Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo

Giuseppe Verdi já tinha 73 anos de idade e uma reputação mais que consolidada quando estreou a sua penúltima ópera, Otello. A bem da verdade, Verdi era quase que venerado pelas demais figuras do meio musical, em que pese não ser uma pessoa das mais simpáticas. O compositor acompanhou os ensaios de perto, dando instruções precisas a todos, a ponto de ensinar ao tenor protagonista como este deveria encenar a morte de Otello, desfalecendo no cenário com certa naturalidade (o cantor era conhecido pela potência exagerada da voz e pela canastrice em cena). O regente escolhido para a apresentação, Franco Faccio – que apenas quatro anos depois morreria após ficar mentalmente incapacitado por conta da sífilis -, também recebeu várias orientações. Uma delas foi para não deixar ninguém dormir: quando Faccio se descuidava e os andamentos se tornavam frouxos, Verdi passava a estalar os dedos de forma ruidosa para colocar todo mundo novamente nos eixos. Por conta da escolha cuidadosa do elenco e, sobretudo, da genialidade da partitura, Otello foi um imenso sucesso desde o seu nascedouro. Pode-se dizer que a ligeireza da regência de Faccio também contribuiu para o êxito.

Não faltaram tempos ágeis na regência de Isaac Gonçalves, titular da Orquestra Camerata Sesi, no concerto da última sexta-feira, 13 de junho, no Teatro Sesi de Jardim da Penha, em Vitória/ES. A agourenta data, ao contrário do que poderiam crer alguns, trouxe boa sorte ao público que, em significativo número, se fez presente. Após uma correta apresentação do Concerto para Viola no Estilo de J.C. Bach, de Henri Casadesus (1879-1947) em que o solista Ernesto Peña se apresentou com postura segura, boa técnica musical e sonoridade agradável, foi a vez de escutar a Sinfonia nº 3, Eroica, de Ludwig van Beethoven (1770-1827).

Inspirado pelo espírito revolucionário de Beethoven, Gonçalves, que na sinfonia liderou a Camerata acrescida por alguns músicos convidados, iniciou a obra com o ímpeto dos exércitos comandados pelo Duque de Wellington em 1815, quando esses derrotaram as tropas napoleônicas em Waterloo: o primeiro movimento, Allegro com brio, foi conduzido em um ritmo quase que alucinante, sempre no limite, com dinâmicas destacadas. Ouvintes mais calejados podem ter temido pelo pior: será que a orquestra daria conta de tanta energia sem, em algum momento, desandar? Para felicidade geral dos presentes, os quase que inevitáveis desacertos foram mínimos e discretos e, ao final do movimento, a impressão deixada foi bastante positiva.

Com coerência, Gonçalves manteve a tensão elevada durante o segundo movimento, a Marcia Funebre – Adagio Assai, que em tese representa a morte do herói ou, melhor dizendo, a decepção de Beethoven com a arrogância de Napoleão Bonaparte, a quem a sinfonia seria originalmente dedicada caso o francês não tivesse se autoproclamado imperador – as decepções com a classe política não são novidade. Se houve algum sacrifício ao páthos justamente por conta da mencionada tensão, há que se considerar que, quando se interpreta uma obra tão rica, certas escolhas precisam ser feitas, implicando em perdas e ganhos.

O Scherzo foi, na minha visão, o movimento mais bem executado, principalmente pelo grande entrosamento das cordas mais graves (violas, violoncelos e contrabaixos), que, favorecidas por um conjunto orquestral de dimensões reduzidas e pela segurança constante demonstrada pelos primeiros e segundos violinos, revelaram com bastante brilhantismo e clareza, inclusive de forma sutil quando assim indicado pela partitura, frases que às vezes passam despercebidas quando executadas por orquestras maiores.

O Finale acompanhou a atmosfera geral da interpretação, tendo sido apresentado com vigor. Ainda que tenham sido notados alguns sinais de cansaço por parte dos músicos, não houve qualquer prejuízo digno de nota à execução, que transcorreu sem maiores problemas até o final.

Vale dizer que as escolhas interpretativas do regente, embora ousadas, se revelaram acertadas principalmente por evitarem alguns aspectos negativos da chamada interpretação historicamente informada. Modismos como a completa ausência de vibrato ou o excesso de ênfase em apenas alguns trechos selecionados foram, felizmente, deixados de lado. O que se viu foi uma leitura enérgica, mas coesa do início ao fim da sinfonia, bem como uma gestão atenciosa das dinâmicas (ou seja: quando a orquestra precisava de uma sonoridade mais suave, ela estava lá; quando o que se queria era algo mais bombástico, a orquestra soou majestosa) e da riqueza contrapontística da escrita de Beethoven. A meu ver, quando não se pode contar com uma orquestra de dimensões maiores, bem como quando se tem um público que ainda transita entre os repertórios clássico e popular – que é o caso do público que comparece às apresentações da Camerata -, a opção pela ousadia se mostra bem mais acertada que uma abordagem mais conservadora. Prova disso foi o entusiasmo do público ao final do concerto, que aplaudiu ruidosamente a orquestra e o regente, merecedores do reconhecimento da audiência.

Méritos, sem dúvida nenhuma, para Gonçalves, que sem recorrer a gestos histriônicos, expressando-se sempre com um gestual preciso e econômico, soube preparar e convencer os instrumentistas a abraçarem a sua concepção de uma obra que, de tão conhecida, corre o risco de se tornar monótona quando mal executada. É indispensável, no entanto, mencionar também o engajamento dos músicos da Camerata, assim como dos convidados que a ela se juntaram. Raramente se vê uma apresentação em que é possível presenciar, com tanta nitidez, o esforço físico e emocional dos músicos para atender às demandas da partitura e do regente.

Fica agora a expectativa para o próximo concerto da temporada clássica do conjunto, a ser realizado em 04 de julho, quando o pianista Estevão Gomes, vencedor da edição 2024 do Concurso Prelúdio, será o solista na Rhapsody in Blue, de George Gershwin. A conferir!


Fotos: autor.

2 comentários

  1. Excelente!Sua abordagem equilibra com maestria os aspectos técnicos e a percepção estética, conduzindo o leitor por uma verdadeira experiência auditiva, mesmo através das palavras. Parabéns pela percepção!

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