Na terça-feira, 17 de fevereiro de 2026, calou-se a voz do grande baixo-barítono belga José van Dam. É mais uma referência que se vai, é mais um nome de uma geração que marcou profundamente a arte lírica na segunda metade do século XX a nos deixar.
Os primeiros anos e Frédéric Anspach
Joseph van Damme nasceu em agosto de 1940, em Bruxelas, quando a cidade ainda estava ocupada pelos alemães. As suas primeiras lembranças são povoadas pela família, por soldados alemães, bombas da Segunda Guerra Mundial, bem como pela entrada dos americanos e pela celebração do fim da guerra.
O pequeno Joseph gostava de cantar junto quando sua irmã, cinco anos mais velha que ele, colocava discos. Foi assim que, um dia, um amigo dos seus pais que cantava no coro de uma igreja o ouviu e o levou para fazer solos durante as missas. Antes da puberdade, Joseph tinha voz de mezzosoprano.
Aos treze anos, começou a estudar música — piano, solfejo e canto. O renomado tenor belga Frédéric Anspach (1908-1981), especialista no repertório de concerto, foi o seu único professor de canto — algo raro na carreira de um cantor. Segundo van Dam conta em entrevista à France Musique, sua voz de cantor era natural, de modo que Anspach teve que fazer apenas alguns ajustes, sobretudo de estilo: “Quando falamos em voz natural, falamos também de técnica natural”, afirmou van Dam. Segundo ele, desde criança já respirava e apoiava da forma correta.
No vídeo abaixo, Frédéric Anspach canta L’horizon chimérique, de Fauré:
Aos dezessete anos, van Dam entrou, sob a orientação de Anspach, no Conservatório de Bruxelas, onde se formou em 1961. Nesse período, em 1959, aos dezenove anos, ganhou o seu primeiro prêmio de canto. Van Dam conta que Anspach o cumprimentou e disse que ele já podia começar a trabalhar.
Aos vinte anos, quando se tornou um cantor de ópera, achou que José soaria melhor que Joseph. Resolveu adotar o nome artístico José van Dam — tirou 2 letras de cada um de seus nomes “por uma questão de equilíbrio”. A partir daí, Joseph e José passaram a conviver quase como duas pessoas diferentes: Joseph era o homem, o seu lado pessoal; José era o artista, o profissional. Nas entrevistas, José sempre evitou falar dos problemas pessoais de Joseph. À France Musique, além das memórias da infância e de mencionar que se casou mais de uma vez, falou apenas da solidão da vida de artista, do quanto é ruim sair de uma apresentação, onde foi aclamado por uma multidão, e ir jantar sozinho. No entanto, como ele fazia o que amava, isso não chegava a ser um sofrimento.
Berlim e Lorin Maazel
Ao sair do conservatório, passou um tempo na Opéra de Paris, onde fez alguns papéis e recebeu uma boa oferta, mas, artisticamente, o Grand Théâtre de Genève era mais interessante para ele. Entrou para o elenco estável do teatro suíço, onde ficou por dois anos e aprendeu muito, sobretudo como atuar em cena. De Genève seguiu, em 1967, para Berlim, como membro do elenco da Deutsche Oper, levado pelo então diretor musical da casa, Lorin Maazel, com quem, em 1965, van Dam havia participado pela primeira vez da gravação de um álbum (para a Deutsche Grammophon): foi Don Iñigo Gómez em L’Heure Espagnole, de Ravel, acompanhado pela RTV Française.
Na curta gravação abaixo, Evidemment, elle me congédie, de L’Heure Espagnole, já é possível perceber que a impecável dicção de van Dam, bem como a precisão do seu canto e do seu fraseado, estavam presentes desde o seu primeiro registro em disco:
Ainda na entrevista à France Musique, van Dam conta que teve a sorte de chegar a Berlim quando a célebre pianista Herta Klust (1907-1970) ainda era a correpetidora da Deutsche Oper. Van Dam a definiu como um monumento, e quando ela se aposentou, após 35 anos como correpetidora, ele continuou a estudar na casa dela. Foi com ela que aprendeu os seus principais papéis (Don Giovanni, Leporello, Figaro, Golaud…). Van Dam contou que, em geral, Klust tocava sem partitura, tinha tudo na memória — e, naturalmente, o papel de um correpetidor vai além de meramente acompanhar, de tocar a sua parte.
Karajan
Foi ainda no finzinho da década de 1960 que o grande maestro Herbert von Karajan (1908-1989) conheceu José van Dam: o cantor passou a fazer parte do seleto grupo de cantores favoritos do maestro — ou, como dizia van Dam, da “família” de Karajan.
Com Karajan, participou de diversas produções e de dezoito gravações (das quais duas são em vídeo). Dentre as gravações, destacam-se as duas de Le Nozze di Figaro (1974 e 1979), nas quais van Dam interpretou Figaro; Salome, de 1977, em que foi Jochanaan, Pelléas et Mélisande (1978), em que interpretou Golaud; Parsifal (1980), em que atuou como Amfortas; Die Zauberflöte (1980), na qual foi Sarastro; Der Fliegende Holländer (1981) em que foi o Holandês; e a Carmen de 1982, com Baltsa no papel-título, quando interpretou Escamillo.

Karajan tinha a fama de prejudicar (ou até destruir) a voz dos seus cantores preferidos, ao pedir que cantassem papéis que não eram bons para eles. Van Dam dizia que a culpa era dos cantores, que não sabiam dizer “não” ou que tinham medo de dar uma negativa a Karajan. “Karajan tinha a sua ‘família’, ou seja, as pessoas com quem ele tinha o hábito de trabalhar: José Carreras, Plácido Domingo, Mirella Freni, Teresa Berganza, Frederica von Stade, eu, [Piero] Cappuccilli, [Nicolai] Ghiaurov… Ele pedia, às vezes, a um membro de sua família, que cantasse um papel que não devia cantar, e para agradá-lo, alguns aceitavam”. Contou que tanto ele quanto Mirella Freni se recusaram a fazer alguns papéis, e Karajan entendeu os motivos e aceitou. Don Pizarro, Telramund e Wotan são exemplos de papéis que Karajan pediu que van Dam interpretasse, mas ele não aceitou. Nos dois primeiros casos, van Dam achou que não eram adequados à sua voz (e Karajan concordou). Já Wotan era, lamentavelmente, um personagem com o qual van Dam não se identificava, que não se via interpretando.
Papéis
Van Dam tinha uma voz de baixo-barítono cantante, macia, com um legato perfeito, um canto elegante, mas não tinha os graves de um baixo e nem os agudos de um barítono. Por isso, evitava papéis que fossem aos extremos. Evitava, ainda, papéis que psicologicamente não lhe dissessem grande coisa, ou não se ajustassem ao seu temperamento vocal. Uma exceção foi Escamillo, que interpretou diversas vezes, mas era o tipo de “macho” que ele não gostava de interpretar.
Em Mozart, José van Dam era um mestre. Para ele, Le Nozze di Figaro era a melhor ópera da trilogia Mozart-da Ponte — Don Giovanni perde um pouco a dramaticidade no segundo ato e, em Così Fan Tutte, o problema está no enredo. Van Dam foi Figaro mais de quatrocentas vezes, e dizia que era um papel que ele podia interpretar mil vezes, pois sempre descobria algo diferente. Além das gravações de Le Nozze com Karajan (1974 e 1979), van Dam também registrou o seu Figaro sob a batuta de Georg Solti (LP de 1973 e um vídeo de 1980), Claudio Abbado (1974) e Neville Marriner (1985). Também com Marriner (e ao lado de Karita Mattila, Anne Sofie von Otter, Thomas Allen e Francisco Araiza), participou, em 1988, da gravação de Così Fan Tutte que, até hoje, é uma das melhores disponíveis comercialmente.
No vídeo abaixo, podemos ver van Dam como Figaro, na gravação feita em 1980 na Opéra de Paris. Um Figaro com dicção perfeita, um fraseado admirável, com musicalidade. Van Dam não cantou duas vezes do mesmo jeito o refrão que se repete: “Non più andrai, farfallone amoroso, / notte e giorno d’intorno girando; / delle belle turbando il riposo / Narcisetto, Adoncino d’amor”. Podemos ver, ainda, um ator natural, que sabe fazer comédia sem maneirismos e sem ser caricato:
Em 1978, van Dam foi o Leporello na versão para cinema de Don Giovanni dirigida por Joseph Losey, com a Orquestra da Opéra de Paris regida por Lorin Maazel. Segundo van Dam, quando ele assinou o contrato, tratava-se de um filme para a televisão dirigido pelo genial Patrice Chéreau. Por algum motivo que ele desconhecia, no entanto, Chéreau não quis seguir no projeto — e nós perdemos uma filmagem de Don Giovanni dirigida por Chéreau! Losey aceitou dirigir o filme, mas queria um filme para cinema, e não para a TV, e avisou que nunca havia visto Don Giovanni — e preferiu apenas ouvir, várias vezes, a gravação de Glyndebourne. Segundo van Dam, que ficou muito satisfeito com o resultado do trabalho, os recitativos secos foram feitos durante a filmagem, mas toda a parte com orquestra foi gravada antes. No vídeo abaixo podemos ver van Dam como Leporello, na famosa ária do catálogo, cantando quase sempre de costas:
Foi em 1983 que aconteceu um evento de grande importância para a carreira de José van Dam (e para a música do século XX): a estreia de Saint François d’Assise, de Olivier Messiaen (1908-1992), no Palais Garnier, com van Dam no papel-título. Van Dam conta que ele entrou substituindo outro cantor. Ensaiou com Messiaen, compositor que van Dam descreveu como muito gentil e que lhe apresentou o papel à medida que os quadros iam ficando prontos. A obra, segundo van Dam, é extremamente complexa para a orquestra, mas tem uma linha de canto francês melódico. A estreia foi dirigida por Seiji Ozawa. Um dos quadros da obra, Les Stigmates, pode ser visto abaixo:
De Verdi, além de Ferrando em Il Trovatore, registrado duas vezes sob a batuta de Karajan, destacam-se as suas interpretações de Simon Boccanegra, Falstaff e Philippe II. Este último, interpretou tanto em produções de Don Carlo em italiano, quanto do Don Carlos original, em francês. O DVD gravado em 1996 no Châtelet, com regência de Antonio Pappano e tendo no elenco Roberto Alagna, Karita Mattila, Waltraud Meier e Thomas Hampson, é, ainda hoje, um dos melhores registros em vídeo da versão em francês.
No YouTube, lamentavelmente, não há vídeo de van Dam nessa produção, mas está disponível um em que ele canta Ella giammai m’amò (em italiano, portanto). Vemos, em sua interpretação magistral, um Filippo II que começa introspectivo, reflexivo, quase balbuciando, mas, aos poucos, vai se inflamando e encarando a sua realidade. Tudo isso com elegância e um legato perfeito, marcas registradas de van Dam:
Van Dam foi um notável intérprete do repertório francês. Em Lakmé, é o Nilakantha de uma das melhores gravações (se não a melhor) disponíveis em CD: a da EMI, de 1997, com coro e orquestra do Capitole de Toulouse, regência de Michel Plasson, tendo Gregory Kunde como Gérard e Natalie Dessay no papel-título. Golaud, em Pelléas et Mélisande, era um dos seus papéis favoritos — “é um papel extraordinário, humano”, disse à France Musique — e ele o gravou três vezes: com Karajan (1978), com John Eliot Gardiner (1987) e com Claudio Abbado (1990).
Contava Van Dam que quando viu Pelléas pela primeira vez, aos 14 anos, não gostou, mas, com o passar dos anos, foi se familiarizando com a ópera, que se tornou a sua preferida. É uma ópera onde não há árias, trios ou duetos, ele a definia como uma grande conversação musicada. É, pois, uma ópera difícil de compreender e de dirigir. Justamente por isso, feita a ressalva de que Karajan e Maazel regeram muito bem a obra-prima de Debussy, para van Dam o ideal era que o maestro fosse um francês, alguém que conhecesse muito bem o idioma.
Quanto à encenação de Pelléas, a sua preferida era a de Bob Wilson, que estreou em fevereiro de 1997 na Opéra de Paris e — hélas! — foi substituída, no ano passado, por uma nova produção. Segundo van Dam, havia cenas difíceis de executar, mas que resultavam em algo forte, extraordinário. Infelizmente, a Opéra de Paris só filmou essa produção em 2012, quando van Dam, com mais de cinco décadas de carreira e sete de idade, já havia deixado o papel.
Por falar em encenação, em conversa com Natalie Dessay, na France Inter, van Dam disse que, para ele, uma boa encenação era aquela que preservava os elementos clássicos da ópera, mas adicionava ideias novas. Ele citou Karl-Ernst Hermann (com quem fez um Don Giovanni em Bruxelas), Laurent Pelly, Patrice Chéreau, Olivier Py e Peter Sellars (com quem, em 1992, van Dam participou de uma nova produção de Saint Fraçoise d’Assise). Os diretores elencados (além de Wilson) não deixam a menor dúvida: van Dam não estava interessado em interpretar os papéis sempre do mesmo jeito, mas sim em descobrir maneiras novas de encarar e de dar vida a um personagem.
Van Dam também foi um grande Méphisto, tanto em Les Contes d’Hoffmann — que gravou com James Levine (1981), com Sylvain Cambreling (1986) e com Kent Nagano (1993 em DVD e 1996 em CD) —, quanto em Faust ou em La Damnation de Faust. Nessa categoria, ele também incluía Scarpia, em Tosca — para ele, a melhor ópera de Puccini. No vídeo abaixo, um dos Méphistos favoritos de van Dam: o de La Damnation de Faust:
A canção e as apresentações em São Paulo
Além de ator e cantor de ópera, van Dam era um importante intérprete do Lieder alemão e da mélodie francesa. Foi com esse repertório que, graças ao Mozarteum Brasileiro, veio a São Paulo em setembro de 1999, quando se apresentou no Theatro Municipal. Foi acompanhado ao piano pelo polonês Maciej Pikulski, com quem van Dam fez uma sólida e fiel parceria. O programa teve Brahms e Richard Strauss na primeira parte e, na segunda, Fauré, Duparc e Ravel.
Sempre pelo Mozarteum, van Dam e Pikulski voltaram mais duas vezes: em 2001 e 2004, na Sala São Paulo. Em 2001, van Dam começou com Lieder — o Dichterliebe, de Schumann — e passou para árias de óperas de Mozart (Don Giovanni e Le Nozze di Figaro), Massenet (Hérodiade), Delibes (Lakmé) e Verdi (Don Carlo). Em 2004, permaneceram, na segunda parte, as árias, dessa vez de Mozart, Berlioz, Gounod e Bizet. O Lieder, no entanto, foi substituído pela mélodie française, com Duparc, Ravel e Debussy.
No vídeo abaixo, Ich Grolle nicht e Im wunderschöne Monat Mai, do ciclo Dichterliebe, com van Dam e Pikulski (observe que o vídeo não foi gravado no Brasil):
Segundo van Dam, para passar da ópera para a canção, é preciso fazer uma adaptação. Contava que, quando fez o seu primeiro recital, sentiu-se um pouco nu. Isso porque era tímido, e quando estava no palco na pele de um personagem, quem estava em cena era o personagem, e não ele. Já no recital, embora tivesse que interpretar o texto, era algo mais interior, e era ele quem estava diante do público.
Ao comparar o canto do Lied com o da mélodie française, van Dam explicou, na entrevista disponível na France Musique, que “o poeta alemão tinha o pé no chão; o poeta francês tinha a cabeça no céu, nas nuvens”. Isso, segundo ele, devia ser sentido na interpretação, na pronúncia. A pronúncia do alemão é forte, a do francês é menos forte, mais poética, é mais em função do texto. E por falar no texto, a sua compreensão e articulação, para ele, eram fundamentais, e o segredo estava em pronunciar bem as consoantes.
O ensino

Para van Dam, transmitir o conhecimento, ensinar, era algo fundamental. Antes mesmo de encerrar a sua carreira de cinquenta anos, em 2004 ele foi o idealizador e professor residente do curso de canto da Chapelle Musicale Reine Elisabeth, em Bruxelas. Lá permaneceu até 2023, quando passou o bastão para Stéphane Degout e Sophie Koch. Dentre os alunos de van Dam, merece destaque um tenor brasileiro: Giovanni Tristacci foi aceito na prestigiosa academia, onde estudou de 2011 a 2013. Em suas redes sociais, Tristacci agradeceu ao mestre, lamentou a sua partida, disse que o seu legado permanecia, e publicou algumas fotos — uma delas está reproduzida aqui.
Morreu Joseph, mas José e sua arte são imortais.
Foto principal: Naomi Baumgartl.

Cofundadora do site Notas Musicais, é a correspondente no Brasil das revistas L’Opera (Itália) e Pro Ópera (México). Colabora, ainda, com a Opera Magazine (UK) e com o site L’Ape Musicale (Itália). Fez parte do júri das edições 2020 e 2022 a 2025 do Concurso Brasileiro de Canto ‘Maria Callas’ e é membro do conselho de Amigos da Cia. Ópera São Paulo. Em 2017, fez a tradução, para o português, do libreto da ópera Tres Sombreros de Copa, de Ricardo Llorca, para a estreia mundial da obra, em São Paulo. Estudou canto durante vários anos e tem se dedicado ao estudo da história da ópera e do canto lírico.






Lindíssimo e completo artigo sobre este maravilhoso cantor que nos deixou, o qual tive o prazer de ouvir ao vivo…O mundo da arte lírica e seus fans o relembrarão para sempre….