Fins e começos

Um encerramento à altura do Festival de Música Erudita do Espírito Santo, que já se consolidou como um dos grandes eventos da música clássica no Brasil.

Você que está lendo este artigo no ano de 2025, caso ainda não tenha se aposentado, provavelmente deve estar preocupado. Afinal, aposentar-se com uma renda razoável parece ser uma realidade cada vez mais distante para a maioria dos brasileiros. Agora, imagine o seguinte cenário: você tem apenas trinta e sete anos de idade. Nos últimos dezenove, trabalhou em um ritmo impressionante e exaustivo, mas conseguiu alçar-se à condição de celebridade em uma época que, para se tornar um influenciador (o termo sequer existia), era necessário fazer algo relevante. Daí, você decide se aposentar em grande estilo: produz a sua derradeira ópera e ainda negocia uma pensão vitalícia com o mandatário local. Assim ocorreu com Gioachino Rossini, nascido em 1792, aposentado em 1829 e que viveu, lautamente, até 1868.

Nos seus quase quarenta anos vivendo como aposentado, Rossini compôs poucas obras, mas nenhuma ópera. A última, de fato, foi Guillaume Tell, a obra dos seus trinta e sete anos, sua despedida em grande estilo dos palcos líricos. E grande estilo, aqui, não é apenas uma força de expressão: a composição, completamente inédita (Rossini, em óperas anteriores, chegou a reciclar passagens de outras óperas compostas na juventude para dar conta das numerosas encomendas que recebia), em sua estreia levou aproximadamente cinco horas para ser apresentada. Mesmo com cortes, não costuma durar menos que três horas. E, em tempos nos quais as pessoas não conseguem mais passar uma hora sem conferir o celular, assistir a Guillaume Tell na íntegra parece ser uma realidade cada vez mais distante (tal qual se aposentar com uma renda razoável).

Para felicidade dos admiradores da arte lírica, no Concerto de Encerramento do 13° Festival de Música Erudita do Espírito Santo, ocorrido no dia 29 de novembro de 2025, no Teatro Sesc Glória, em Vitória, foram apresentadas duas árias dessa magnífica composição de Rossini. E que árias! Antes de falar sobre elas, porém, vamos contextualizar o evento.

O Festival, que contou com a direção geral de Tarcísio Santório, direção artística de Livia Sabag, direção executiva de Natércia Lopes e coordenação musical de Gabriel Rhein-Schirato, é uma iniciativa que, de fato, merece elogios. Afinal, poucos são os eventos culturais no Brasil que sobrevivem, por tantos anos, às incertezas e percalços que ainda afetam o setor. Sua programação é vasta, incluindo eventos voltados a comunidades com menor acesso à cultura e primando pela divulgação de música contemporânea.

Assisti a alguns dos eventos: a ópera A profissão da senhora Warren, cuja crítica foi publicada anteriormente nesse site, e três concertos camerísticos: o Trio oboé, clarinete e fagote, com Nathália Maria, Danilo Oliveira e Deyvisson Vasconcelos; o Recital Voz e Piano, com Denise de Freitas e Fabio Bezuti, e o Duo Flauta e Violão, com Danilo Klem e Belquior Guerrero. Nos três, houve uma abertura com o pianista Willian Lizardo. De modo geral, os concertos foram de alto nível: os programas trouxeram obras contemporâneas com significativos desafios técnicos para os intérpretes, sendo que algumas delas despertaram no público o interesse em buscar outras obras dos compositores e compositoras (ao passo que outras obras, ao menos na opinião deste crítico, são mais adequadas ao estudo que à audição). Também foram apresentadas obras do repertório mais tradicional, tornando os concertos mais palatáveis.

Como destaques altamente positivos, pode-se mencionar o desempenho dos instrumentistas, que unanimemente se mostraram capazes de enfrentar um repertório complexo e exigente, tanto no aspecto emocional quanto no físico; a participação do pianista responsável pela abertura dos concertos, que possui um domínio estilístico admirável (à guisa de exemplo, sua interpretação de uma fuga de Scarlatti foi amplamente diferenciada da leitura que fez, no dia seguinte, de uma peça de Bach arranjada por Busoni – ou seja, ele sabia o que estava fazendo, o que é altamente positivo em recitais pianísticos); e a grandeza da cantora e do pianista colaborador no recital voz e piano – cujo programa era imensamente desafiador, face à quantidade de estilos musicais distintos em sequência -, que brindaram o público com um espetáculo de nível elevadíssimo.

Por sua vez, o concerto de encerramento trouxe os vencedores do 4º Concurso de Canto Natércia Lopes, que também integra o Festival, mas que já ocorrera em setembro. Aqui, faz-se necessário um esclarecimento: antes do início da apresentação, houve um anúncio no qual a organização do evento informou que a soprano Thati Reis estava acometida por um problema de saúde (dor de garganta), mas, mesmo assim, optou por se apresentar. Por uma questão de bom senso, entendo que não seria ético de minha parte avaliar a apresentação da cantora, sob pena de enfatizar, injustamente, quaisquer pontos negativos decorrentes do tal problema. Além dela, se apresentaram o barítono Robert Willian, vencedor da categoria 18 a 25 anos, e a soprano Vanessa de Melo, ganhadora da categoria 26 a 34 anos.

Acerca dos solistas, além da ressalva já feita anteriormente, cabe mais uma observação: não se pode esperar que cantores ainda em início de carreira atinjam a perfeição ao interpretar árias que fazem parte do repertório de cantores de primeiro time. Haverá, aqui e ali, alguns problemas em termos de afinação, fraseado e projeção vocal. Eventos como o concerto aqui analisado, no entanto, são excelentes oportunidades: tanto para o público, que, quem sabe, poderá um dia dizer que presenciou o início da carreira de um grande nome, quanto para os cantores, que ganham milhagem e podem apresentar o fruto dos seus estudos acompanhados por uma orquestra de ótimo nível.

Robert Willian

Robert Willian, apesar da pouca idade, poderá trilhar bons caminhos no universo operístico. Cantou adequadamente a célebre Der Vogelfänger bin ich ja, de A Flauta Mágica, de Mozart, cuja escrita musical não é das mais exigentes (afinal, a ária foi escrita sob medida para o empreendedor, dramaturgo, ator, libretista e também cantor Emanuel Schikaneder, que encomendou a ópera), mas que demanda boa desenvoltura cômica em cena, a qual Willian demonstrou possuir.

Posteriormente, interpretou Sois immobile, da mencionada ópera de Rossini, quando teve seu melhor momento na noite. Com suficiente projeção vocal e boa compreensão do texto original em francês, o barítono transmitiu a dramaticidade da ária que precede, na ópera, a cena em que o personagem principal – o herói suíço Guillaume Tell – é forçado pelo sádico tirano austríaco Gesler a atirar uma flecha cujo alvo é uma maçã posicionada sobre a cabeça de seu filho, Jemmy. Se não o fizesse, seriam ambos – pai e filho – executados. Uma cena impactante, de música muito bem composta, apresentada dignamente pelo cantor.

Na terceira ária por ele interpretada, Pari siamo, de Rigoletto, ópera de Giuseppe Verdi, o cantor esteve um pouco menos confortável. Vale dizer que isso é plenamente compreensível: o papel em questão demanda um cantor mais experiente, com a voz mais escura, encorpada, preferencialmente com maior projeção e dotado de grande capacidade histriônica – a qual só pode ser adquirida com horas e horas de estudos e de palco. Rigoletto é, seguramente, um dos papéis mais complexos para esse registro vocal. Assim, o artista foi corajoso em encarar o desafio, e se saiu relativamente bem, de modo que, no futuro, poderá vir a interpretar esse personagem. Em suma: Willian é um cantor promissor, com muito chão pela frente, ao qual devemos desejar sorte. Ele parece estar no rumo certo.

Vanessa de Melo

Vanessa de Melo, por sua vez, demonstrou ser uma cantora praticamente pronta, muito embora o programa impresso do Festival informe que ela está prestes a concluir o seu bacharelado em Música. Interpretou duas árias de Mozart, Ach ich fühl’s, de A Flauta Mágica, e Ruhe sanft, mein holdes Leben, de Zaide, além de Sombre foret, da mencionada ópera de Rossini. Ach ich fühl’s é de uma simplicidade enganosa: afinal, qualquer mínimo deslize da intérprete a deixará completamente exposta. No caso, a cantora foi absolutamente convincente em sua rendição. Seu timbre é homogêneo: as notas mais graves, como, por exemplo, na palavra “Wonnestunde”, soaram como aquelas emitidas nas zonas média e aguda, sem parecerem forçadas e sem que houvesse perda de volume. A cantora foi muito bem na difícil passagem virtuosística cujo texto contém as palavras “meinem Herzen”, emitindo bem as notas mais ágeis que antecedem a passagem com quatro notas em staccato, todas emitidas com limpidez e afinação. Muito bem sustentada a nota aguda na frase “so wird Ruh’”, projetada de forma excelente, mas sem exageros – o que comprometeria a atmosfera de tristeza que deve estar presente ao longo de toda a ária. Sem dúvidas, uma interpretação primorosa para uma cantora tão jovem.

Também convincente a ária Ruhe sanft, menos conhecida que sua antecessora, mas igualmente bela e virtuosística. As mesmas virtudes, em termos de homogeneidade no timbre e de habilidade na execução das passagens mais ágeis, se fizeram presentes.

Em Sombre foret, que incluiu o breve recitativo que precede a ária (“romance”) cantada por Mathilde, princesa austríaca apaixonada pelo suíço Arnold Melchtal, Melo manteve o nível das peças anteriores, concluindo a ária com uma bela messa di voce. De se destacar, também, nas três árias, a serenidade e a elegância da cantora em cena, que não recorreu jamais a gestos exagerados para se expressar: o drama, o pathos, a emoção estão primordialmente na voz, ficando a expressão corporal como ação coadjuvante. Assim agem os grandes cantores e cantoras da arte lírica. Nesse sentido, Melo está trilhando um caminho corretíssimo e certamente, fazendo as escolhas certas em termos de professores e repertório, terá um futuro brilhante.

À Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo – Oses, que foi regida pelo seu titular Helder Trefzger, foram atribuídas duas peças, além da missão de acompanhar os cantores. A obra que deu início ao concerto foi a Abertura da ópera A Flauta Mágica. A peça foi bem executada, em que pese a orquestra ter sido prejudicada pela pouco favorável acústica do teatro, que faz com que as cordas soem menos impactantes do que deveriam – a Oses sempre soa mais homogênea quando se apresenta no Teatro da UFES (a ver como serão as coisas no Teatro Carlos Gomes, reaberto recentemente após anos e anos de reforma, e sobretudo no Cais das Artes, que, ao que tudo indica, será inaugurado em 2026).

De toda sorte, quando precisou cumprir o seu papel de secundar os cantores, a orquestra se portou muito bem, e, no outro excerto puramente orquestral da noite (a valsa Bal Masqué, da compositora Amy Beach – uma peça, digamos, passável, ainda mais considerando que Beach é autora de obras de grande relevo como a Sinfonia Gaélica e o Concerto para Piano), a sonoridade já estava bem melhor, indicando a plena adaptação dos músicos às condições do local. O regente cumpriu, com o usual domínio técnico, o seu papel de fornecer um adequado tapete sonoro aos solistas, observando, inclusive, as diferenças de atmosfera que caracterizam cada uma das composições e também destacando as belas linhas contrapontísticas na abertura mozartiana.

No que tange às participações individuais dos músicos, as peças escolhidas para os cantores privilegiaram sobretudo as madeiras, com grande atuação dessas nas árias de Mozart. Destaque ainda para as flautas em Caro nome, do Rigoletto (cantada por Reis), bem como para o violoncelo solista em Sois immobile.

Ao final, todos os cantores, incluindo Thati Reis, foram calorosamente aplaudidos pelo excelente público presente (o teatro parecia estar lotado). Um encerramento à altura do Festival, que já se consolidou como um dos grandes eventos da música clássica no Brasil. Vida longa ao Festival de Música Erudita do Espírito Santo!


Fotos do próprio autor.