Montagem de “Falstaff”, de Giuseppe Verdi, triunfa no Theatro São Pedro com regularidade vocal e encenação qualificada.
Falstaff (1893)
Ópera em três atos
Música: Giuseppe Verdi (1813-1901)
Libreto: Arrigo Boito (1842-1918)
Bases do libreto: The Merry Wives of Windsor (c. 1597), e Henry IV (c. 1596-1599), respectivamente comédia e drama histórico de William Shakespeare (1564-1616)
Theatro São Pedro-SP
15 de agosto de 2025
Direção musical: Ira Levin
Concepção, direção cênica e iluminação: Caetano Vilela
Cenografia: Duda Arruk
Figurinos: Thais Losso
Visagismo: Malonna
Produção de arte visual: Luis Bueno
Elenco:
Sir John Falstaff: Rodrigo Esteves, barítono
Ford: Igor Vieira, barítono
Mrs. Alice Ford: Gabriella Pace, soprano
Nanetta: Maria Carla Pino Cury, soprano
Mrs. Meg Page: Juliana Taino, mezzosoprano
Mrs. Quickly: Ana Lucia Benedetti, mezzosoprano
Fenton: Santiago Martinez, tenor
Dr. Cajus: Vitorio Scarpi, tenor
Bardolfo: Geilson Santos, tenor
Pistola: Fellipe Oliveira, baixo-barítono
Taberneira: Lyv Ziese, atriz
Coro com 20 integrantes (preparação: Bruno Costa)
Orquestra do Theatro São Pedro
Estreou nesta sexta-feira, 15 de agosto, no Theatro São Pedro, em São Paulo, a segunda e última ópera da temporada lírica profissional da casa neste ano: Falstaff, obra-prima em três atos e seis quadros de Giuseppe Verdi sobre libreto de Arrigo Boito, com base na comédia As Alegres Comadres de Windsor e nas duas partes do drama histórico Henrique IV, de William Shakespeare.
A última obra escrita para o palco pelo gênio máximo da ópera italiana tem características especiais. Verdi, no ápice da maturidade artística, aos 79 anos, completamente senhor da sua arte, acertava as contas com um trauma do passado. Antes de Falstaff, o compositor havia escrito apenas uma ópera cômica, Un Giorno di Regno, fracasso de público e de crítica na mesma época em que ele, ainda muito jovem, enterrou seus dois filhos e sua primeira esposa: uma fase delicada, na qual Verdi considerou até mesmo a possibilidade de abandonar o teatro lírico.
Depois do estrondoso sucesso de Otello, que estreara mais de 15 anos depois da sua ópera anterior (Aida), o compositor foi outra vez convencido por Arrigo Boito a embarcar em um novo projeto: uma comédia baseada em Shakespeare, dramaturgo por cuja obra Verdi era apaixonado. Era a sua chance de acertar aquela velha dívida consigo mesmo.
Falstaff não é uma ópera-bufa com as de Rossini ou Donizetti, mas uma comédia lírica. Assim, do ponto de vista estrutural, a obra fica distante das comédias mais antigas e até mesmo das óperas anteriores do compositor, pois a sua linha musical é contínua, sem a divisão em números estanques típica da ópera italiana.
A música de Verdi atinge um nível tão superlativo que, para muitos analistas, embora não figure entre as suas obras mais populares, Falstaff é a sua melhor e mais bem-acabada ópera. Há passagens brilhantes para as vozes, mas é preciso observar, especialmente, a sua maravilhosa escrita orquestral, com alternâncias de ritmo, ricas harmonias e um colorido deslumbrante. Resgatando com ironia fina uma forma musical antiga, o compositor conclui a obra – e a sua carreira no teatro – com uma fuga magistral, coisa que somente um gênio como Verdi poderia conceber.
Quanto ao tema, o humor é bastante refinado, e a trama se concentra nas tramoias de um cavaleiro inglês idoso, pançudo, astuto e falido (John Falstaff) que pretende seduzir ao mesmo tempo duas mulheres (Alice Ford e Meg Page) casadas com homens ricos. Circundam a trama principal as peripécias dos jovens amantes Nannetta e Fenton e o ciúme doentio de Ford. No final, realiza-se a vingança das comadres (que se mostram mais astutas que os homens) tanto em relação a Falstaff quanto a Ford, que queria casar a filha não com o seu amado, mas com um homem mais velho. E a conclusão da ópera louva a maior e a mais genuína de todas as galhofas: este mundo em que vivemos (Tutto nel mondo è burla).
Por fim, vale dizer também que Falstaff certamente é a ópera mais “teatral” de Verdi: por mais que possamos ouvi-la tranquilamente em casa, apenas em áudio e sem imagens, como todas as demais obras do compositor, é somente quando a experimentamos ao vivo, no palco, que conseguimos ter uma noção completa da sua grandeza enquanto obra de arte.
Encenação debochada na medida

Em sua criação para o Theatro São Pedro, o encenador Caetano Vilela concebe uma montagem atemporal, despojada e debochada na medida exata. Nas primeiras partes de cada ato, vê-se uma taberna cujo interior remete a tempos antigos, com um letreiro (“Bayreuth-Funda”) que, ao mesmo tempo, brinca com o bairro onde o teatro está situado (Barra Funda) e a sua ligação com a ópera, e também parece zombar de algumas “análises” da época da estreia de Falstaff (1893), que apontavam um tanto equivocadamente que Verdi teria se rendido às ideias wagnerianas (vide texto de João Marcos Coelho no programa de sala). E, nesse sentido, a taberneira caracterizada como uma valquíria (interpretada pela atriz Lyv Ziese) é o requinte do deboche – no melhor dos sentidos.
Já nas cenas na casa dos Ford, que poderia estar situada em qualquer época, vê-se o desmonte dessa casa para uma mudança, indicando ironicamente que a família “abastada” imaginada pelo protagonista pode já não ser tão rica assim.

Para ambientar tudo isso, são essenciais os ótimos cenários de Duda Arruk, com a taberna impecável e a casa de Ford funcional, ao passo que o cenário final no parque de Windsor se torna inteligentemente moderno e eficaz quando enriquecido pela iluminação (ver parágrafo abaixo). Reforçando a atemporalidade proposta pelo encenador, o cenário da taberna traz em suas laterais o grafismo do artista visual Luis Bueno (cuja série Pelé Beijoqueiro marca a arte de rua paulistana), por meio dos desenhos de Pelé beijando Verdi de um lado, e Shakespeare do outro.
Os ótimos figurinos de Thais Losso (exceto por aquele de Fenton, pouco inspirado) e o visagismo de Malonna contribuem bastante para o sucesso do espetáculo, que não seria o mesmo sem a iluminação do próprio Caetano Vilela: muito eficiente nos dois primeiros atos e na primeira parte do terceiro ato, e em seguida deslumbrante e essencial para a composição cenográfica do já citado quadro final no parque.
Vilela constrói também junto ao elenco uma movimentação cênica ágil, essencial para o desenvolvimento da encenação, com praticamente todos os solistas apresentando ótimas performances cênicas. O único senão que merece apontamento é o fato de Falstaff ser jogado do cesto de roupas sujas fora do palco, o que diminui o impacto dramático da cena que encerra o segundo ato. Nada, porém, que prejudique a organicidade geral da encenação.
Equilíbrio musical

Na estreia do dia 15, o Coro de 20 integrantes, preparado por Bruno Costa, apresentou-se bem. Os criados de Falstaff, Bardolfo e Pistola, foram interpretados respectivamente pelo tenor Geilson Santos e pelo baixo-barítono Fellipe Oliveira com ótimas presenças e vozes seguras. O tenor Vitorio Scarpi – que, se não estou enganado, ouvi pela primeira vez – demonstrou um material vocal bem interessante na parte de pouco destaque do Dr. Cajus.
Outro tenor, o argentino Santiago Martinez apresentou uma performance cênica pouco inspirada como o jovem Fenton, mas cresceu ao longo da récita em termos vocais: começou apresentando uma voz um tanto anasalada e um timbre não tão atraente, mas que quando subia à região aguda parecia se ajustar. Seu melhor momento da noite foi exatamente na sua pequena romanza do terceiro ato, Dal labbro il canto estasiato vola, cantada com segurança e musicalidade.

Sua parceira constante em cena, a soprano Maria Carla Pino Cury (indicada revelação de 2024 por Notas Musicais) teve desempenho semelhante como Nannetta: sempre apresentando excelentes pianíssimos, a artista foi evoluindo ao longo da apresentação, até chegar ao seu grande momento, com a canção da Rainha das Fadas, Sul fil d’un soffio etesio, interpretada com precisão e doçura.
Dentre as comadres de Windsor, Mrs. Meg Page (personagem que praticamente não tem passagens de destaque) foi muito bem defendida pela mezzosoprano Juliana Taino, que ofereceu uma voz sempre precisa e com relevantes contribuições em cenas de conjunto. Também mezzosoprano, Ana Lucia Benedetti foi uma Mrs Quickly impagável, mostrando-se hilariante nas cenas ao lado do personagem-título, com a voz bem equilibrada e caprichando nas suas duas exclamações características (Reverenza! e Povera donna!).

A mais destacada das comadres, Mrs. Alice Ford, foi bem interpretada pela soprano Gabriella Pace, que apresentou uma atuação cênica convincente e uma voz bem encaixada durante praticamente toda a récita. A artista abordou a sua cena com Falstaff no segundo ato (Alfin t’ho colto, raggiante fior) com graça e desenvoltura cênica, enquanto a narração da lenda do carvalho de Herne (Quando il rintocco della mezzanotte), no ato final, foi cantada com elegância e expressividade.
O marido da personagem, Ford, foi bem defendido pelo barítono Igor Vieira. Se não chegou a ser perfeito (equivocou-se, por exemplo, ao repetir duas vezes a frase “che l’oro vince tutto” na grande cena com Falstaff na primeira parte do segundo ato, quando deveria ter cantado, na primeira vez, “che l’oro é un talismano”), Vieira foi consistente, abordando com inteligência e senso dramático o seu grande monólogo, È sogno o realtà?, além de se apresentar engraçado nos momentos que exigiam boa dose de comicidade.

Se tudo caminhou muito bem até aqui, é preciso lembrar que esta é uma ópera que depende muito da interpretação do personagem-título, Sir John Falstaff. O barítono Rodrigo Esteves exibiu uma interpretação meticulosa desse maravilhoso personagem fanfarrão, sempre atento ao texto de Arrigo Boito (mais difícil e complexo que a grande maioria dos libretos italianos), e mostrando-se, em doses exatas, ora engraçado e presunçoso, ora comicamente dramático. Vocalmente, seu Falstaff foi, ao mesmo tempo, maleável e vibrante, dotado de expressividade e de agudos poderosos. Suas já citadas cenas com Quickly, Ford e Alice resultaram em alguns dos melhores momentos da noite, da mesma forma que os seus dois grandes monólogos (L’Onore! Ladri!, do primeiro ato, e Ehi! Taverniere, que abre o terceiro ato), muito bem interpretados. Dando vida a um dos personagens mais desafiadores saídos da pena de Verdi, o artista ofereceu nesta montagem, creio, o seu melhor trabalho em solo brasileiro deste o retorno da pandemia, com um domínio de palco cativante.

À frente da Orquestra do Theatro São Pedro, o regente norte-americano Ira Levin conduziu a ópera com grande segurança. Uma amiga que estava no primeiro balcão e tinha uma visão melhor do fosso, disse-me que Levin regeu de cor esse maravilhoso emaranhado verdiano. Se nem sempre a orquestra esteve perfeita (houve algumas passagens em que a afinação oscilou), e se em alguns momentos o regente optou por andamentos um tanto acelerados, pode-se dizer que a orquestra de Verdi estava ali, especialmente em termos de ritmo e dinâmica. E todo o trecho final da ópera foi interpretado com muita eficiência, inclusive com uma abordagem muito bem controlada da difícil fuga conclusiva (Tutto nel mondo è burla): um momento em que se alcançou um excelente equilíbrio.
Não resta dúvida, portanto, que a produção de Falstaff pelo Theatro São Pedro configura-se como um dos melhores espetáculos líricos do ano até aqui não apenas em São Paulo, mas em todo o país. Com récitas até o próximo domingo, dia 24 de agosto, é uma oportunidade imperdível de conferir uma ópera bem cantada, bem encenada e bem regida – conjunto de fatores cada vez mais raro por essas terras.

Fotos: Íris Zanetti (na foto principal, Fellipe Oliveira, Geilson Santos e Rodrigo Esteves).
Nota do editor: fotos atualizadas em 19/08, às 13:30h.

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.






Excelente texto! Parabéns ao Theatro São Pedro pela iniciativa e a todos os envolvidos na apresentação.
Fui à apresentação. Gostei muito, a avaliação expressa o que senti. Diria apenas que a mudança é sujeita a várias interpretações. Para mim, foi um sinal do descaso das comadres com os avanços de Falstaff. Tinham outras coisas com que se ocupar, ele era uma mera distração.