Autor conferiu no Velho Continente montagens de “Simon Boccanegra” e “Un Ballo in Maschera”, além de recital do tenor peruano.
Em janeiro, durante algumas semanas de férias na Europa, consegui encaixar na agenda três espetáculos líricos: duas produções completas de óperas (Simon Boccanegra e Un Ballo in Maschera, ambas de Giuseppe Verdi, respectivamente no Teatro La Fenice e na Opéra de Paris) e, entre uma e outra, o recital que o tenor peruano Juan Diego Flórez deu no Teatro alla Scala. Abaixo, conto mais sobre cada uma dessas experiências.
Simon Boccanegra e Luca Salsi no Teatro La Fenice

Até este mês de janeiro, eu tinha tido a chance de ver Simon Boccanegra ao vivo em um teatro somente uma vez na vida: foi há 25 anos, nos idos de 2001, em memorável produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com regência de Luiz Fernando Malheiro. O mesmo Malheiro programou o título para a edição de 2024 do Festival Amazonas de Ópera, mas, como se sabe, o evento foi cancelado naquele ano, e, tanto em 2025 quanto (dizem) em 2026, ninguém mais lembrou dele.
O leitor deve imaginar, portanto, a minha animação quando consegui encontrar brecha na agenda turística para conferir exatamente a récita de estreia (em 23/01) da nova produção desta belíssima obra de Verdi no Teatro La Fenice, de Veneza. Foi no mesmo La Fenice, a propósito, que a ópera estreou mundialmente em 12 de março de 1857. Com libreto de Francesco Maria Piave baseado em um drama do espanhol Antonio García Gutiérrez (autor que já havia inspirado Verdi, mais de uma década antes, a compor Il Trovatore), as primeiras apresentações passaram longe de qualquer êxito.
Somente em 1881 a obra alcançou o sucesso e entrou de vez para o repertório, em uma versão revisada pelo próprio compositor (que mexeu bastante na partitura) e por Arrigo Boito (que rearranjou o libreto de Piave). Tal versão – que, aliás, foi a primeiríssima colaboração entre Verdi e Boito – estreou no Teatro alla Scala, de Milão, em 24 de março de 1881, portanto 24 anos depois da versão original. E, claro, foi esse Boccanegra definitivo o que pude ver agora em Veneza. O leitor interessado encontra o resumo da trama da ópera neste link.
A encenação de Luca Micheletti (que também é barítono e vem cantando em importantes teatros europeus) mostrou-se extremamente eficiente, seja na construção das cenas e nas interações entre os personagens, seja ao vasculhar a mente do protagonista e encontrar o seu principal fantasma: a lembrança de uma criança – sua filha perdida, Maria, que cresceu com o nome de Amélia e que Boccanegra somente voltaria a encontrar 25 anos depois.
Pareceu-me que, exatamente por também ser um cantor, Micheletti demonstrou compreender que não existia nada no palco do La Fenice mais importante que eles, os cantores. Assim, as cenas da ópera se apresentaram sempre justas, dramaticamente precisas, jamais excessivas ou com pontas soltas.
O cenário funcional de Leila Fteita foi, de modo geral, bem satisfatório, ainda que se pudesse discuti-lo sob o aspecto estético. Ilustrações do mar cobriram as paredes em alguns momentos. A bela iluminação de Giuseppe di Iorio e os ótimos figurinos de Anna Biagiotti contribuíram bastante para o resultado final da encenação.
Dentre os cinco personagens principais da ópera, todos interpretados por cantores italianos, a única decepção vocal foi a soprano Francesca Dotto, que deu vida a Amélia/Maria com boa presença, mas com afinação vacilante. O barítono Simone Alberghini foi um Paolo Albiani seguro durante toda a récita. Também bastante seguro (bem mais que da última vez que o ouvi ao vivo) foi o Gabriele Adorno do tenor Francesco Meli, com destaque para a sua ária do segundo ato, Sento avvampar nell’anima.
Já o baixo Alex Esposito interpretou Jacopo Fiesco à perfeição. Com excelente presença, o artista soube expressar os diversos sentimentos que o personagem experimenta ao longo da trama: raiva, ódio, tristeza e certa amargura, sem jamais perder a hombridade inerente a um homem duro, mas dotado de dignidade e caráter. Já no prólogo, sua ária Il lacerato spirito e o dueto com o personagem-título (Simon? – Tu!) apresentaram um cantor de alto calibre.
Simon Boccanegra, por sua vez, é um protagonista sem ária. O personagem-título participa, ao longo da ópera, de diversos números de conjunto (três duetos, um terceto e um quarteto, além da grande cena no Senado que encerra o primeiro ato), mas não possui nenhuma passagem musical somente para ele. Até por isso, é bastante desejável que o seu intérprete seja não apenas um excelente cantor, mas um exímio ator, capaz de concentrar a atenção do público.
No La Fenice, este intérprete foi ninguém menos que o maravilhoso barítono Luca Salsi. Um dos grandes cantores da sua geração, Salsi cantou a parte de Boccanegra com uma voz que correu poderosa na excelente acústica do La Fenice. Para além do volume e da projeção impressionantes, da afinação precisa e de uma “pasta” baritonal generosa, o artista ainda ofereceu uma performance cênica hipnotizante, abordando com sensibilidade as diversas facetas de Simone: desde o apaixonado homem do mar que acaba por descobrir a morte da sua amada e, depois, se torna o temido Doge de Gênova, até o pai que se enche de amor ao reencontrar a filha perdida, a ponto de dar a sua bênção para que ela se case com um dos seus adversários políticos (Gabriele Adorno). A presença marcante de Salsi, o seu domínio de palco, seus gestos – por vezes, apenas um movimento do corpo em consonância com a música que vinha do fosso –, tudo contribuiu para uma atuação de gala, uma das melhores de um cantor lírico que já pude presenciar ao vivo.

O Coro do Teatro La Fenice, preparado por Alfonso Caiani, apresentou-se totalmente coeso, com uma abordagem musical precisa e estilisticamente apreciável, enquanto a Orquestra do La Fenice, conduzida por Renato Palumbo, ofereceu uma récita impecável, com sonoridade de encher os ouvidos. Sobretudo para quem, aqui nestes trópicos, está acostumado a assistir a óperas mal regidas em sua maioria, apreciar esse Verdi tão bem moldado por Palumbo foi um verdadeiro bálsamo auditivo. O regente serviu o drama com generosidade, com dinâmica primorosa, trabalhando muito bem os contrastes e alcançando um belíssimo equilíbrio. Não à toa, um dos grandes momentos de toda a récita foi a grande cena de conjunto que encerra o primeiro ato.
Encerrada a apresentação, caíram na plateia centenas de panfletos com uma clave de sol e os versos de John Keats em italiano: “La bellezza è verità, la verità è bellezza. / Questo è tutto ciò che al mondo sapete, / e tutto ciò che vi occorre sapere”. Pareceu-me não ter nada a ver com a montagem do Boccanegra, mas sim com a celeuma que faz ferver os bastidores da casa veneziana: a nomeação da regente Beatrice Venezi – próxima da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni – como a nova diretora musical do La Fenice.
Juan Diego Flórez e seus nove Dós em recital no La Scala

Dois dias depois do Boccanegra, eu já estava em Milão (em 25/01) para conferir o recital do tenor peruano Juan Diego Flórez, acompanhado pelo pianista Vincenzo Scalera, no Teatro alla Scala. Com a casa completamente lotada, com direito à bandeira do Peru em um dos camarotes e na presença do presidente da Itália, Sergio Mattarella, Flórez ofereceu um programa que começava por canções de câmara de compositores italianos, passava por trechos de zarzuelas e de óperas francesas, até chegar a uma ária de Verdi. Depois disso, ainda veio um longo bis, com nada menos que sete peças – praticamente uma terceira parte do recital, da qual, claro, ninguém reclamou.
A primeira parte foi mais introspectiva, com Flórez apresentando canções italianas de câmara, aparentemente pouco conhecidas pelos próprios italianos. Assim, começamos ouvindo, de Gioachino Rossini, Le sylvain, do terceiro volume (Morceaux réservés) dos seus Péchés de vieilesse (Pecados da velhice), interpretada com elegância e refinamento.
Seguiram-se quatro canções de Vincenzo Bellini: Malinconia, ninfa gentile; Vanne, o rosa fortunata (com versos de Pietro Metastasio); La ricordanza; e Almen se non poss’io (esta em versão apenas para o piano). Aqui, o tenor abordou as peças com expressividade, apresentando um canto sentido e colorindo as frases musicais com inteligência e sensibilidade. Em seguida, Ah, rammenta, o bella Irene, de Gaetano Donizetti (outra canção com versos de Metastasio) seguiu na mesma direção.
A última peça da primeira parte foi também o seu momento mais vibrante: ao contrário das obras anteriores, que falavam de amores perdidos ou distantes, a cavatina Viens, gentille dame, da opéra-comique La Dame Blanche, de François-Adrien Boieldieu (sobre libreto de Eugène Scribe, com base em obras de Walter Scott), possui um aspecto bem mais empolgante, mostrando um personagem que, confiante, espera pelo desconhecido (a ópera de Boieldieu resvala no sobrenatural). Aqui, Juan Diego Flórez passeou com naturalidade, exibindo um fraseado rico e apaixonado, além de um amplo controle do legato.

Na volta do intervalo, as primeiras peças foram árias de zarzuelas do comecinho do século XX que o tenor gravou recentemente, começando com Bella enamorada, de El Último Romántico, de Reveriano Soutullo e Juan Vert; passando por Jota de Perico, de El Guitarrico, de Agustín Pérez Soriano; e chegando a Aqui está quien lo tiene tó y no tiene ná, de La Alegría del Batallón, de José Serrano. Cantando em seu idioma natal, Flórez exibiu com ainda mais clareza a sua técnica primorosa, abordando as passagens citadas com dicção precisa e com flexibilidade rítmica, além, é claro, da sua preciosa agilidade vocal. Na última citada, uma peça bem-humorada, o artista praticamente interpretou o personagem, agradando bastante a plateia.
Vincenzo Scalera, que acompanhou o tenor com segurança durante toda a noite, interpretou Mazurka glissando, de Ernesto Lecuona, com elegância; e, pouco depois, uma transcrição para piano de Berceuse, a canção de ninar da ópera Jocelyn, de Benjamin Godard, abordada com um lirismo encantador.
Juan Diego voltou à ópera francesa para interpretar duas árias: Ah, tout est bien fini… Ô souverain, ô juge, ô père, de Le Cid, de Jules Massenet; e pouco depois Quel trouble inconnu me pénètre… Salut! Demeure chaste et pure, do Faust, de Charles Gounod. A primeira foi abordada com estudada delicadeza, enquanto na segunda, bastante aplaudida pelo público, o tenor soube explorar toda a riqueza melódica da música de Gounod, com voz potente, rica.
O programa oficial foi concluído com Verdi: La mia letizia infondere… Come poteva un angelo, ária e cabaleta de I Lombardi alla Prima Crociata. Na ária, a voz de Flórez correu muito bem, mas na cabaleta não soou tão à vontade, chegando a ser brevemente encoberta pelo piano. Um pequeno senão em um recital de canto de alto nível.
Então… neste ponto pareceu que vinham dois ou três bis e fim de papo, certo? Errado! O bis, como já adiantado, acabou se tornando uma espécie de terceira parte do recital. Para animar a plateia, Juan Diego começou com uma belíssima e impecável interpretação de uma ária italianíssima: Una furtiva lagrima, de L’Elisir d’Amore, de Donizetti.

O tenor saiu do palco novamente, uma funcionária da técnica do La Scala trouxe uma cadeira que posicionou à frente do piano e, a seguir, Flórez retornou empunhando um violão, prática que ele cultiva em seus recitais. Emendou quatro canções seguidas, acompanhando-se: a napolitana I’ te vurria vasà, de Eduardo Di Capua e Vincenzo Russo; a cubana Malagueña, de Ernesto Lecuona; e as mexicanas Bésame mucho, de Consuelo Velázquez, e Cucurrucucú paloma, de Tomás Méndez.
Destas, a primeira e a última foram os principais destaques: a napolitana pela interpretação delicada; e a última pela exibição técnica, que incluiu, mais de uma vez, um filato perfeito e que parecia interminável, acompanhado de caras e bocas propositais para divertir o público, que aplaudiu insessantemente. Se estivesse presente no La Scala, o narrador esportivo Everaldo Marques, que não é meu parente, certamente soltaria o seu famoso bordão: “Juan Diego Flórez, você é ridículo!” (nas narrações de Everaldo, essa frase indica um grande elogio).
Tinha acabado? Claro que não! Novamente acompanhado pelo piano de Vincenzo Scalera, Flórez atacou Amapola, canção do espanhol José María Lacalle, e, para fechar com chave de ouro e extasiar o público, a chamada “ária dos nove Dós” – na verdade, a cabaleta Pour mon âme, da ópera La Fille du Régiment, de Donizetti. Flórez foi direto à cabaleta, sem passar pela ária que a precede (Ah! Mes amis). Depois de emitir os primeiros oito Dós (curtos, em staccato), e antes de atacar o último (longo, sustentado), ele fez uma pausa proposital, mais uma vez brincando com o público ao simular grande cansaço depois de cantar tanto ao longo da noite. Por fim, soltou o tão aguardado último Dó, e recebeu em troca uma ovação de pé do público do La Scala.
Ao contrário do que acontece no Brasil, onde o público de ópera aplaude de pé qualquer coisa (desde algo maravilhoso até algo muito ruim), na Europa essa é uma prática muito mais rara e, quando acontece, é um sinal de um reconhecimento ímpar, de uma grande distinção, como bem a merece um dos grandes tenores do nosso tempo.
Foi uma noite especialíssima essa no La Scala, e que, quem sabe, pode se repetir em São Paulo em setembro próximo, quando Juan Diego Flórez dará recital, novamente acompanhado por Vincenzo Scalera, pela temporada da Cultura Artística. Fica a dica.
Un Ballo in Maschera e Anna Netrebko na Opéra de Paris

Mais dois dias e, já em Paris, vi na Opéra Bastille (27/01) a estreia da remontagem da encenação do belga Gilbert Deflo para Un Ballo in Maschera, de Verdi. E aqui, infelizmente, veio o que se tornou de certa forma a decepção lírica da viagem. Não foi um espetáculo ruim, longe disso, mas, diante das duas excelentes – e “quentes” – experiências anteriores, acabou sendo uma ocasião um tanto “fria”.
No palco, a soprano russa Anna Netrebko apresentava a sua ótima Amelia (muito bem tanto em Ma dall’arido stelo divulsa quanto em Morrò, ma prima in grazia), o tenor norte-americano Matthew Polenzani também dava muito boa conta da parte de Riccardo, e o barítono canadense Étienne Dupuis era um Renato seguro (com ótimo rendimento em Eri tu). A mezzosoprano norte-americana Elizabeth DeShong interpretava Ulrica com grande correção e bons graves, enquanto a soprano espanhola Sara Blanch, apesar da voz adequada à parte de Oscar, enfrentava em algumas passagens dificuldades com a projeção.
No fosso, a regente italiana Speranza Scappucci conduzia muito bem a Orquestra e o Coro (preparação de Alessandro di Stefano) da Opéra nacional de Paris, alcançando um ótimo resultado em termos de sonoridade e dinâmica. O Verdi de Scappucci era idiomático, dramaticamente muito bem delineado, pensado para o palco.

Se a música puxava a ópera para cima, a encenação de Deflo a puxava para baixo. Havia algo de muito artificial em algumas cenas (uma entrada de Amelia, por exemplo, jogando-se ao chão de maneira muito pouco convincente, saltou aos olhos). William Orlandi foi o responsável tanto pelos bons figurinos quanto pelos cenários, que contribuíram bastante para a sensação de frieza e distanciamento.
E é possível, também, que a acústica da Bastille, que fica alguns bons passos atrás daquelas do La Fenice e do La Sacala e que “experimentei” tão pouco tempo depois destas últimas, tenha “contribuído” para um espetáculo que não chegou a me encantar no seu todo, apesar das suas boas qualidades individuais.
Merece nota, por fim, o fato de Netrebko ter entrado por último para receber os aplausos no fim da récita, quando é evidente que o protagonista principal da ópera é o tenor. Por mais que ela seja uma grande artista, acabou parecendo certa deselegância da casa com Polenzani.
Feitas as contas, o saldo final dessas três experiências europeias foi bastante positivo, especialmente pela alta qualidade vocal da maioria dos cantores, bem como pela oportunidade de apreciar, em dois momentos, a música de Verdi ser muito bem regida.
Foto principal: redes sociais do Teatro La Fenice (à frente, em destaque, da esquerda para a direita, Luca Salsi, Francesca Dotto e Francesco Meli).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.





