O amor está no ar

“Quero começar, mas a coisa não sai”. Foi assim que, em 1874, o compositor Piotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893) descreveu aquela que seria uma das suas mais significativas obras, em uma carta escrita para seu irmão Modest: “a coisa”. Tchaikovsky era dotado de uma personalidade um tanto quanto insegura e não dominava a escrita para piano – daí a grande dificuldade em conceber seu Concerto n° 1 para Piano e Orquestra, que finalmente ficou pronto no ano seguinte. Antes mesmo da estreia, porém, um golpe abalou o artista: ao apresentar a obra a Nikolay Rubinstein, “o primeiro pianista de Moscou” nas palavras do próprio Tchaikovsky, esse se limitou a permanecer calado. Imaginemos o climão: Tchaikovsky e mais algumas testemunhas aguardando que o virtuose do piano comentasse algo; no entanto reinava o silêncio. Já sem paciência, o compositor fez a pergunta de um milhão de rublos: “e então?”.

Reproduzirei aqui o relato do próprio Tchaikovsky, em uma carta escrita em 1878: “Nikolay falou que meu concerto não prestava para nada. (…) Como composição era muito ruim, vulgar, (…), que existiam apenas duas ou três páginas que podiam ficar e o resto devia ser jogado fora ou refeito de outra maneira”. O concerto seria “impossível de ser executado”. Deprimido, Tchaikovsky deixou a partitura de lado por algum tempo, até que, estimulado por amigos e alunos, decidiu tentar a sorte enviando a partitura, com algumas ligeiras revisões, ao conhecido pianista e regente alemão Hans von Bülow. Para a felicidade do compositor e das futuras gerações de admiradores da música de concerto, Bülow ficou entusiasmado com a obra, a ponto de afirmar que seria o mais perfeito dentre todos os concertos para piano que ele até então conhecera.

Em 25 de outubro de 1875, a obra foi apresentada pela primeira vez, tendo Bülow como solista, em Boston, nos Estados Unidos, sem a presença do compositor, que permaneceu na Rússia. A estreia foi um sucesso, sendo que o público exigiu que o último movimento fosse repetido. Tal fato foi devidamente informado a Tchaikovsky por meio de um telegrama. Não que alguns pequenos problemas não tenham sido notados: uma das pessoas presentes à estreia escreveu que “eles não haviam ensaiado muitas vezes e durante a apresentação os trombones entraram errados no ‘tutti’, no meio do primeiro movimento, momento em que o pianista exclamou em voz perfeitamente audível: ‘os metais podem ir para o inferno!!!'” (não sabemos se esse detalhe chegou ao conhecimento de Tchaikovsky).

De toda sorte, com o passar dos anos e com alguns outros pequenos ajustes na partitura, o Concerto n° 1 para Piano e Orquestra se tornou um imenso sucesso de público e de crítica, convencendo até mesmo o cético Rubinstein, que veio a interpretar a obra na Rússia em 1878 e, em seguida, de forma entusiasmada, na Exposição de Paris em 1879, naquele que seria um dos pontos altos da sua carreira de intérprete. Isso levou Tchaikovsky a comentar com um de seus alunos uma frase que, sem dúvida nenhuma, é o puro suco do mundo dando suas voltas: “o que seria impossível em 1875, tornou-se completamente possível em 1878”. Ponto para o compositor!

E será com o celebrado Concerto para Piano nº 1 de Tchaikovsky que a Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo (Oses) abrirá a sua Temporada 2026. Nos próximos dias 11 e 12 de fevereiro, serão apresentadas as obras La Nuit et l’Amour (A Noite e o Amor), da compositora Augusta Holmès (1847-1903), o mencionado concerto para piano, tendo como solista o premiado pianista Cristian Budu, e a Abertura-Fantasia Romeu e Julieta, também de Tchaikovsky. São obras unidas por um mote: as “Manifestações do Amor”, justamente a temática desta temporada.

Segundo o regente titular da Oses, Helder Trefzger (que estará à frente do conjunto nesta primeira apresentação), ao longo do ano serão interpretadas “obras relacionadas tanto ao amor impossível, de Romeu e Julieta, como ao amor divino, da Adoração, de Florence Price. Também teremos a morte por amor, do ‘Liebestod’, da ópera ‘Tristão e Isolda’, de Wagner, e o amor pela natureza, da ‘Floresta do Amazonas’, de Villa-Lobos. Mostraremos o amor nostálgico, da ‘Sinfonia Patética’, de Tchaikovsky, e o amor contido e sofrido, da ‘Sinfonia n.º 3’, de Brahms. Apresentaremos o amor idealizado, de ‘La Nuit et l’Amour’ e a oposição entre o amor carnal e espiritual, de ‘Tannhäuser’, dentre outros tantos exemplos”.

Vale ainda destacar a progressão, em termos de desafios técnicos, na escolha de repertório ao longo dos últimos anos: compositores que, em décadas passadas, não tinham suas obras apresentadas no Espírito Santo, como Shostakovich, Richard Strauss, Stravinsky e Mahler (ausência essa em razão dos desafios técnicos presentes em suas partituras), agora fazem parte das programações, evidenciando assim a contínua evolução dos músicos da Oses.

Em tempos de radicalismos, polarização, violência banalizada, intolerância e outros males infelizmente tão presentes nesta sociedade adoecida, as Manifestações do Amor, na forma musical, são um santo remédio para a manutenção da nossa saúde mental. Que seja muito bem-vinda a Temporada 2026 da Oses! Afinal, como sabiamente disse a dupla Lennon e McCartney em 1967, “all you need is love”.


Orquestra Sinfônica do Espírito Santo – OSES

Helder Trefzger, regente
Cristian Budu, piano

Augusta Holmès
La Nuit et l’Amour

Piotr Ilyich Tchaikovsky
Concerto para Piano nº 1, Op. 23
Abertura-Fantasia Romeu e Julieta


Quando: 11 e 12 de fevereiro, às 20h
Onde: SESC Glória (Avenida Jerônimo Monteiro, 428 – Centro, Vitória – ES)
Ingressos: R$ 20 (inteira) / R$ 15 (conveniado) / R$ 12 (cartão-empresário) / R$ 10 (meia-entrada e comerciário) / R$ 10 + 1kg de alimento (meia solidária)

Maiores informações no site da OSES: https://www.oses.art.br/


Foto: internet.