Os encantos de “The Fairy Queen”

A obra de Purcell foi apresentada por Les Arts Florissants, uma das melhores orquestras barrocas da atualidade.

Finalmente, no dia 14 de setembro pudemos assistir, no Teatro Cultura Artística, a um dos concertos líricos mais aguardados do ano em São Paulo: The Fairy Queen, de Henry Purcell (1659-1695), com Les Arts Florissants, a fina flor do barroco mundial.

Até a divulgação do programa on-line, a pergunta era: William Christie virá? Ganhou quem apostou que não. E não era muito difícil de acertar. O espetáculo faz parte de uma turnê que tem percorrido a Europa desde 2023 e, finalmente, chegou à América do Sul. Christie tem dividido a regência desses espetáculos com Paul Agnew. Convenhamos: estamos longe dos centros musicais europeus, o voo é longo, é natural que Agnew, mais novo que Christie, tenha vindo. É claro que queríamos o carisma de William Christie, mas, musicalmente, é um grupo sólido, o estilo de Christie já está impresso não só em Les Arts Florissants, mas também em Agnew, que trabalha com ele há anos. Desse modo, o resultado musical não foi nem um pouco inferior ao que pude conferir no ano passado, no Teatro alla Scala, com Christie à frente do grupo.

Paul Agnew (Foto: Cauê Diniz)

A versão apresentada de The Fairy Queen não é (como não foi no La Scala) a semiópera completa, mas apenas os números musicais. Desse modo, quem foi para assistir a uma ópera, buscando uma narrativa, saiu sem entender nada. Isso porque, típica ópera inglesa do final do século XVII, The Fairy Queen é constituída por uma parte teatral, falada, e uma parte musical, as chamadas masques, que interagem com a ação.

As masques são a versão inglesa do ballet de cour francês e do intermezzo italiano. Como o ballet de cour, as masques eram suntuosas e dançadas, geralmente, por nobres. Já a linha de canto ficava com profissionais. A incorporação dessas peças ao teatro resultou na semiópera ou ópera inglesa.

No caso de The Fairy Queen, o título se refere a Titânia, a rainha das fadas na peça A Midsummer Night’s Dream (Sonho de uma Noite de Verão), de Shakespeare. Isso porque a parte falada é uma adaptação da obra de Shakespeare. As masques são canções ou danças, muitas vezes entoadas por personagens alegóricos, como, por exemplo, as estações do ano.

Em 2009, em Glyndebourne, foi apresentada uma versão completa da obra, com o teatro falado e as masques. A produção teve direção cênica de Jonathan Kent e Christie à frente da Orchestra of the Age of Enlightment. Felizmente a apresentação foi gravada e o vídeo está disponível na Medici.

As diversas gravações de The Fairy Queen que existem em CD, no entanto, como as de Roger Norington, John Eliot Gardiner e do próprio William Christie, são testemunhas de que as masques ganharam vida própria. Embora elas não construam uma narrativa, são canções ligadas por uma linguagem musical e estética, e, o que é mais importante, no caso da obra de Purcell, o conjunto forma uma verdadeira joia musical, puro prazer para o ouvinte.

Após o concerto, ouvi gente falando que foi temendo se entediar com a apresentação de música barroca, mas que, no fim, adorou. No Brasil — onde o Barroco quase inexiste e, quando existe, é, em geral, muito mal executado —, é natural, embora triste, que as pessoas tenham uma ideia totalmente deturpada da música barroca. Existe uma vibração natural, contagiante no gênero.

Justamente por isso, a música barroca dialoga bastante bem com o balé moderno. Não à toa, tem sido frequente a incorporação de dança contemporânea, como o hip-hop, em peças barrocas. Foi assim tanto em The Fairy Queen quanto na recente produção da Opéra de Paris de Les Indes Galantes — que obteve um sucesso tão grande, que ganhou uma versão reduzida para circuitar pelos principais teatros de ópera do mundo (Real de Madri, La Scala…). E, graças aos esforços da Sustenidos e à determinação da dinâmica Andrea Caruso, diretora do Theatro Municipal de São Paulo, entramos na rota desse importante circuito: no final de novembro, a produção, um dos destaques da programação do ano, chegará ao TMSP.

Um dançarino durante The Fairy Queen (Foto: Cauê Diniz)

No caso de The Fairy Queen, o balé ficou por conta da Companhia Käfig, com coreografia de Mourad Merzouki, que também assinou a direção cênica do espetáculo. Merzouki é o fundador da Käfig, companhia de dança que, citando o programa de sala, “busca uma abordagem interdisciplinar do hip-hop, integrando elementos do circo, artes marciais, artes visuais e dança contemporânea, mantendo também uma forte conexão com as raízes sociais e culturais de seus intérpretes”.

O balé funcionou bastante bem na obra, conferindo-lhe vida e trazendo-a ao ritmo da nossa sociedade. Contudo — e tenho a comparação do La Scala — o palco do Cultura Artística é um pouco pequeno para a performance, deixando os dançarinos um tanto espremidos e próximos demais do público. Essa proximidade amplificou o efeito do ruído da dança, principalmente em alguns momentos mais intimistas, como na canção do verão, o que interferiu no resultado musical. Isso tudo, porém, foi amplamente compensado pelo belo efeito produzido nos momentos de maior vigor da música, como nos coros.

Os coros, aliás, eram executados pelos próprios solistas e, em determinados momentos, também pelos bailarinos. Nesse espetáculo completo, dançarinos cantavam e cantores atuavam e dançavam. O conjunto de cantores e dançarinos formava um grupo coeso. Tamanha interação, gerando uma performance viva, atual, que envolve por inteiro os executantes, é uma marca de William Christie e de Les Arts Florissants.

O grupo de jovens solistas foi formado por laureados da 11ª edição (2023) do famoso Le Jardin des Voix, academia de formação criada em 2002 por William Christie, que agora também conta com a codireção de Paul Agnew. Como sabemos, o jardim de Christie sempre dá bons frutos, como, por exemplo, a star Sonya Yoncheva e a incrível Lea Desandre.

Hugo Herman-Wilson e o elenco de The Fairy Queen (Foto: Cauê Diniz)

No campo masculino, destacaram-se as vozes graves: o baixo-barítono Benjamin Schilperoort e, sobretudo, o barítono Hugo Herman-Wilson, que, além de uma voz que se projetava muito bem, teve um ótimo desempenho cênico. Os tenores, que também são de bom nível, foram Rodrigo Carreto e Ilja Aksionov.

O grupo feminino foi formado por três mezzosopranos e uma soprano, todas com vozes leves e brilhantes, vozes livres que correm bem. Paulina Francisco, a única soprano, tem uma voz tão leve que, por vezes, parece um pouco infantil. Dentre as mezzos, as ótimas Georgia Burashko e Rebecca Leggett, apesar do timbre brilhante, exibiram um interessante peso nos graves. O destaque absoluto, porém, veio com a mezzosoprano francesa (que se estivesse escrito “soprano” eu teria aceitado igualmente) Juliette Mey.

Se a apresentação de Les Arts Florissant tivesse sido desastrosa, se todos os números tivessem sido entediantes e mal executados, mesmo assim as duas horas de concerto teriam valido a pena graças aos poucos minutos do lamento O let me ever, ever weep!. O adjetivo magnífico descreve com precisão a interpretação que a canção, com o violino obbligato executado com maestria pelo spalla Emmanuel Resche-Caserta, ganhou na voz de Mey. Foi uma interpretação sensível, em que Mey conseguiu traduzir musicalmente o sentimento expresso pelas palavras; seu fraseado e suas variações foram impecáveis.

Juliette Mey e Emmanuel Resche-Caserta, sob o olhar de William Christie, em O let me ever, ever weep! (Foto retirada do vídeo do YouTube)

Nem é preciso comentar a qualidade musical de Les Arts Florissants: a dinâmica, a precisão, a vivacidade sem exagero, sem disparar no andamento para não ter perigo de o público achar chato. O grupo interpreta a música barroca com naturalidade, com delicadeza, com fluidez. Essa naturalidade, aliás, também é uma marca do canto dos solistas do jardim de Christie. Os efeitos sonoros, como as flautas doces fazendo o canto dos pássaros, foram tão preciosos que, se o leitor me permite um acesso de puritanismo, pareceram-me totalmente dispensáveis os poucos efeitos sonoros que, por vezes, brotavam das caixas de som.

Em resumo, The Fairy Queen com Les Arts Florissants foi um deleite. Que o grupo venha a São Paulo com mais frequência!

Uma das apresentações da turnê foi filmada e está disponível no YouTube:

Um comentário

  1. Como bem pontua a analista, puro deleite. Apresentação que vi por 3 vezes e veria mais, tão rico é o espetáculo juntando orquestra, voz, dança. A alegria ao interpretar as canções joviais,por vezes pungentes, de Purcell, transparece na equipe. Bravo, um dos grandes momentos clássicos do ano.

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