No Teatro di San Carlo, duas récitas muito distintas de Un Ballo in Maschera, de Verdi. No primeiro cast, destacaram-se Anna Netrebko, debutando como Amelia, e o imenso Ludovic Tézier.
| Un Ballo in Maschera (1859) Ópera em três atos |
| Música: Giuseppe Verdi (1813-1901) Libreto: Antonio Somma (1809-1864) |
| Teatro di San Carlo (Nápoles), 10 e 11 de outubro de 2025 |
| Direção musical: Pinchas Steinberg Direção cênica e iluminação: Massimo Pizzi Gasparon Contarini |
| Cenografia e figurinos: Pierluigi Samaritani e Massimo Pizzi Gasparon Contarini Coreografia: Gino Potente |
| Riccardo: Piero Pretti (11) e Vincenzo Costanzo (10), tenores Renato: Ludovic Tézier (11) e Ernesto Petti (10), barítonos Amelia: Anna Netrebko (11) e Oksana Dyka (10), sopranos Ulrica: Elizabeth DeShong, mezzosoprano Oscar: Cassandre Berthon, soprano Silvano: Maurizio Bove, baixo Samuel: Romano del Zovo, baixo Tom: Adriano Gramigni, baixo Um juiz / criado de Amelia: Massimo Sirigu, tenor |
| Orquestra e Coro do Teatro di San Carlo |
Nos dias 10 e 11 de outubro, tive a oportunidade de assistir a dois espetáculos completamente diferentes no Teatro di San Carlo, em Nápoles. Curiosamente, ambos traziam o mesmo título: Un Ballo in Maschera, de Giuseppe Verdi. Também a cenografia, os diretores cênico e musical, a orquestra e parte do elenco eram os mesmos. O que tornou os dois espetáculos tão diferentes foi o trio de protagonistas. No primeiro dia, um segundo elenco com um trio sob medida para atender turistas desavisados que queriam apenas conhecer o célebre e lindo teatro; no dia 11, três cantores que estão entre os melhores atualmente em atividade.
É natural que os turistas queiram conhecer o San Carlo. Além de ser um dos teatros mais bonitos do mundo, é o mais antigo teatro de ópera em funcionamento. Foi inaugurado em 1737, aproximadamente meio século antes do Teatro alla Scala, de Milão, e do La Fenice, de Veneza. É bom lembrar, apenas, que o San Carlo não foi o primeiro teatro construído para ser um teatro de ópera. Essa honra pertence ao Teatro Novissimo, inaugurado com grande furor, em 1641, em Veneza, com a ópera La Finta Pazza, de Sacrati. Endividada, no entanto, a casa ficou em atividade apenas até 1645 e, depois, foi demolida. A crise financeira, pois, não é um problema enfrentado exclusivamente pelos teatros de ópera do século XXI.
Quase um século mais novo que o Novissimo, o San Carlo, para a nossa alegria, apesar de ter sido destruído por um incêndio em 1816, foi restaurado e reinaugurado em menos de um ano, e ainda está lá, firme e forte, com uma temporada farta de títulos e de grandes nomes da lírica. Junto com o La Scala, está entre os teatros italianos que conseguem levar mais estrelas ao palco.
Embora tenha estreado no Teatro Apollo, em Roma, em 1859, Un Ballo in Maschera foi composta, tendo como título Gustavo III, para o San Carlo. O libreto, de Antonio Somma, é baseado em outro libreto: Gustave III, ou Le Bal Masqué, que Eugène Scribe escreveu, em 1833, para Auber. Acontece que a censura não aprovou o enredo, que tratava do assassinato do rei Gustavus III, da Suécia, em 1792. Verdi concordou em transformar o rei em duque e em deslocar a ação, tirando-a de Estocolmo.
Para a censura napolitana, contudo, isso não era o suficiente, e Verdi não aceitou as novas mudanças exigidas, que envolviam, inclusive, a história de amor presente na trama. Foi assim que a apresentação foi transferida para o teatro Apollo, em Roma. É verdade que a censura romana também não foi simpática a colocar no palco o assassinato de um rei, mas essa era uma alteração menor: Gustavo III tornou-se Riccardo, Conde de Warwick, governador de Boston, e a trama atravessou o oceano e, de Estocolmo, foi parar nos Estados Unidos.
A partir de manuscritos não orquestrados, existe a tentativa de se restaurar a versão com Gustavo III. É bom lembrar, porém, que é Riccardo quem está na partitura final de Verdi. Desse modo, a única versão aprovada por Verdi é aquela que estreou em Roma e na qual a ação se passa em Boston. Foi essa versão que o San Carlo levou ao palco.
A produção de Pierluigi Samaritani e Massimo Pizzi Gasparon Contarini

A produção apresentada foi a de Pierluigi Samaritani, que estreou em 1989 no Teatro Regio di Parma, com a revisão feita por Massimo Pizzi Gasparon Contarini, para o mesmo teatro, em 2011, após a morte de Samaritani. Trata-se, pois, de uma produção histórica, clássica, que passou por uma modernização que, de um modo geral, não a descaracterizou. Como descreve Contarini no programa de sala, sua mais profunda alteração no cenário — e, ao que parece, a mais feliz — foi a do segundo ato. Segundo Contarini, Samaritani havia criado um cenário demasiado vertical, com uma “infinita selva de praticáveis” simulando vários níveis de rochas, o que complicava não só a montagem como a movimentação em cena. Contarini criou o seu “orrido campo” inspirado no romantismo de Caspar David Friedrich: um cemitério gótico, tendo ao fundo as ruínas de uma catedral gótica — que, no ambiente esfumaçado, pareciam ruínas de um templo romano.
Há um vídeo com a cenografia original de Samaritani, porém a qualidade da imagem é bem precária. É possível constatar, no entanto, que nem todas as alterações de Contarini foram tão felizes quanto essa do segundo ato. Na primeira cena do terceiro ato, por exemplo, na sala da casa de Renato, segundo ele inspirada em Rembrandt, Contarini acrescentou, à mesa presente na cena, uma toalha rosa e vários instrumentos musicais, além do mapa e do alaúde, já presentes na versão original. Essa toalha e os objetos amontoados pareceram um tanto fora de contexto.
Também os figurinos foram refeitos por Contarini. Os trajes sóbrios (se o vídeo não tiver modificado muito as cores) de Samaritani foram substituídos por peças coloridas. No segundo ato, Amelia apareceu com um vestido azul e branco, com véu branco, que fazia lembrar as imagens da Virgem Maria usadas em procissões. O ponto mais fraco de toda a produção, no entanto, foi uma peruca loira, de gosto muito duvidoso, que Riccardo ganhou. Isso chegou mesmo a ridicularizar o personagem.
Em todos os atos, a luz, também assinada por Contarini, produziu belos efeitos, simulando a iluminação vinda das janelas. Em resumo, tirando o vestido azul de Amelia, a toalha rosa de Renato e, sobretudo, a peruca de Riccardo, o que se viu foi uma bela e clássica produção que, mais do que meramente ilustrar, enriqueceu a obra.
Dois elencos díspares
Os comprimários, comuns a ambos os elencos, tiveram um bom desempenho, com destaque para o Silvano de Maurizio Bove. Também o Oscar de Cassandre Berthon e a Ulrica de Elizabeth DeShong participaram nos dois dias, trazendo um pouco de brilho ao segundo elenco. São elas os polos agudo e grave, entre os quais se situa o trio protagonista.

Se nem sempre os agudos de Berthon convencem, o principal ela entregou: um Oscar cativante, com voz brilhante e desenvoltura cênica. Conseguiu transmitir a vivacidade dessa figura um tanto ingênua que, no baile, entrega Riccardo a Renato. DeShong, por sua vez, foi uma Ulrica vocal e cenicamente convincente, com um timbre quente, equilibrado, agudos e graves na medida. No dia 10, foi ela o grande e único destaque.
No segundo elenco, o trio de protagonistas foi formado pelo tenor Vincenzo Costanzo (Riccardo), pelo barítono Ernesto Petti (Renato) e pela soprano Oksana Dyka (Amelia), substituindo a napolitana Valeria Sepe, originalmente anunciada.
Como Renato, Ernesto Petti revelou-se um cantor mediano: sem grande brilho, mas também sem grandes problemas técnicos. A sensação foi a de que o personagem não foi favorável a seu timbre.
Não se pode negar que Costanzo tenha seus méritos e nos tenha entregado um personagem bem construído. Vocalmente, porém, apesar do belo timbre, faltou acabamento e houve dificuldade de manter o legato, o que resultou em vários momentos de afinação imprecisa. Mas Costanzo conquistou o público, e o fez, lamentavelmente, empregando um efeito bastante discutível em sua ária Ma se m’è forza perderti, no terceiro ato. Além de ralentar, ele resolveu segurar por um tempo considerável o “nostro amor”, no final. Caso o tenor tivesse técnica suficiente para sustentar essa acrobacia, não haveria qualquer problema além de uma mera questão de gosto. Não foi esse o caso, contudo: a afinação e a qualidade da emissão foram seriamente prejudicadas.

Em um tempo em que faltam tenores, no entanto, Costanzo foi o menor dos males. Tivesse ele uma Amelia minimamente aceitável a seu lado, teríamos tido uma récita medíocre, mas satisfatória. Não foi o caso. Oksana Dyka interpretou Amelia com uma emissão fora do lugar, timbre áspero, afinação errática — desafinada mesmo — e com problemas nos graves e nos agudos.
Felizmente, o dia 11 não demorou muito a chegar e, com ele, “finalmente, Verdi!” — como gritou, de algum camarote, um típico italiano frequentador de óperas, após a magistral interpretação de Ludovic Tézier para a ária Eri tu che macchiavi quell’anima. Sim, finalmente, Verdi! E, dessa vez, com um cast de luxo, a fina flor do star system: Piero Pretti como Riccardo, Ludovic Tézier como Renato e Anna Netrebko debutando como Amelia.
Pretti tem um timbre bem mais claro que Costanzo, e a famigerada peruca (da qual Costanzo escapou) pareceu contribuir para o afastar ainda mais do personagem de Riccardo. De fato, é um personagem que requer que o intérprete seja convincente tanto como um governante firme, quanto como um amante em crise, uma vez que a sua amada era ninguém menos que a esposa do seu amigo mais fiel. Seu canto seguro, seu legato e seu belo fraseado, no entanto, compensaram a dificuldade cênica. O canto de Pretti flui com naturalidade, sem precisar ser empurrado — como tem feito boa parte dos tenores.
Estreando como Amelia, Anna Netrebko demonstrou que ainda é a grande diva da nossa geração. O papel é perfeito para o seu timbre privilegiado. Dos papéis nos quais tive a oportunidade de vê-la recentemente, sem dúvida foi o que melhor serviu à sua vocalidade. Sua Amelia foi envolvente, seu Morrò, ma prima in grazia foi sensível e comovente. Falta-lhe um pouco a ênfase à palavra, mas, como se pôde ouvir, por exemplo, em Ma dall’arido stelo divulsa, ela compensa isso com domínio da dinâmica, legato, belos pianos, fraseado, musicalidade, teatralidade e carisma. Para quem havia ouvido Dyka na véspera, o canto de Netrebko foi um verdadeiro presente.

Ludovic Tézier é, sem dúvida, um dos melhores artistas em atividade no mundo lírico, é um nome que pode entrar, sem reservas, para a lista dos grandes de todos os tempos. Ele tem algo fundamental e, atualmente, raro: sabe trabalhar a palavra, sabe usar a palavra para fortalecer o canto. Tézier tem a palavra verdiana. Isso já ficou claro, para mim, quando o vi como Iago, no Otello do Festival d’Aix-en-Provence, em 2023. Foi essa palavra verdiana que, aliada à melhor e mais segura técnica de canto, ao mais perfeito legato, tornou tão magistral a sua interpretação de Eri tu che macchiavi quell’anima. Desde o recitativo, Non è su lei, Tézier já impôs toda a expressividade do texto. No cantabile, Eri tu, é perfeito o contraste entre o canto forte que acusa Riccardo de traidor e o momento nostálgico em que lembra o tempo no qual Amelia o abraçava com amor. “Finalmente, Verdi”!
Com esse trio de protagonistas, vale destacar que o eletrizante e difícil trio do segundo ato, Odi tu come fremono cupi per quest’aura gli accenti di morte?, saiu perfeito — e isso sem concessões no andamento. Também merecem ser mencionados o dueto de Riccardo e Amelia, no segundo ato, e, sobretudo, o dueto de Renato e Amelia, no terceiro ato.
As cenas de conjunto e os coros são momentos especiais e musicalmente saborosos do Ballo. E, preparado por Fabrizio Cassi, o Coro do Teatro di San Carlo, homogêneo, preciso, com uma bela e timbrada sonoridade, deu um sabor especial às récitas. Sob a regência de Pinchas Steinberg, que empregou um andamento sempre preciso e favorável ao desenrolar da trama, a Orquestra do Teatro di San Carlo pareceu ter crescido do dia 10 para o dia 11. Se no dia 10 houve alguns problemas de afinação, sobretudo nas cordas, no dia 11 a orquestra teve um desempenho digno de uma das melhores orquestras italianas.
Com uma produção plasticamente bonita, com Netrebko, Pretti, Tézier e DeShong e, claro, com o Coro e a Orquestra do San Carlo, Un Ballo in Maschera foi uma bela abertura para um outubro verdiano.
Fotos: Luciano Romano / Teatro di San Carlo.

Cofundadora do site Notas Musicais, é a correspondente no Brasil das revistas L’Opera (Itália) e Pro Ópera (México). Colabora, ainda, com a Opera Magazine (UK) e com o site L’Ape Musicale (Itália). Fez parte do júri das edições 2020 e 2022 a 2025 do Concurso Brasileiro de Canto ‘Maria Callas’ e é membro do conselho de Amigos da Cia. Ópera São Paulo. Em 2017, fez a tradução, para o português, do libreto da ópera Tres Sombreros de Copa, de Ricardo Llorca, para a estreia mundial da obra, em São Paulo. Estudou canto durante vários anos e tem se dedicado ao estudo da história da ópera e do canto lírico.






Respeitosamente, discordo de sua opinião a respeito do incrível Ernesto Petti. Ele é de longe um dos melhores barítonos de hoje e realmente oferece esperança para o cenário lírico atual, cada vez com menos qualidade. A sua voz é enorme e sonora, comparável aos grandes mestres de antigamente. Um verdadeiro barítono verdiano, ave relativamente rara nos dias de hoje. Inclusive, existe um vídeo do Sr. Petti cantando a sua célebre ária Era tu gravada por um membro da plateia nessa mesma produção em que é possível observar as suas qualidades que já mencionei acima.