Como gostaria que todo primeiro contato meu com algum compositor tivesse sido assim! Senta que lá vem história.
Em algum canal de televisão esquecido nas brumas do tempo, eu, adolescente irrequieto que teimava em ficar acordado durante as madrugadas nas férias escolares, certa noite deparei-me com uma triste cena de um homem na praia agonizando enquanto contempla um donzelo mais jovem a caminho do mar. O homem morre enquanto a sombra do jovem parece também agonizar à medida que este se distancia cada vez mais. A nostalgia expressa em notas acompanhava a densa música que envolvia a cena. Já encantado pelos cromatismos wagnerianos, imediatamente constatei a influência do mestre de Bayreuth na composição, e um fascínio imediato apoderou-se de mim todo, situação àquela altura pouco comum para um jovem com o repertório musical quase todo formado, avesso a novidades.
Perguntei a alguém próximo, talvez meu pai (é normal a memória começar a falhar assim aos 36?) se conhecia aquela música, e ele respondeu: é de Mahler. Já tinha ouvido falar em Gustav Mahler, mas jamais ouvido qualquer das suas composições. Pois bem: tratava-se do Adagietto da Quinta Sinfonia, a adornar eternamente a cena final do drama Morte em Veneza, do diretor Luchino Visconti. O lirismo e a doçura convivem em perfeita sintonia com o tom sóbrio e por vezes amargo que a tonalidade menor impõe. Sinto a redenção de um caráter fantasmagórico que se abre à vida após contemplar a luz, mas o faz ainda timidamente, com receios irracionais.
Corta para o dia 16 de julho de 2025, mês em que nosso amado compositor da Boêmia completaria 165 anos. Escrevo estas linhas poucos dias depois do seu aniversário, que era no dia 07. O tempo passou, conheci outras maravilhas de sua lavra, entre as quais outras sinfonias e ciclos de canções, como por exemplo a doce Des Knaben Wunderhorn, composta no final do século XIX. A propósito: enquanto escrevo, ouço a Sexta Sinfonia, regida pelo saudoso Claudio Abbado, via canal Youtube EuroArtsChannel.
Que Andante (segundo movimento) majestoso! Que graciosa coordenação nos movimentos do maestro! O Youtube interromper vídeos deste jaez com anúncios publicitários deveria ser considerado crime de lesa-pátria…
É marca registrada da música de Mahler a alternância entre emoções sem aparente conexão entre si, que ouvidos pouco burilados na modernidade poderiam chamar incoerente. Vistas em seu conjunto, no entanto, suas obras, especialmente as sinfonias, apresentam granítica unidade interna. Como dizia o mestre, “A partitura contém tudo, menos o essencial”. O estro poético não se encerra na técnica musical, assim como na Filosofia o Logos não se encerra nas palavras que tentem expressá-lo. Sempre há algo nos significados que resta oculto aos significantes, mas que transborda para o intérprete. Este sente, não só reproduz. Essa é a poesia da coisa toda.
Sugiro um exercício hipotético, leitor: disponha aleatoriamente todos os movimentos das sinfonias de Mahler que você não conhece, e tente remontar cada sinfonia apenas encaixando os movimentos. Garanto que é possível, embora não facílimo! Trata-se de sentir e captar justamente este “essencial” que a partitura não expressa, através de escuta ativa e da transpiração musical.
Gustav Mahler, que também foi regente, foi mestre da complexidade orquestral. Levando ao extremo as inovações wagnerianas em matéria de harmonia e orquestração, com expansão dos metais e a produção de intensas atmosferas, sua música expressa as vicissitudes da vida. O sentimento de exasperação sem resolução aparente, com um suceder contínuo de imagens justapostas em acordes dissonantes, é caudatário da estética do Tristão, a tal ponto que alguns mais exaltados, entre risadinhas e pouca responsabilidade musicológica, acusam nosso protagonista de copiar (vejam só!) Wagner. Tal acusação nos parece injusta, haja vista as conspícuas diferenças entre as obras de ambos os autores.
Não vamos nos ater longamente a este respeito aqui, mas apenas para mencionar uma diferença que salta aos olhos, a obra do gênio boêmio apresenta um caráter mais intimista e particularista, ao passo que Wagner enfatizava a grandiosidade cênica em suas óperas. Mahler, o legítimo! Que todos os leitores de Notas Musicais o ouçam! Recusem imitações. Que esta pequena homenagem póstuma de aniversário permita a Gustav Mahler viver entre nós! Afinal, gênios não morrem.

Bruno Góes nasceu em 1988, é formado em Engenharia e pós-graduado em Filosofia. Já escreveu no site Movimento.com, e fez cursos de piano e violoncelo, este último no conservatório de sua cidade Natal, Passa Quatro. É assíduo interessado em tudo o que concerne a música clássica, com ênfase em compositores de ópera como Wagner, Verdi e Puccini.






Parabéns, Bruno, pela justa homenagem a Mahler. Receba meus aplausos pela excelente análise e muito adequadas observações sobre sua fantástica obra. Observo em seu texto e imagens uma grata sensibilidade e talento, permita-me dizer, herdada de seus pais, Marcus (biógrafo de Carlos Gomes, dentre outras joias literárias) e Leila Guimarães (uma de nossas maiores sopranos), dois importantes contribuintes para o enriquecimento de nosso mundo musical. Que Deus o abençoe!