CORS abre a sua Temporada 2026 com grande produção de “La Traviata”

A nova montagem da obra-prima de Verdi celebra o primeiro aniversário do Teatro Simões Lopes Neto, os 125 anos de falecimento do compositor, os 200 anos da personagem que inspirou a obra, e os 25 anos de carreira de Flávio Leite.

No dia 27 de março de 2025, a Companhia de Ópera do RS (CORS) foi convidada para inaugurar o novo templo da arte, da cultura e da expressão do estado, o Teatro Simões Lopes Neto, dando início ao projeto Ópera e Formação em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura do RS. Turandot encantou o público, que lotou três sessões, com cenários grandiosos, figurinos e caracterizações impactantes em uma imensa operação de produção: 60 músicos, coro lírico de 45 vozes, onze solistas, regente, diretor cênico, assistentes, maestros preparadores, montadores de orquestra, atores e bailarinos, totalizando quase 200 pessoas na equipe.

Comemorando o primeiro aniversário do novo teatro, a CORS abre sua temporada 2026, intitulada Memória e Identidade, continuando a parceria com a SEDAC-RS com mais uma experiência inesquecível: uma nova superprodução de La Traviata, ópera de Giuseppe Verdi (1813-1901) sobre libreto de Francesco Maria Piave (1810-1876). Uma das óperas mais célebres de todo o repertório lírico é também a campeã em número de encenações ano após ano pelo mundo, mesmo passados 173 anos da sua estreia em Veneza.

Com concepção e direção cênica de Flávio Leite, que está comemorando os 25 anos da sua carreira iniciada com a mesma ópera (em 2001), e direção musical e regência de Marcelo de Jesus (SP) frente à Orquestra Theatro São Pedro, a montagem levará ao palco nos dias 28, 29, 30 e 31 de março (sábado, domingo, segunda e terça-feira) um grande elenco de solistas encabeçado pelas sopranos Ludmilla Bauerfeldt (RJ) e Elisa Machado (RS), alternando-se como a cortesã Violetta Valéry; os tenores Giovanni Tristacci (RS) e Felipe Bertol (RS) interpretando Alfredo Germont; e os barítonos Licio Bruno (RJ) e Roger Bueno (RS) dando vida à Giorgio Germont. As mezzosoprani Cristine Guse e Carol Braga; os tenores João Ferreira Filho, Adolfo Amaral e Xavier Quiñonez; os barítonos Oritz Campos, Robert Willian e Vinícius Braga; e o baixo Bruno Mezzomo completam o time de solistas.

O espetáculo contará, ainda, com as participações da Orquestra Theatro São Pedro, do Coro Lírico da CORS com 30 integrantes, e dos bailarinos da Plural Cia de Dança.

La Traviata

Ópera em três atos, é baseada no clássico da literatura francesa, A Dama das Camélias. O livro foi escrito em 1848 por Alexandre Dumas Filho a partir de uma experiência autobiográfica do autor, que se envolveu com a cortesã Marie (Alphonsine) Duplessis, nascida há exatos 200 anos. Dessa forma, a narrativa da obra conta a história de Armand Duval, um jovem estudante de direito de Paris na metade do século XIX. Tímido e originário de uma família burguesa interiorana, o jovem se apaixona por Marguerite Gautier, a mais cobiçada cortesã dos salões e teatros da capital francesa do século XIX. Ela lhe retribui a paixão e, assim, a vida da protagonista é transformada pela força desse amor improvável que acaba levando-a a um destino trágico.

O sucesso de A Dama das Camélias rendeu diversas adaptações. O próprio autor cuidou da adaptação para o teatro. O Théâtre de Vaudeville recebeu a encenação, que teve sucesso imediato em 1852. Foi aí que Giuseppe Verdi teve o primeiro contato com a obra, que, com libreto de Francesco Maria Piave, estrearia no dia 06 de março de 1853, com o nome de La Traviata.

A estreia foi um fiasco. O público que compareceu ao Teatro La Fenice, em Veneza (Itália), vaiou a criação de Verdi. Até a soprano Fanny Salvini-Donatelli (1815-1891), que interpretou a protagonista Violetta Valéry, foi duramente criticada. Embora ela já fosse então uma cantora aclamada, boa parte dos espectadores zombaram da sua atuação e a consideraram muito velha (aos 38 anos) e muito acima do peso para interpretar uma jovem que morre de tuberculose. Verdi proibiu todas as demais apresentações em 1853 e, em 1854, reapresentou a obra com um elenco de sua escolha e foi um sucesso imediato, nunca mais saindo do repertório e ajudando a consagrar ainda mais o nome de Verdi internacionalmente.

A obra gira em torno de Violetta, que abandona a vida de cortesã em Paris para viver uma relação amorosa com o burguês Alfredo Germont. Feliz com a possibilidade de amar e ser amada, ela vende os seus bens para sustentar a vida do casal no campo, até que recebe a visita de Giorgio Germont, pai de Alfredo, pedindo para ela abandone o seu filho, porque o envolvimento dos dois destruiria a reputação da sua família e impediria que a sua filha mais jovem se casasse. Ela termina o relacionamento, e é humilhada por Alfredo em uma festa na mesma noite. Quando Germont conta a Alfredo o real motivo da separação do casal, ambos se arrependem e vão pedir perdão à Violetta, mas já é tarde: tomada pela tuberculose e empobrecida, ela morre.

“Violetta começa no ápice, sofre um corte abrupto e mergulha na dramaticidade. É preciso encontrar todas essas cores na mesma voz. O libreto deixa claro que seu drama não tem saída, e é a música de Verdi que a humaniza, que a tira do lugar de mulher objetificada”, explica Ludmilla Bauerfeldt, soprano que já deu vida à protagonista em 2023, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Essa tragédia romântica é embalada por árias e duetos consagrados e conhecidos do grande público, como Libiamo ne’ lieti calici (o famoso Brindisi), Sempre libera e Addio del passato – melodias com intensidade emocional e profunda relação com o texto, que consagraram Verdi como um dos maiores nomes do universo operístico.

“Faz 25 anos que Porto Alegre não vê uma ‘Traviata’. A última foi em 2001, quando estreei no palco como solista em uma produção do então Instituto de Cultura Musical da PUCRS. ‘La Traviata’ é sempre atual pois trata basicamente de misoginia, preconceito, e o seu antídoto, que é a compaixão, tudo isso embalado por uma música arrebatadora. Não à toa é considerada a ópera das óperas, sempre atual. Minha decisão como encenador de situar a montagem nos anos 1920 do século XX é a proximidade com o momento atual que vivemos no mundo apenas 100 anos depois. A Paris da década de 1920, nos ‘années folles’ (anos loucos), era efervescente cultural, artística e socialmente, como resposta à Primeira Guerra Mundial. As mulheres tiraram as saias de armação, os comprimentos das roupas diminuíram e cortaram cabelos curtos pela primeira vez na história”, conta Flávio Leite, diretor cênico da ópera e presidente da CORS, que completa:

Assim como a década que estamos vivendo, com os grandes avanços sociais e de igualdade de direitos no mundo, uma grande onda conservadora contrária aos avanços das liberdades individuais ganhou força. No final da década de 1920 o fascismo ascendeu na Europa e, na atualidade, o conservadorismo, o nacionalismo e a xenofobia ocupam lugar em todos os noticiários novamente. Quem sabe se, acompanhando as dores da nossa protagonista, não revejamos nossos preconceitos e nossos julgamentos com quem é ou pensa diferente de nós”.

Giuseppe Verdi

Giuseppe Fortunino Francesco Verdi, um dos compositores mais influentes do século XIX, quase desistiu da carreira ainda no seu início. Durante o período em que trabalhava na sua segunda ópera, Un Giorno di Regno, sua esposa faleceu. Abalado pela perda e pelo fracasso da estreia, prometeu que jamais voltaria a compor. Para a sorte do mundo, Verdi não cumpriu a promessa. Ele escreveria então quase três dezenas de óperas, dentre elas Nabucco, Macbeth, Il Trovatore, Rigoletto, Aida, Otello e Falstaff, ganhando projeção internacional incomparável. La Traviata ocupava um lugar muito especial em vida para Verdi. Sua segunda companheira, Giuseppina Strepponi, ex-cantora, responsável inclusive pela estreia de Nabucco, era mãe solteira e foi repudiada pelos conterrâneos de Verdi em Bussetto, cidade natal do compositor. Assim como Violetta e Alfredo, ambos se refugiaram no campo, na célebre Villa di Sant’Agata, para se afastar dos olhos e dos julgamentos da sociedade.


La Traviata
Ópera em três atos

Concepção e direção cênica: Flávio Leite
Direção musical e regência: Marcelo de Jesus
Maestro do Coro Lírico da CORS: Sérgio Sisto
Cenografia: Eduardo Menna
Figurinos: Daniel Lion
Iluminação: Veridiana Mendes
Violetta: Ludmilla Bauerfeldt (28 e 30/03) e Elisa Machado (29 e 31/03), sopranos
Alfredo: Giovanni Tristacci  (28 e 30/03) e Felipe Bertol (29 e 31/03), tenores,
Giorgio Germont: Licio Bruno (28 e 30/03) e Roger Bueno (29 e 31/03), barítonos
Flora: Cristine Guse, mezzosoprano
Annina: Carol Braga, mezzosoprano
Gastone: João Ferreira Filho, tenor
Barão: Oritz Campos, barítono
Marquês: Robert Willian, barítono
Dr. Grenvil: Bruno Mezzomo, baixo
Giuseppe: Adolfo Amaral, tenor
Funcionário de Flora: Xavier Quiñonez, tenor
Comissário: Vinícius Braga, barítono


Quando: 28, 30 e 31 de março (sábado, segunda e terça), às 20h / 29 de março (domingo), às 18h
Onde: Teatro Simões Lopes Neto (Rua Riachuelo, 1.089, Centro Histórico, Porto Alegre)
Ingressos: de R$ 40 a R$ 180 / vendas on-line neste link


Foto principal: Daniel Ebendinger (na foto, a soprano Ludmilla Bauerfeldt interpreta Violetta Valéry na última produção de “La Traviata” do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2023).

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