalação musical”. Definitivamente, não se tratava de uma “ópera”, como foi classificada na ocasião, mas era uma obra, no mínimo, curiosa e interessante, que tinha um sentido claro e que se comunicou razoavelmente com o público.
Seis anos depois, nestes meados de 2025, o compositor voltou a estrear uma obra na mesma casa, Oposicantos, que ficou em cartaz entre os dias 03 e 06 de julho. Desta vez, o São Pedro teve o cuidado de anunciar a peça, no material de divulgação distribuído à imprensa, da seguinte forma: “a obra não se trata de uma ópera tradicional, mas de uma ação musical multimídia em um ato constituído por 13 situações, para vozes solistas, coro, dois pianos, vasta percussão, orquestra e eletrônica”.
E a casa fez muito bem em deixar isso claro, pois, mais uma vez, não estávamos diante de uma ópera. Em Oposicantos, a ideia principal do autor era destacar “a oposição binária entre noções, ideias e atitudes propostas pela trama poética, em estratificações e rebatimentos múltiplos”. Para Flo Menezes, “(…) quase tudo que se vê por um ângulo ganha sentido mesmo se visto pelo ângulo oposto. Trata-se, aqui, de enunciar a dúvida como princípio fundamental da inteligência humana”. “Oposição”, no entanto, não significa necessariamente conflito dramático. E sem conflito dramático não pode haver ópera.
Ainda assim, com base em princípios ao mesmo tempo simples e instigantes, Oposicantos tinha um ótimo ponto de partida, mas que involuiu para uma obra extremamente complexa, e de comunicação praticamente impossível com o público. Na sua primeira metade, diversos fragmentos de textos distintos são interpretados ao mesmo tempo em vários idiomas diferentes pelos solistas e pelo coro. Na estreia do dia 03 de julho, foi impossível acompanhar tudo: era preciso ler ao mesmo tempo duas legendas: aquela principal, em um letreiro retangular acima do palco, e também os textos que eram projetados nas laterais do cenário. Por vezes, o letreiro principal trazia a tradução de três textos ao mesmo tempo divididos em blocos. Era necessário escolher um e acompanhar a passagem das legendas do respectivo bloco. Se tentasse ler os três, o espectador se perdia rapidamente.
Já a segunda metade da peça, menos confusa, com menos textos sobrepostos, permitiu que se desse atenção maior à teia orquestral, talvez o aspecto mais positivo de uma obra que, no geral, mostrou-se bastante enfadonha. Ao contrário do que havia ocorrido em Ritos de Perpassagem, a comunicação entre Oposicantos e o público estava próxima do zero. Poucas vezes torci tanto para o espetáculo acabar logo!
No final, com a honrosa exceção dos cantores solistas, os aplausos foram bem tímidos. Não houve vaias, mas a falta de entusiasmo dos aplausos parecia indicar o óbvio: ninguém ali havia entendido muita coisa, e certamente as pessoas saíram do teatro sem saber exatamente o que haviam assistido.
Oposicantos tem muita técnica composicional na sua elaboração, mas lhe falta o essencial: arte. Sem arte, não há sentido claro, e muito menos comunicação com o público. Sem arte, o que resta é apenas uma gororoba musical.
Opções repetidas e ausência da soprano

A encenação esteve sob a responsabilidade de Alexandre Dal Farra, que, não sei se por iniciativa própria ou por sugestão do compositor, repetiu algumas opções já utilizadas em Ritos de Perpassagem (dirigida na ocasião por Marcelo Gama), como manter o público aglomerado no saguão do teatro até o efetivo início da apresentação, e a utilização dos corredores da sala de espetáculos para a movimentação dos artistas. Se é que havia algo a ser comunicado, o encenador não soube muito bem como fazê-lo.
A concepção visual e os vídeos de Raimo Benedetti e a iluminação de Mirella Brandi atingiram um belo efeito estético que, no entanto, pouco ou nada significavam. Os figurinos de Awa Guimarães eram inclassificáveis.
A Orquestra do Theatro São Pedro, conduzida por Eduardo Leandro, e o Coro Contemporâneo de Campinas, preparado por Maíra Ferreira, fizeram o que puderam pela obra. Como já mencionado acima, a escrita orquestral é o que há de melhor em Oposicantos, e o regente se esforçou para entregar o que era possível. Participou também o Stúdio Panorama de Música Eletroacústica da UNESP.
Do elenco de cinco solistas previstos, apenas quatro se apresentaram no dia 03: o baixo Gustavo Lassen, a mezzosoprano Luisa Francesconi, o tenor Anibal Mancini e o barítono Isaque Oliveira. A soprano Katia Guedes não se apresentou, nem foi substituída. Questionado a respeito, o Theatro São Pedro respondeu por meio da sua assessoria de imprensa:
“A soprano Katia Guedes não participou da estreia de ‘Oposicantos’ devido a um quadro de laringite identificado no último ensaio antes da apresentação. Apesar de ter seguido recomendações médicas e de ter feito todo o possível para se recuperar a tempo, a artista não reuniu condições para se apresentar. Em razão do caráter inédito da obra, da grande complexidade técnica, e do curto espaço de tempo, não foi possível viabilizar uma substituição, no entanto, diante do imprevisto, o compositor fez ajustes na partitura com o intuito de mitigar o impacto da ausência e preservar a integridade artística da apresentação”.
Considerando o “caráter” da obra, é pouco provável que a presença da soprano pudesse contribuir para mudar alguma vírgula da análise deste autor.
Adiamentos para 2026
Desde as apresentações de Fidelio, em abril, corre nos bastidores a informação de que a temporada anunciada pelo Theatro São Pedro para 2025 não será apresentada na íntegra. O Atelier de Composição Lírica (previsto para novembro) e a opereta Orfeu nos Infernos (prevista para dezembro) foram adiados para a temporada 2026. A produção da ópera Falstaff, de Verdi, está confirmada para agosto.
Segue a manifestação oficial da casa, via assessoria de imprensa, a respeito do Atelier e da opereta de Offenbach:
“As produções não foram canceladas, mas transferidas para 2026. Em razão das obras de reforma no Theatro São Pedro, a programação prevista para 2025 passará por ajustes no calendário. Após as fortes chuvas ocorridas no final de 2024 e início de 2025, foram realizadas intervenções paliativas no telhado e nas instalações elétricas do teatro. No entanto, para garantir a segurança de artistas, equipes técnicas e do público, será necessária uma intervenção mais ampla e definitiva, com início em abril de 2025 e previsão de conclusão até o final deste ano. Dessa forma, a montagem da ópera ‘Orfeu’, inicialmente programada para este ano, será remanejada para 2026, considerando a complexidade de sua produção. As montagens do ‘Atelier de Composição Lírica’ também serão realizadas ao longo de 2026 para melhor adequação do projeto político pedagógico.
Lembramos que o Theatro São Pedro é um patrimônio histórico de enorme importância para a cidade e o estado de São Paulo, assim como para o Brasil. Por isso, as obras visam não apenas preservar sua estrutura, mas garantir que ele siga sendo um espaço vivo e seguro de encontro com a música, a ópera e as artes. Mesmo durante a reforma, o Theatro São Pedro seguirá em atividade. Serão realizadas programações de menor porte, tanto do próprio Theatro quanto de instituições parceiras. Além disso, a Orquestra do Theatro São Pedro promoverá itinerâncias pelo estado de São Paulo, levando a ópera a públicos que muitas vezes não têm acesso a uma programação lírica contínua”.
Fotos: Íris Zanetti. Na foto principal, sobre a mureta do fosso da orquestra, o baixo Gustavo Lassen.

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.






Não há como discordar do autor: para mim, Oposicantos pode ir para o lixo das composições de música dita clássica. É uma performance com alguma música, nada mais.
Me pergunto por que Flô Meneses ainda recebe atenção de teatros de ópera. Será por apostar que sua obra disruptiva aponte abra um novo mundo que o comum dos mortais não entende? Poderia ele ser um novo Stravinski? Se for, então música clássica não é mais para mim. Stravisnki foi um compositor genial, tanto enquanto ‘enfant terrible’ quanto neoclássico. Mesmo Schönberg, que não fez escola, tinha seu valor. O que assisti semana passada era mais um show de horrores.
Tanto crítica quanto comentário bem condizentes com o ultraconservadorismo que assola nosso país. Não percam tempo ouvindo minha obra! Vocês não a entenderão jamais, e nem ela é concebida pra vocês.
Sejam felizes! Flo Menezes
Olá, Flo! Obrigado por ler a resenha. Seja sempre bem-vindo a Notas Musicais.
Apenas a título de esclarecimento, o texto não é marcado por “ultraconservadorismo” algum: ele apenas tenta expressar as sensações passadas pela apresentação da obra. Como certamente não vamos concordar a respeito disso, deixemos que a posteridade (e as eventuais apresentações da obra em outros teatros e em outras ocasiões) decida isso por nós. Receba um abraço!