Orgulho nas partituras: como Britten e Tchaikovsky viveram (e esconderam) o amor em tempos de repressão

Neste sábado, 28 de junho, em que se celebra o Dia do Orgulho LGBTQIA+, o criador do Guia dos Clássicos, Rafael Fonseca, lança uma análise sobre a vida íntima de dois gigantes da música erudita: Benjamin Britten e Piotr Ilitch Tchaikovsky. Dois compositores, dois contextos históricos, e uma mesma verdade: nas entrelinhas das partituras, havia sentimentos silenciados.

Britten viveu no século XX e se destacou como o principal compositor inglês da sua geração. Escreveu obras marcantes, como a ópera da coroação da Rainha Elizabeth II, e teve uma relação afetiva e artística profunda com o tenor Peter Pears. Não era segredo: eles dividiam palco, casa e vida. Há vídeos tocantes dos dois juntos no YouTube, Britten ao piano, Pears interpretando canções de Schubert. A parceria foi tão marcante que, na cidade natal de Britten, existe até hoje um festival de música de câmara batizado com o nome dos dois: Britten-Pears Arts.

Mas nem sempre foi possível amar com liberdade. Cem anos antes, na Rússia czarista, Tchaikovsky viveu sua sexualidade sob sigilo e tensão. Em um país onde a homossexualidade era criminalizada, ele manteve relações com jovens músicos e escreveu cartas a familiares sobre os seus sentimentos, muitas delas escondidas por décadas. Uma dessas relações foi com Yosif Kotek, violinista com quem compartilhou uma viagem à Itália e para quem chegou a compor o seu famoso concerto para violino. Por medo do escândalo, desistiu da homenagem.

Em 1877, pressionado pelas normas sociais da época, Tchaikovsky casou-se com uma admiradora, Antonina Miliukova, um casamento que durou semanas e quase o levou a um colapso. No mesmo ano, iniciou uma troca intensa de cartas com sua patrocinadora, a aristocrata Nadezhda von Meck, que financiou a sua produção artística com uma única exigência: que nunca se encontrassem pessoalmente.

No fim da vida, o compositor se aproximou do sobrinho “Bob” Davydov, a quem dedicou a sua última e mais melancólica obra: a Sinfonia nº 6 – Patética, que termina com um Adagio Lamentoso, desafiando o final triunfante esperado de uma sinfonia. Poucos dias após a estreia, Tchaikovsky morreu. Por muitos anos, especulou-se que o compositor teria cometido suicídio ao contrair cólera de forma proposital, ao beber água contaminada durante um jantar. Documentos revelados a partir dos anos 1990, no entanto, indicam que ele realmente contraiu a doença, em um local sem as devidas condições sanitárias.

“A vida desses compositores mostra que, mesmo em tempos adversos, o afeto encontra formas de se expressar, às vezes publicamente, às vezes nas entrelinhas das partituras. A música sempre foi um espaço onde emoções silenciadas pela sociedade podiam soar com força e beleza”, afirma Rafael Fonseca, criador do Guia dos Clássicos.

Duas histórias, dois tempos, e um mesmo desejo de viver e criar com verdade. Enquanto Britten e Pears puderam transformar amor em música com liberdade, Tchaikovsky compôs sob a sombra do silêncio. Ainda assim, ambos deixaram legados que transcendem o tempo. Porque, como lembra Rafael Fonseca, “a música sempre soube falar do que não se podia dizer em voz alta”.

Rafael Fonseca e o Guia dos Clássicos

Rafael Fonseca é o criador do Guia dos Clássicos, uma plataforma dedicada a tornar a música clássica acessível e relevante para o público contemporâneo. Com quase duas décadas de experiência no cenário musical, Fonseca acredita no poder transformador da música e em como ela pode ser vivida de forma mais humana e consciente: “A música é cultura, afeto e, mais do que tudo, uma ferramenta de desenvolvimento humano”. O Guia dos Clássicos propõe uma escuta que vai além do simples ato de ouvir, convidando os ouvintes a se aprofundarem na história e na interpretação das grandes obras da música clássica.

Benjamin Britten e Piotr Ilitch Tchaikovsky

Imagem: divulgação.