Encenação de “O Amor das Três Laranjas” mantém a fluência em remontagem no TMSP

Tenor é o principal destaque da produção, que tem vozes equilibradas e derrapadas da orquestra.

L’Amour des Trois Oranges (O Amor das Três Laranjas, 1921) *
Ópera em prólogo e quatro atos
* Remontagem da produção de 2022

Música e libreto em russo: Sergei Prokofiev (1891-1953)
Libreto em francês: Vera Janacópulos (1886 ou 1892**-1955) e Aleksei Stahl
** O ano de nascimento é impreciso

Theatro Municipal de São Paulo

27 de fevereiro de 2026

Direção musical: Roberto Minczuk
Concepção: Luiz Carlos Vasconcelos
Direção cênica: Ronaldo Zero
Cenários e Figurinos: Simone Mina e Carolina Bertier
Iluminação: Wagner Pinto e Carina Tavares
Caracterização: Westerley Dornellas

Elenco:
Rei de Paus: Valeriano Lanchas, baixo
Príncipe: Giovanni Tristacci, tenor
Princesa Clarice: Lidia Schäffer, mezzosoprano
Leandre: Johnny França, barítono
Truffaldino: Mikael Coutinho, tenor
Pantalon: Santiago Villalba, barítono
Mago Tchélio: Fellipe Oliveira, baixo-barítono
Fada Morgana: Gabriella Pace, soprano
Ninette: Raquel Paulin, soprano
Linette: Nathalia Serrano, contralto
Nicolette: Keila de Moares, mezzosoprano
Cozinheira: Gustavo Lassen, baixo
Farfarello: Daniel Lee, barítono
Sméraldine: Sarah Migliori, mezzosoprano
Mestre de Cerimônias: Vitorio Scarpi, tenor
Arauto: Orlando Marcos, baixo

Orquestra Sinfônica Municipal
Coro Lírico Municipal (Hernán Sánchez Arteaga)

Quem frequenta assiduamente as óperas do Theatro Municipal de São Paulo sabe bem: encenações ali, via de regra, têm sido motivos para polêmicas. Talvez por isso, a casa tenha escolhido abrir a sua temporada lírica de 2026 com a remontagem de uma encenação que, na época da produção original, foi uma unanimidade: O Amor das Três Laranjas (em russo, Lyubov k Tryom Apelsinam, ou em francês, L’Amour des Trois Oranges), ópera de Sergei Prokofiev sobre libreto em russo do próprio compositor (traduzido para o francês por Aleksei Stahl e pela soprano brasileira Vera Janacópulos). O leitor interessado encontra maiores informações sobre a ópera – e as obras e autores nos quais ela foi baseada – neste excelente artigo de Fabiana Crepaldi.

No palco do TMSP, a remontagem de Ronaldo Zero para a produção concebida em 2022 por Luiz Carlos Vasconcelos mantém a ótima fluência da versão original. As cenas evoluem de maneira natural, ressaltando o drama principal (aquele do Príncipe hipocondríaco que, depois de se curar, apaixona-se por três laranjas devido a um feitiço da Fada Morgana), bem como as ironias presentes na metalinguagem cênica, com a presença do coro dividido em pequenos grupos que defendem ou a tragédia, ou a comédia, ou os dramas líricos e românticos, ou o puro e simples besteirol sem maior relevância.

Tudo funciona bem e, assim, nada há a acrescentar às observações presentes na resenha que Notas Musicais publicou em 2022 (relembre-a aqui) sobre os ótimos figurinos e cenários (estes, bastantes funcionais) de Simone Mina e Carolina Bertier (indicadas naquele ano, a propósito, como melhores cenógrafas e figurinistas em nosso balanço da temporada). Da mesma forma, a iluminação de Wagner Pinto e Carina Tavares continua valorizando os contrastes, enquanto a caracterização de Westerley Dornellas permanece impecável.

Santiago Villalba (Pantalon, à esquerda), Gabriella Pace (Fada Morgana, caída), Mikael Coutinho (Truffaldino, à direta) e parte do Coro Lírico Municipal

Diante de alguns absurdos vistos no palco do TMSP em 2025, pelo menos duas comparações se fazem inevitáveis:

A primeira é quanto à utilização da estética circense em uma produção de ópera. Se, no Don Giovanni de maio passado, tal expediente foi utilizado de forma demasiadamente forçada (com o agravante de várias decisões dramatúrgicas incompreensíveis, que tornaram a obra arrastada); em O Amor das Três Laranjas, tal estética se casa com o drama de maneira muito estreita, coesa.

A segunda é a utilização de um vídeo mostrando personagens nos bastidores do teatro. Se, no Macbeth de outubro/novembro passado, os dois vídeos apresentados representavam uma “quebra” abrupta da narrativa dramática, a tal ponto de parecerem buscar mesmo a idiotização do público; na presente remontagem da ópera de Prokofiev, o vídeo que mostra os vilões fugindo pelos bastidores do teatro não atrapalha a ação em absolutamente nada. Sem ofender a fluência cênica, o vídeo até reforça o caráter cômico da fuga.

Em outras palavras, esses dois exemplos deixam muito clara a diferença entre utilizar determinados recursos com função dramática bem definida, ou então gratuitamente, com o único intuito de satisfazer os “fetiches dramatúrgicos” de um(a) encenador(a) de ocasião.


Na récita de reestreia, em 27 de fevereiro, o Coro Lírico Municipal, preparado por Hernán Sánchez Arteaga, voltou a apresentar nesta obra uma ótima performance cênica. Já sob o aspecto vocal, o conjunto começou a récita bem embolado, e, aos poucos, foi melhorando ao longo da noite. Performance semelhante teve a Orquestra Sinfônica Municipal, que, sob a regência do onipresente Roberto Minczuk, começou bem perdida, desencontrada, e com um som “sujo”. O conjunto foi se ajustando, e, depois do intervalo, já estava bem melhor.

Se não tivemos nenhuma grande performance vocal, pode-se dizer que, de modo geral, houve um bom equilíbrio em um elenco de 16 solistas. Acima da média, esteve Giovanni Tristacci, que voltou a interpretar o personagem (Príncipe hipocondríaco) que já havia cantado em 2022 e que, naquela ocasião, valeu-lhe a indicação de Notas Musicais como o melhor cantor do ano. Com ótima voz, o tenor mais uma vez se destacou, com um canto seguro e muito bem projetado. Sua atuação cênica, especialmente, foi excelente, ao retratar à perfeição a evolução psicológica do Príncipe: de um jovem doente e mimado a um homem apaixonado que veste a carapuça do herói para enfrentar perigos até encontrar e resgatar a sua princesa, sempre com um preciso tempo de comédia quando necessário.

Mikael Coutinho (Truffaldino) e Gustavo Lassen (Creonta, a cozinheira)

Os demais solistas que repetiram os papéis que já haviam cantado na montagem original foram: a soprano Gabriella Pace (ótima em cena como a vilã Fada Morgana e com canto seguro durante a maior parte da récita); o baixo Gustavo Lassen, que voltou a interpretar a enorme Cozinheira de Creonta, com grande presença e ótima voz; a mezzosoprano Lidia Schäffer, muito bem cenicamente como a vilã Princesa Clarice, e com voz razoável; o barítono Daniel Lee, bem como o demônio Farfarello; a contralto Nathalia Serrano, muito pouco expressiva como a princesa Linette; e o baixo Orlando Marcos na pequena parte do Arauto.

Outros dois cantores que também haviam se apresentado em 2022 agora “subiram” de personagem: o tenor Mikael Coutinho e o barítono Johnny França. Coutinho deixou a pequena parte do Mestre de Cerimônias para assumir um dos personagens principais, Truffaldino. Se cantou com segurança, sua atuação cênica ficou devendo, ao apresentar um tom caricato bastante forçado, pouco natural. Já França trocou as vestes do conselheiro Pantalon pelas do vilão Léandre (o primeiro-ministro que conspira contra o Rei e o Príncipe), e soube aproveitar a “promoção”. O artista apresentou uma ótima performance cênica e uma voz bem calibrada.

Dentre os novos solistas, que somente agora chegaram à produção da ópera de Prokofiev, aquele que interpretou um personagem de maior destaque foi o baixo colombiano Valeriano Lanchas (Rei de Paus). Cenicamente, o artista foi um monarca perfeito, mas oscilou sob o aspecto vocal, com algumas passagens em que a sua voz soou perfeita, e outras que não restaram bem resolvidas.

O baixo-barítono Fellipe Oliveira foi um bom Mago Tchélio, enquanto o barítono Santiago Villalba deu vida a Pantalon com boa presença e boa voz – apesar de um canto por vezes desencontrado. A soprano Raquel Paulin interpretou a princesa Ninette com desenvoltura cênica, da mesma forma que a mezzosoprano Sarah Migliori interpretou Sméraldine, serva da Fada Morgana. Completaram o elenco a mezzosoprano Keila de Moraes, que ofereceu bons graves como a princesa Nicolette, e o tenor Vitorio Scarpi, na pequena parte do Mestre de Cerimônias.

Quase três anos e meio depois da montagem original, esta produção de O Amor das Três Laranjas continua divertindo e encantando. Com bem mais qualidades que defeitos, merece bastante a atenção do público.

Sarah Migliori (Sméraldine), Johnny França (Léandre) e Lidia Schäffer (Princesa Clarice)

Fotos: Rafael Salvador (na foto principal, a soprano Raquel Paulin e o tenor Giovanni Tristacci).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *