A grande soprano brasileira está em São Paulo para o quinto ciclo do projeto Se não é Agudo, é Grave — Encontro de Gerações na Ópera. Leila está preparando jovens cantores, que apresentarão trechos da ópera Fosca, de Carlos Gomes, no domingo, 05 de outubro, às 11h, no Teatro Sérgio Cardoso. Os ingressos podem ser retirados no teatro, antes do início do espetáculo, ou no site do Sympla.
Conheci Leila Guimarães em Passa Quatro, no sul de Minas Gerais, onde a soprano reside atualmente. Em sua casa, após um pouco de conversa, ela fala: “Quero cantar alguma coisa para vocês! Uma canção?”. Deixamos, claro, que ela escolhesse. Remexe em algumas partituras, senta-se ao piano, e eis que, para quem estava esperando alguma canção de Villa-Lobos ou Carlos Gomes, vem uma grande surpresa: da voz de Leila, brota Sieglinde!
Longe dos palcos há alguns anos, Leila quer voltar a cantar. Ou melhor: precisa cantar. Ela tem estudado, vocalizado, cantado e “vai surgindo cada vez mais voz”. E que voz! Leila é a típica cantora de vozeirão e que consegue domar muito bem toda aquela voz. Sim, ela doma a voz, mas não a necessidade de cantar, que continua a dominá-la.
Isso porque cantar faz parte da vida de Leila Guimarães. Aos oito anos de idade, ela venceu um concurso de calouros e, em seguida, começou a cantar no coral da escola, em Volta Redonda, sua cidade natal. Aos nove anos, fez o seu primeiro solo, em uma apresentação de Natal. Nessa tenra idade, Leila já tinha uma voz respeitável: quase saiu do coral porque, como a sua voz era muito forte, o regente queria colocá-la no fundo — e ela não aceitou de jeito nenhum. Em casa, colocava LPs de ópera no toca-discos e se punha a cantar “aquelas coisas super agudas”, contou. Foi preciso, até, que seu pai conversasse com a vizinhança.
Todos na família de Leila gostavam de cantar, mas música popular. Quando o pai percebeu que o negócio dela era a ópera, colocou-a, aos 11 anos, nas aulas de canto. Nessas alturas, ela já sabia música e já tocava piano. Aos 19 anos, casou-se e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se matriculou na Escola Nacional de Música. “No primeiro dia que eu cheguei lá, fui para a Escola Nacional de Música”, contou Leila. Dos 19 aos 22 anos, passou a fazer concursos de canto para adquirir experiência. “Eu fiz sete concursos de canto no Rio de Janeiro e ganhei todos os sete!”, lembrou a soprano. Aos 22 anos, ficou em quarto lugar no Concurso Internacional de Canto, mas ganhou os prêmios de melhor intérprete de Villa-Lobos, melhor intérprete de Marlos Nobre e de melhor cantora brasileira do concurso. “Sabe quem me entregou esse prêmio? Rolf Liebermann, diretor da Opéra de Paris, que chegou para mim no camarim e falou: ‘Vai em frente, porque você tem um futuro’”, e aconselhou-a a ir estudar fora.
O início da carreira e La Bohème com Pavarotti
Em 1978, quando veio a companhia de ópera do Teatro Colón, ela estreou profissionalmente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, não fazendo um papel pequeno, mas como Desdemona em Otello. Depois da Desdemona, vieram Tosca e Ceci (em Il Guarany). “Aí não parei mais de cantar”.
Em São Paulo, estreou em 1979 no Theatro Municipal, como Ilara em Lo Schiavo, mesmo papel que cantou no Uruguai. Voltou ao TMSP em 1981, quando foi Mimì em La Bohème.
Foi no mesmo ano, no Municipal de São Paulo, a seleção para a final do Concurso Paravotti, que aconteceria no final do ano, na Filadélfia, para escolher os solistas que cantariam La Bohème com Luciano Pavarotti na Ópera da Filadélfia. Leila foi escolhida para participar da final. “Eu fui para lá com a minha malinha, saí de Volta Redonda, sem falar inglês, com trezentos dólares no bolso… Quando eu entrei no avião, começou a me dar uma dor de dente… Aí o meu dente siso começou a inchar, eu fiquei com uma bola aqui do lado”. Assim que chegou à Filadélfia, Leila foi levada ao dentista. Ele drenou a infecção e fez o dente desinchar. O dentista falou que ela podia arriscar cantar, mas ele a desaconselhava. Sua prova era dali a dois dias. Claro, ela cantou.
Havia “milhares de pessoas cantando, do mundo todo. Tinha russo, japonês, coreano… americano tinha demais! Todos cantando muito bem”, lembra Leila. Ela observou que as concorrentes iam de calça jeans, sem se preocupar nem com o visual e nem com a encarnação da personagem. “Comprei um vestidinho estilo Mimì, soltei o cabelo… Já era Mimì”.
Pavarotti “mandava todo mundo parar. As pessoas começavam a cantar e ele ‘Grazie! Grazie! Arrivederci!”, contou Leila, que já estava pronta para ser interrompida no início da ária. Não foi assim. “Ele me deixou cantar a ária toda, ‘Sì, mi chamano Mimì’ toda”. Depois, ele pediu para que cantasse a segunda ária, Donde lieta uscì. Ainda: o final, Sono andati. “Aí ele falou ‘Agora canta o final do dueto [do primeiro ato], com aquele dó’. Eu pensei ‘Agora eu vou ter que segurar esta nota oito tempos, como está escrito na partitura’”. E deu certo: “Eu cantei aquele dó como eu nunca cantei na vida”. Quando ela terminou, Pavarotti encerrou a audição: em Leila Guimarães, encontrou a Mimì que procurava.
Desse modo, com regência de Oliviero de Fabritiis e direção cênica do compositor Giancarlo Menotti, Leila cantou La Bohème, ao lado de Pavarotti, no teatro de ópera da Filadélfia, em 1982. A récita foi transmitida para o país inteiro pela emissora americana PBS e ganhou o prêmio Emmy. Lamentavelmente, no YouTube não há o vídeo inteiro, mas apenas alguns trechos.
Os estudos com Nell Rankin
Além do papel de Mimì em La Bohème, Leila também ganhou uma bolsa para estudar na Academy of Vocal Arts (AVA), na Filadélfia. Lá, foi ter aulas de canto com ninguém menos que Nell Rankin, mezzosoprano americana que foi estrela do Metropolitan Opera por 25 anos. “Era a melhor professora de canto de todos os Estados Unidos”, cravou Leila.
Pavarotti já estava indicando o nome de Leila para outros teatros americanos, mas Rankin tinha outros planos: Leila teria que parar tudo e, durante um ano, ficar só estudando e vocalizando com ela, para modificar toda a sua técnica — que, segundo Rankin, era muito instintiva. Leila topou, mas isso implicava em ficar sem renda. Ela conta que chegou a pensar em desistir, e só conseguiu atravessar o período porque teve todo o apoio de Rankin. A professora, inclusive, passou a dar aulas de canto para ela também em Nova York, no Carnegie Hall, sem cobrar nada.
Até que chegou um dia em Leila viu um anúncio de audição para La Bohème na ópera da Filadélfia. O mesmo papel, no mesmo teatro em que havia cantado com Pavarotti. Mesmo temendo a reação de Rankin, foi se inscrever, mas nem precisou: quando a diretora do teatro a viu por lá, ela já ganhou o papel de Mimì.
Leila foi contar a Rankin, temendo perder a professora ou ter que deixar a produção. Rankin, no entanto, achou que ela já estava madura tecnicamente e a preparou para voltar ao papel dali a quatro meses. Leila foi aluna de Rankin por seis anos, e atribui à técnica que aprendeu com ela o fato de ter voz até hoje: “Isso é o mais importante da minha carreira, o resto são as coisas que eu fiz”.
A carreira na Europa
Após se apresentar em vários teatros dos Estados Unidos (como o Kennedy Center, em Whashington, ou o Mann Music Center, na Filadélfia, para 25 mil pessoas), Leila foi para Frankfurt, na Alemanha, para passar um ano preparando Aida, Il Trovatore, Un Ballo in Maschera.
Após esse período de estudos, voltou ao Rio de Janeiro, onde conheceu o crítico Marcus Góes, com quem se casou em quatro meses. Logo o casal mudou-se para a Europa, para que Leila pudesse dar sequência à carreira. Ao chegar à Itália, Leila encontrou uma colega dos tempos de AVA, casada com o diretor da Ópera de Sofia, na Bulgária, que tinha uma companhia ambulante que fazia turnês pela Europa. Leila fez parte da turnê, onde foi Mimì (em La Bohème), Abigaille (em Nabucco), Elsa (em Lohengrin) e a soprano solista da Nona Sinfonia de Beethoven.
Um dos palcos pelos quais a turnê passou foi o da Ópera de Dijon. Lá, Leila cantou Lohengrin e foi vista pelo diretor da casa, que a convidou para integrar o elenco estável. Ela iria cantar todos os papéis do seu repertório: Abigaille, Aida e Amneris, Norma e Adalgisa, Tosca… Leila foi para Dijon e ficou cinco anos por lá.
Depois da França, veio a Itália. Com residência em Milão, Leila fez diversas audições: “a cada cinco audições, eu passava em duas”. E, nos teatros em que não passava, voltava, fazia nova audição, e passava: “Eu cantei em todos os teatros da Itália que eu podia”: Parma, Torino, Palermo, Catânia, Roma…
Na ópera de Montecarlo, Leila tornou a se encontrar com Giancarlo Menotti e foi, mais uma vez, por ele dirigida. Ele a escolheu para cantar em sua ópera O Cônsul.
Leila fez toda a sua carreira italiana com passaporte brasileiro, o que lhe rendeu o título de Cidadã Benemérita, concedido pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Intérprete dos grandes compositores brasileiros
Embora tenha cantado Carlos Gomes mais em recitais que em produções de ópera, Leila está entre as intérpretes de referência do compositor brasileiro. O mesmo pode ser dito a respeito da obra de Villa-Lobos. Quem consegue permanecer com olhos secos ao ouvir Leila cantando “A gente sofre sem querer”, no Martelo, das Bachianas Brasileiras nº 5?
O disco Villa-Lobos: Melodias Populares, que Leila gravou em 2013, acompanhada ao piano por João Carlos Assis Brasil, atesta a qualidade da sua interpretação. O disco está disponível em plataformas de streaming, como o Spotify.
Não é exagero dizer que Leila Guimarães figura entre as sopranos mais importantes da história do canto lírico brasileiro — isso levando em conta não só a sua carreira, mas a qualidade das suas interpretações.
Nesta semana, ela está em São Paulo, transmitindo um pouco dos seus conhecimentos a jovens cantores. No quinto ciclo do projeto Se não é agudo, é grave — encontro de gerações na ópera, que tem curadoria de Paulo Esper, Leila está preparando jovens cantores que apresentarão trechos da ópera Fosca, de Carlos Gomes, no domingo, às 11h, no Teatro Sérgio Cardoso. Os ingressos podem ser retirados no teatro, antes do início do espetáculo, ou no site do Sympla: “Vou ensinar o que aprendi com o maestro Menotti!”

Cofundadora do site Notas Musicais, é a correspondente no Brasil das revistas L’Opera (Itália) e Pro Ópera (México). Colabora, ainda, com a Opera Magazine (UK) e com o site L’Ape Musicale (Itália). Fez parte do júri das edições 2020 e 2022 a 2025 do Concurso Brasileiro de Canto ‘Maria Callas’ e é membro do conselho de Amigos da Cia. Ópera São Paulo. Em 2017, fez a tradução, para o português, do libreto da ópera Tres Sombreros de Copa, de Ricardo Llorca, para a estreia mundial da obra, em São Paulo. Estudou canto durante vários anos e tem se dedicado ao estudo da história da ópera e do canto lírico.





