Nos artigos que escrevi até aqui para Notas Musicais, eu cuidadosamente pesquisava fontes e tentava harmonizar o material que encontrava com o contexto geral do que vinha sendo escrito, tarefa óbvia para quem se digna a escrever alguma coisa que mereça ser levada a sério. Mas desta vez, lamento, caros leitores, precisarei fazer a coisa de um jeito diferente. Irei na cara e coragem. Porque é o Bardo. Porque é Giuseppe Verdi. Porque o fulgor do Macbeth precisa ser escrito em um sopro, tal como a fugacidade da vida de um tirano sanguinário incitado pela esposa aos atos mais extremos: interesses do reino, se é que me entendes.
Seres do abismo infernal profetizaram que ele seria rei. Até o amigo Banquo, que seria assassinado pouco depois, deu-se conta de que falavam a verdade quando Macbeth foi coroado senhor de Cawdor. Neste instante, o corpo treme: todo o horizonte de expectativas limitara-se a apenas um objetivo, e o punhal que aparecerá depois guiará a sombra do homem para o abate do seu soberano, Duncan. O Reino é teu; basta que cumpras teu dever de morte, Macbeth. Matar um homem enquanto dorme é a máxima das virtudes para quem necessita cumprir determinações inferiores. Torna-te uno com o Reino, e leva contigo a reminiscência de um tempo em que os cavalheiros honravam os seus soberanos. A sombra pede sangue, e quisera eu que fosse a sombra apenas no sentido junguiano, mas não: ela é concreta. É viva e se distende no mar de sangue cuja nascente o novo rei escancarou.
Foi a tua lady quem criou a tua sombra, pois tu eras demasiado ordinário para projetá-la sozinho. Bons generais são seguidores de ordens, não criadores de novos reinos, mas, quando a mente humana é inebriada por ideias fixas, estas convertem-se em aspirações que engolem a moral e a decência. Seu não cumprimento significaria a derrota do Eu ideal lacaniano. E isto apagaria a vida e a libido suprema. Aquele punhal que apareceu e guiou um homem ambicioso ao regicídio apareceu instantaneamente, infinitesimalmente veloz para a mente física registrá-lo enquanto surgia. E a traição lhe pagou bem, ao menos por um tempo. Pinochet, no Chile, leu seu exemplo ao trair Allende.
Uma anedota curiosa, destas a que meus leitores aos poucos irão se acostumando: anos atrás, eu apresentei algumas óperas a uma querida, completamente leiga no assunto. Mostrei-lhe Don Giovanni, e alguns meses depois Macbeth. Ela preferiu Macbeth. O motivo nunca esquecerei: no Don Giovanni, o protagonista é ainda mais vil, pois nunca sente remorso pelo que faz. Já o rei da Escócia, este perde até o sono, e se desboroa ao contemplar as sombras dos amados que mandou trucidar. Foi uma fala surpreendente para quem esperava uma motivação atinente à música composta.
E por falar em música, é a isto que nosso site se presta, não é?! Pois bem, voltemos às cordas. Verdi escreveu o Macbeth para ser estreado em 1847, em pleno período chamado pelo próprio compositor de “anni di galera”, período que se caracterizou por intenso trabalho sem descanso por parte do compositor. A obra é o primeiro contato de Verdi com William Shakespeare, e viria a ser revigorada em 1865 com algumas adaptações, entre as quais um insípido balé, praxe obrigatória para apresentações francesas, e a célebre ária La luce langue, das melhores páginas do melodrama italiano do século XIX. A ópera tem quatro atos, com libreto de Francesco Maria Piave, sendo os dois primeiros obras-primas absolutas do repertório. Os últimos dois atos ainda caracterizam o gênio verdiano, mas com leve queda na inspiração. Composta no mesmo estilo do seu triunfante Nabucco cinco anos antes, Macbeth já apresenta alguma evolução na análise psicológica dos personagens, abrindo caminho para a guinada radical que Luisa Miller e Rigoletto coroariam poucos anos depois.
Por falar em Nabucco, eu com frequência comparo o Va Pensiero, coro dos Hebreus cativos no terceiro ato desta ópera, ao O gran dio, che ne’ cuori penetri, ao fim do primeiro ato de Macbeth. Este último parece-me nimiamente mais bonito, mais profundo e mais singelo, mas jamais o vi cantado isoladamente, transcendendo o contexto de uma récita ordinária. Se alguém o encontrar, que não hesite em mostrá-lo a este que escreve, e fá-lo-ei um relicário. Mas de faltas de concertati não se morre aqui; o segundo ato também apresenta o suntuoso Sangue a me quell’ombra chiede, que marca o início da derrocada do tirano.

Memorável récita deste concertato é a que nos concedem o barítono Kostas Paskalis e o soprano Josephine Barstow numa apresentação em Glyndebourne em 1972. O fraseio numa respiração paradoxalmente saltitante, mas firme, absolutamente necessária para alcançar todos os agudos no preâmbulo “Si colmi il calice”, é conduzido pela Lady com uma perfeição que o melômano não tem direito a ignorar. Renato Bruson também foi intérprete deveras destacado e dedicado, com sua massa baritonal em conjunto com a voz aveludada. Seu Macbeth em dezembro de 1997 com Maria Guleghina foi exibido no principal canal italiano, Raiuno, em horário nobre. Justo.
A ópera transcorre, o protagonista invoca novamente as exóticas bruxas, e estas o advertem com profecias que o tranquilizam, mas não por muito tempo: logo a floresta de Birnam move-se contra ele, e Macduff, que nasceu de parto cesáreo e que, como tantos, teve a sua família trucidada pelo tirano, enfim consegue se vingar e devolver o Reino a seu herdeiro legítimo, Malcolm, filho de Duncan – o que constitui um raro final feliz em se tratando de óperas verdianas. É em vão que o usurpador consegue aliviar a tensão da iminente morte, desprezando a vida como um conto de um pobre idiota, num típico mecanismo de fuga na negação.
Lembram-se da minha amiga que diminuiu a vileza de Macbeth por sentir este o peso de seus atos? Com a sua amada consorte não é diferente: embalada na ária Una macchia è qui tutora, composta de maneira proposital e adequadamente patética, a cruel dama morre de maneira não totalmente clara, atormentada por visões de sangue nas roupas: o mesmo sangue que ela mandara verter na valentia homicida de quem ascende ao poder.
E assim finda uma das poucas óperas verdianas que não se centram em história de amor ou de desejo entre homem e mulher. Pode ser melodrama, mas meloso não é. A racionalidade utilitária de quem deseja o poder pelo poder não admite que os afetos se expandam à latitude necessária para abrir-se ao mistério do outro. O êxtase da alma que se abre à Eternidade perturbaria a darwiniana adaptação à força do arbítrio. A mais nobre ascensão ao poder dá-se pelo desprezo ao mais nobre dos sentimentos, o amor: Verdi e Shakespeare não se fazem de rogados ao convencer-nos de que nada há de paradoxal nisso.
A ópera será exibida no TMSP (sempre ele!) a partir de 31 de outubro de 2025. Sob direção cênica de Elisa Othake, será exibida em mais seis récitas entre os dias 1º e 09 de novembro, inclusive. A edição será a de 1865, como já explicado no artigo, mas sem o balé composto para Paris (veja aqui todos os detalhes da nova produção). O espetáculo sombrio e inefável que acompanhará a densa atmosfera operística é um chamariz para todas as almas intensas deste mundo. Inclusive a tua, caro leitor.
Foto principal: Facebook (Renato Bruson e Shirley Verrett como Macbeth e Lady Macbeth, Ópera de Paris, 1984).

Bruno Góes nasceu em 1988, é formado em Engenharia e pós-graduado em Filosofia. Já escreveu no site Movimento.com, e fez cursos de piano e violoncelo, este último no conservatório de sua cidade Natal, Passa Quatro. É assíduo interessado em tudo o que concerne a música clássica, com ênfase em compositores de ópera como Wagner, Verdi e Puccini.






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