Direção de cena pouco rigorosa, amplificação das vozes e direção musical sem inspiração puxam para trás montagem de “Porgy and Bess” no TMSP.
Porgy and Bess, 1935
Ópera em três atos e nove quadros
Música: George Gershwin (1898-1937)
Libreto: Edwin DuBose Heyward (1885-1940) e Ira Gershwin (1896-1983)
Base do libreto: Porgy, romance e, depois, um drama de Edwin DuBose Heyward
Theatro Municipal de São Paulo
19 de setembro de 2025
Direção musical: Roberto Minczuk
Direção cênica: Grace Passô
Cenografia: Marcelino Melo (concepção) e Vinicius Cardoso (projeto)
Figurinos: Alexandre Tavera
Iluminação: Wagner Antonio
Visagismo: Elis de Sousa
Coreografia: Mario Lopes
Elenco:
Porgy: Luiz-Ottavio Faria, baixo
Bess: Latonia Moore, soprano
Crown: Bongani Justice Kubheka, barítono
Sportin’ Life: Jean William, tenor
Serena: Juliana Taino, mezzosoprano
Maria: Edneia Oliveira, mezzosoprano
Clara: Betty Garcés, soprano
Jake: Michel de Souza, barítono
Robbins: Mar Oliveira, tenor
Mingo / Nelson / Crab man: Mikael Coutinho, tenor
Frazier: Ádamo Oliveira, baixo
Agente funerário: Fúlvio Souza, barítono
Scipio: Negravat, mezzosoprano
Demais personagens: Eliseth Gomes, Mere Oliveira, Samuel Martins, Aline Serra, Indhyra Gonfio, Andrey Mira, Ademir Costa
Atores: Rodrigo Mercadante, Gustavo Lassen, Washington Lins, Kaio Borges, Felipe Venâncio, Malu Souza, Efraim Souza
Orquestra Sinfônica Municipal
Coro Porgy and Bess (Maíra Ferreira)
Uma produção de Porgy and Bess deve sempre ser louvada. A obra-prima de George Gershwin não é um título dos mais fáceis de se colocar no palco por diversos fatores, dentre os quais destacam-se: ainda está sob direito autoral; necessita de uma grande quantidade de solistas; e ainda exige que todo ou quase todo o elenco seja composto por artistas negros. Os dois primeiros fatores encarecem a iniciativa; o terceiro pode ser um dificultador considerável, especialmente quando o teatro que se propõe a montar a ópera vai empurrando com a barriga a tarefa de escalar todo o elenco (Notas Musicais apurou que, em maio, apenas quatro meses antes da montagem analisada neste texto, ainda havia personagens importantes sem solistas escalados).
Não à toa, a quarta produção lírica de 2025 no Theatro Municipal de São Paulo era um dos títulos mais aguardados do ano na temporada brasileira (e não apenas da capital paulista): além de ser uma obra magnífica, não é dessas que se vê a toda hora. É também a primeira produção própria desta ópera de Gershwin no TMSP (que já a havia apresentado no começo dos anos 90 em montagem totalmente proveniente do exterior).

Foi em 1926 que George Gershwin pensou em transformar em ópera o romance Porgy, de Edwin DuBose Heyward. Da ideia até o início do trabalho, com o começo da confecção do libreto por parte do próprio romancista, passaram-se sete anos. Somente em 1933, portanto, uma das joias líricas do Século XX começou a nascer. O compositor chegou visitar Charleston, na Carolina do Sul, para conhecer melhor o ambiente em que vivia a população negra retratada no romance original, chegando inclusive a estudar o comportamento e a música da parte mais pobre da comunidade local.
Mais adiante, o irmão do compositor, Ira Gershwin, juntou-se ao projeto, ajudando Heyward a completar o libreto. Ambos escreveram números tanto separadamente, como a quatro mãos. É de Ira, por exemplo, o texto das duas árias de Sportin’ Life (It ain’t necessarily so e There’s a boat dat’s leavin’), enquanto Heyward escreveu a célebre Summertime e a dramática My man’s gone now. Juntos, os dois escreveram a ária de Porgy, I got plenty o’ nutting, e aquela que se tornaria uma das passagens mais fascinantes da ópera, o maravilhoso dueto Bess, you is my woman now. Os libretistas optaram ainda por utilizar em várias passagens um dialeto que refletiria a linguagem informal e o jeito de falar daquelas pessoas. A cidade de “New York”, por exemplo, é chamada de “Noo York”.
Gershwin escreveu uma música saborosa, dotada de melodias cativantes e ritmos variados. Esta música ora tem caráter folclórico, ora bebe da fonte do spiritual ou do jazz, mas sempre com originalidade. Algumas características de musicais tipicamente norte-americanos também se fazem presentes, e talvez seja por isso que até hoje persista a polêmica sobre se a obra seria uma ópera ou um musical. A orquestração destaca-se pela riqueza de coloridos, e o compositor utiliza Leitmotive (motivos condutores) para caracterizar musicalmente os personagens.
Por falar neles, a construção psicológica dos personagens também merece nota: podemos acompanhar a evolução de Porgy como homem, através do amor que Bess lhe desperta, ao passo que vemos Bess tentar mudar de vida, para decair em seguida, vencida pela sua própria natureza e pelo vício da cocaína. E não só: Sportin’ Life e Crow seguem linhas bem definidas, cada qual um vilão à sua maneira: este de caráter mais dominador e violento, enquanto aquele assume um ar mais leve, através do seu cinismo exacerbado, exercendo uma violência de caráter psicológico. E até personagens secundários como Serena, Clara, Maria e Jake são muito bem delineados, assumindo cada qual uma personalidade musical marcante. O coro também tem parte importante, seja acompanhando os solistas, seja quando expressa os sentimentos da coletividade.
O leitor interessado pode saber mais sobre a ópera e a história da sua composição nos artigos de Bruno Góes e Sergio Casoy, que Notas Musicais publicou previamente à montagem paulistana.
Da concepção à realização

O espetáculo em cartaz no TMSP até o próximo sábado, dia 27 de setembro, conta com uma concepção de grande qualidade. Assim como já havia acontecido na montagem da ópera em Belo Horizonte (em 2017, com encenação de Fernando Bicudo), a atriz e diretora Grace Passô propôs ambientar a trama em uma periferia qualquer brasileira, sem definir especificamente que lugar seria este: poderia ser, por exemplo, um morro carioca, ou uma “quebrada” paulistana.
Para tanto, a principal contribuição visual é a cenografia de Marcelino Melo, conhecido como Quebradinha (concepção), e Vinicius Cardoso (projeto): o cenário, concebido como uma espécie de instalação, é formado na maior parte do tempo por um enorme tijolo giratório que, conforme a posição no palco, vai criando ambientes diferentes para as cenas. O tijolo, a propósito, é um elemento quase sempre presente, lembrando a estética marcante de algumas construções sem reboco de áreas menos favorecidas das cidades. Outros elementos bastante presentes nas periferias brasileiras são retratados no palco, como a laje com churrasqueira, cadeiras de praia ou de plástico, a mesinha em que amigos e parentes se reúnem para beber e papear, e até uma mototaxista (em versão feminina do personagem Scipio).
A iluminação de Wagner Antonio é muito eficiente e alcança belos efeitos em várias cenas, enquanto os figurinos de Alexandre Tavera e o visagismo de Elis de Sousa complementam o visual geral da montagem em perfeito acordo com a concepção da encenadora, com exceção do tratamento dado por Tavera à personagem Bess, pouco convincente e nada destacado para a protagonista feminina.
Daqui em diante é que os problemas começam a aparecer, pois a acuidade visual, por mais acertada que seja, não contempla todas as necessidades de uma encenação de ópera. A direção de atores de Grace Passô tem pontos frágeis consideráveis: a figura de Bess não chega exatamente a convencer como a mulher marginalizada pela própria comunidade e que tenta, sem sucesso, se redimir. Personagens como Porgy, Jake e Sportin’ Life parecem estar entregues aos seus intérpretes, sem um trabalho rigoroso de direção e marcação cênica.
Ainda sobre a direção de atores e a movimentação geral do espetáculo, a primeira parte da encenação (que reúne o primeiro ato e a primeira cena do segundo ato) é mais dinâmica, enquanto a segunda parte (que reúne o restante do segundo ato e todo o terceiro ato) fica mais arrastada e entrecortada. Também na segunda parte, foi possível ver cenotécnicos poluindo a cena para movimentar o grande tijolo do cenário – fato não observado na metade inicial.
As cenas dos dois assassinatos (de Robbins por Crown e, depois, o de Crown por Porgy) têm efeito dramático diminuto. Passô parece ter buscado retratá-las de maneira mais simbólica, a julgar por um dos textos do programa de sala, mas estamos falando de uma ópera que, se fosse italiana, muito provavelmente seria classificada como “verista”. Tratam-se, ainda, de cenas cruciais para o desenvolvimento do drama: sem o primeiro assassinato, Bess nunca teria se aproximado de Porgy; sem o segundo, ela provavelmente não teria se deixado levar por Sportin’ Life. Mesmo que não gostemos disso, a violência é uma atitude (por vezes, uma prática) inerente ao ser humano: até mesmo um homem de bom coração, como Porgy, é capaz de matar.
Assim, essas cenas cruciais acabaram recebendo um tratamento mais frio que “simbólico”, tornando-se muito pouco operísticas. A primeira delas ganha ares ainda mais superficiais diante da dança que a circunda. A coreografia de Mario Lopes, a propósito, é irregular e excessiva ao longo da encenação: justifica-se mais nos momentos de alegria e descontração, mas pouco contribui nas passagens mais dramáticas – por vezes dando a impressão de que foram concebidas para um musical, e não para uma ópera.
Os vídeos de Achiles Luciano, por fim, são irrelevantes para o desenvolvimento do espetáculo: se não estivessem ali, não fariam a menor falta.
Amplificação causa desequilíbrio sonoro

Óperas, via de regra, são apresentadas sem amplificação. Quando os solistas são bem escalados, as suas vozes costumam ser naturalmente bem projetadas em ambientes acústicos que foram pensados para isso, como é o caso dos teatros. No Porgy and Bess do TMSP, no entanto, optou-se pela amplificação das vozes.
Vários fatores podem ter levado à tal decisão. Um deles pode ter sido a própria cenografia. Como já anotado acima, o cenário da produção é muito eficiente sob o aspecto visual, mas, em termos de apoio acústico, pouco contribui para ajudar na projeção das vozes, com o palco muito aberto tanto atrás como nas laterais. Some-se a isso a natureza da orquestração de Gershwin combinada com um regente que, geralmente, não faz questão de dosar o volume da orquestra, e o que temos? Um convite descarado à amplificação.
Ao contrário do que aconteceu no ano passado, quando o TMSP também amplificou as vozes dos solistas na montagem da ópera O Castelo do Barba-Azul, desta vez a microfonação incomodou bastante. Na récita de estreia, em 19 de setembro, havia momentos em que o recurso era bastante claro (por vezes, exacerbado), em outros nem tanto; alguns solistas pareciam estar mais amplificados que outros; e até a orquestra parecia estar amplificada em algumas poucas passagens. Tudo isso somado causou um desequilíbrio sonoro que poderia ter sido evitado.
Direção musical arrastada

Cabe perguntar: sendo um regente, portanto um homem com ouvidos supostamente privilegiados, o diretor musical do espetáculo não percebeu, durante o período de ensaios, os problemas supracitados? Não buscou corrigi-los, ou ao menos mitigá-los de alguma forma? Tudo indica que não, a julgar pela condução arrastada que Roberto Minczuk empregou à boa parte da ópera. A sonoridade da Orquestra Sinfônica Municipal estava em dia, mas os andamentos e os ritmos empregados (sem ideias, sem o swing característico do jazz quando necessário) pareciam esconder o brilho da música.
O chamado Coro Porgy and Bess (formado com cantores provenientes do Coro Lírico Municipal e do Coral Paulistano, além de convidados), preparado por Maíra Ferreira, apresentou-se vocalmente bem.
Nas partes faladas, destacaram-se o Detetive do ator Rodrigo Mercadante e o Mr. Archdale do baixo Gustavo Lassen (que apenas atuou desta vez). Washington Lins e Kaio Borges interpretaram os policiais auxiliares do Detetive, e Felipe Venâncio deu vida ao Legista.
Nas partes terciárias, merecem menção positiva o baixo Ádamo Oliveira (Frazier, o advogado vendedor de divórcios), o barítono Fúlvio Souza (agente funerário) e o tenor Mar Oliveira (Robbins), todos seguros. A mezzosoprano Negravat, que interpretou a já mencionada versão feminina de Scipio, se não teve muito espaço para exibir a sua voz, demonstrou possuir grande carisma. O principal destaque deste grupo foi o tenor Mikael Coutinho (Mingo / Nelson / Crab man), que exibiu uma voz de timbre cativante. Por outro lado, o tenor Samuel Martins (Peter) e a atriz e cantora de musicais Aline Serra (Lily / Strawberry woman) deram a impressão de que, se não houvesse amplificação, sequer seriam ouvidos.
Chegando aos personagens de maior destaque, a soprano colombiana Betty Garcés (Clara) apresentou evidentes problemas técnicos. Assim, a ária mais célebre da ópera, a irresistível Summertime, deixou transparecer um excesso de vibrato que incomodava o ouvido. Como o marido de Clara, Jake, o barítono Michel de Souza ofereceu uma performance um tanto apagada. Sua ária, A woman is a sometime thing, e a canção do pescador, Oh, I’m agoin’ out to the Blackfish banks, receberam interpretações sem brilho.
O tenor Jean William exagerou na afetação do traficante Sportin’ Life, com trejeitos que passaram do ponto durante a ária It ain’t necessarily so, na qual o personagem comenta cinicamente passagens da Bíblia. Já em There’s a boat dat’s leavin’, quando tenta convencer Bess a segui-lo até Nova York, faltou-lhe certo carisma sedutor. Já a mezzosoprano Edneia Oliveira exerceu o seu direito de roubar algumas cenas como Maria. Sua atuação durante a ária I hates yo’ struttin’ style, na qual a personagem demonstra a sua ojeriza pelo traficante, foi de tirar o fôlego. Tanto Jean quanto Edneia, no entanto, deram a impressão de que, se não houvesse amplificação, seriam bem pouco ouvidos.
Como Crown, o ótimo barítono sul-africano Bongani Justice Kubheka exibiu a voz potente que lhe é característica, mas não chegou a oferecer uma performance perfeita como aquela de fevereiro passado (Gonzáles, na remontagem de Il Guarany). Sua ária, A red-headed woman makes, recebeu interpretação segura, mas sem despertar grande entusiasmo.
Uma das grandes atuações da noite foi, com sobras, aquela da mezzosoprano Juliana Taino. A artista interpretou uma Serena cenicamente impecável e ainda exibiu um nível de canto superlativo. Sua oração do segundo ato, Oh, doctor Jesus, exalava expressividade musical, e, antes disso, foi ela quem ofereceu ao público a ária mais bem cantada de toda a récita: My man’s gone now, do primeiro ato, interpretada com técnica apurada, graves bem calibrados e inteligência dramática.

O baixo Luiz-Ottavio Faria e a soprano norte-americana Latonia Moore deram vida aos personagens-título, Porgy e Bess. Dois grandes artistas, ambos defenderam muito bem as suas partes sob o aspecto musical, mas deixaram a impressão de estarem um tanto “soltos” na condução cênica dos protagonistas, sem uma direção mais rígida, meticulosa, para lhes indicar um caminho seguro.
A voz de Faria correu fácil pela deliciosa ária Oh, I got plenty o’ nuttin’, sempre expressiva e maleável, enquanto a de Moore já mostrou a que veio desde o spiritual do primeiro ato, Oh, the train is at the station (The Promise’ Lan’), com potência, musicalidade e carisma. Os melhores momentos de ambos, no entanto, aconteceram quando cantaram juntos os seus dois duetos: a joia Bess, you is my woman now e o intenso I loves you, Porgy.
Quando a música de Gershwin é bem cantada, como o foi pelos três últimos solistas citados, a altura do sarrafo é outra.
Completaram o elenco da noite de estreia os cantores Eliseth Gomes, Mere Oliveira, Indhyra Gonfio, Andrey Mira e Ademir Costa; e também os atores mirins Malu Souza e Efraim Souza, que interpretaram os filhos de Clara e Jake. Em récitas intercaladas, participarão também da montagem os cantores Marly Montoni (Bess), Davi Marcondes (Crown), Carlos Eduardo Santos (Sportin’ Life), Núbia Eunice (Clara), Zuzu Belmonte (Serena) e Edna d’Oliveira (Maria).
Sustenidos deixará o TMSP antes do tempo?
Há mais de uma semana, os bastidores do Theatro Municipal de São Paulo fervem. Uma postagem em rede social feita por um funcionário da casa causou a ira de setores patrulhadores à direita da política (aquela gente que, se pudesse, traria a 2025 algumas das piores práticas da Idade Média, e que anda furibunda da vida porque o STF condenou alguns dos seus “ídolos”). O leitor encontra aqui detalhes do imbróglio.
O problema é que o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, acusou o golpe das pressões que recebeu, e resolveu dar ordem, via Fundação TMSP, para que a Sustenidos, organização social que administra a casa, demitisse o referido funcionário. Como a O.S. se recusou a realizar a demissão de maneira sumária, a prefeitura resolveu rescindir o contrato que mantém com a Sustenidos para a gestão do TMSP. Em nota divulgada neste domingo (21/09), a O.S. afirma que afastou o colaborador assim que recebeu o primeiro ofício da Fundação TMSP e, seguindo orientação jurídica, abriu “um procedimento no Comitê de Ética e Conduta da Sustenidos para apurar o caso em toda sua complexidade, de forma a possibilitar a análise de riscos, garantir o devido processo, o contraditório e a ampla defesa”.
Tudo indica que as atitudes tomadas pela Sustenidos são corretas. A própria nota divulgada no domingo tem um teor bastante equilibrado, ao contrário do desequilíbrio afoito da politicalha. A Sustenidos, no entanto, costuma ser extremamente lenta para responder os órgãos de imprensa quando o assunto não é do seu interesse, e demorou mais de uma semana desde o início do imbróglio para emitir uma posição oficial. Tal lentidão para se posicionar praticamente deixou o caminho aberto para que os direitistas mais exacerbados falassem o que quisessem, e só eles estavam falando…
Eu gostaria, por fim, de chamar a atenção do leitor para uma passagem da nota divulgada pela Sustenidos neste domingo: “(…) a proposta de interrupção do contrato de gestão do Theatro Municipal de São Paulo, a menos de um ano de seu término, não condiz com os expressivos resultados apresentados pela Sustenidos e tampouco se justifica do ponto de vista da economicidade dos recursos públicos”.
Nesse trecho, a organização social parece já “jogar a toalha” sobre a chance de renovação do seu contrato para a gestão do TMSP, que oficialmente se encerra em maio de 2026. Mesmo se a prefeitura voltar atrás na decisão de rescindir imediatamente o contrato vigente, para haver renovação seria necessário o desejo de ambas as partes, e já está mais do que evidente que, do lado da prefeitura, não existirá essa boa vontade.
De maneira geral, a gestão da Sustenidos no TMSP pode ser classificada como positiva, mas o Municipal é, eminentemente, um teatro de ópera, e, especificamente no que diz respeito à gestão artística das temporadas de ópera da casa nos últimos anos, há uma quantidade de falhas consideráveis: temporadas mal pensadas, elencos mal escalados, a insistência tanto com um regente titular que não tem intimidade com o gênero, quanto com encenadores convidados que não têm a expertise para dirigir este tipo de espetáculo (que é muito característico), e, principalmente, o fato de que, em momento algum, a O.S. procurou se cercar de profissionais que fossem exímios conhecedores de ópera.
Como as óperas são o carro chefe da programação artística da casa, aquilo que mais lhe traz visibilidade, a impressão final do seu legado pode não ser tão positiva quanto, talvez, a Sustenidos merecesse.
Fotos: Rafael Salvador (na foto principal, Latonia Moore e Luiz-Ottavio Faria). Observação: o TMSP não disponibilizou fotos de todos os solistas.

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.





