OSPA e Celso Loureiro Chaves levam a “estética do frio” para a sala de concertos

A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) — fundação vinculada à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac-RS) — coloca dois compositores gaúchos em evidência nesta semana. Na sexta-feira, 12 de setembro, o concerto Estética do Frio faz uma homenagem a Celso Loureiro Chaves com três de suas obras, incluindo a inédita Estética do Frio IV. A apresentação tem a regência de Claudia Feres e conta também com solos da soprano Elisa Machado e do violonista Bruno Duarte, na Sala Sinfônica do Complexo Cultural Casa da OSPA, às 20h, com transmissão ao vivo pelo canal da OSPA no Youtube. No sábado, a Série Música de Câmara traz à Sala de Recitais da Casa da OSPA o OrquestraQuê?, que interpreta Avenida Paulista Suíte, estreia do compositor gaúcho e acordeonista do grupo, Arthur de Faria. O recital tem entrada gratuita, por ordem de chegada, e começará às 17h. As informações de cada apresentação são detalhadas a seguir.

Concerto Estética do Frio — Sexta-feira, 12 de setembro, às 20h

O concerto Estética do Frio é uma homenagem da OSPA ao compositor, pianista e professor gaúcho Celso Loureiro Chaves, que completa 75 anos no dia 14 de setembro. Nascido em Porto Alegre, Chaves é um dos nomes mais influentes da música de concerto no Rio Grande do Sul. Graduado em Arquitetura e em Composição pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutor em música pela Universidade de Illinois (EUA), foi professor no curso de Música do Instituto de Artes da UFRGS. Atuou também em programas de rádios gaúchas, como crítico musical e colunista no jornal Zero Hora. Como compositor, lançou grandes obras, como o EP Celso Loureiro Chaves, com Balada para o Avião que Deixa um Rastro de Fumaça no Céu (1980) e Estética do Frio II (2005), e a trilha sonora do filme Anahy de las Misiones (1997), do diretor Sérgio Silva. Em 2014, venceu o Prêmio Açorianos na categoria Melhor Compositor Erudito.

Celso Loureiro Chaves (foto: Maciel Goelzer)

Batizado de Estética do Frio, o concerto da OSPA traz duas obras de Celso Loureiro Chaves que dialogam com uma reflexão de Vitor Ramil. Para o artista pelotense, a milonga seria uma manifestação musical do isolamento gaúcho em relação ao restante do Brasil, que parte do convívio com o clima frio e da aproximação cultural com o Uruguai e a Argentina. O encontro dela com ritmos como o samba e a bossa nova criaria uma forma musical única que representa, ao mesmo tempo, uma identidade regional sulista e também brasileira: a estética do frio.

A aproximação de Celso Chaves com essa forma de pensar a música se deu ainda nos anos 1980, quando fez um arranjo para a canção A paixão de V segundo ele próprio, do disco homônimo lançado por Ramil em 1984, e que já trazia elementos da estética do frio: “No arranjo compus vários fragmentos para orquestra que ficavam jogados sobre a canção, como grafittis, mesmo”, conta Chaves. O conceito foi incorporado a outros trabalhos: “Vitor publicou a primeira formulação da ‘Estética do Frio’ em 1992, na coletânea ‘Nós, os gaúchos’. As reações não foram muito simpáticas e, numa atitude de cumplicidade com o pensamento do Vitor, dei o nome de ‘Estética do Frio’ para minha composição para cordas que tinha sido encomendada por José Pedro Boéssio em 1993”, explica o compositor. Chaves incluiu na música os grafittis sonoros do arranjo de 1984, além de citações diretas às músicas de Vitor e a outros compositores, como Lou Reed, Dmitri Shostakovich e Thelonious Monk. “Nunca discutimos explicitamente a estética do frio, Vitor e eu, mas a temática estava implícita nas nossas colaborações, desde aquela primeira vez em 1984 e nos inúmeros arranjos que fiz para as canções dele em shows com orquestra”, completa.

Essa primeira composição de Chaves em diálogo com Ramil abre o concerto da OSPA no dia 12. Em seguida, a Orquestra realiza a estreia mundial de Estética do Frio IV, composta por Chaves em 2024 especialmente para a OSPA. Segundo o autor, os cinco movimentos da música trazem diferentes instrumentos como protagonistas: os tímpanos, os violoncelos, o trombone, o vibrafone e os clarinetes, que se combinam no quinto e último movimento. A música recorre à intertextualidade para mobilizar uma variedade de referências: Dmitri Shostakovich e Paul Hindemith na música de concerto, Tom Jobim e Caetano Veloso na MPB, Stephen Sondheim na música para musicais, as ragas indianas  de Ravi Shankar e o canto gregoriano, além das pinturas de Diogo Pimentão: “No meio de um bloqueio criativo eu me vi diante de dois quadros do Diogo num museu em Lisboa e, olhando aquelas pinturas e seus traços muito peculiares, surgiu o caminho criativo que me permitiu levar a ‘Estética do Frio IV’ até o seu ponto final”, diz Celso, que considera essencial em seu processo criativo a convivência de referências conflitantes.

O programa ainda traz outra obra de Chaves: Anahy de las Misiones (Música de Cinema), que será executada pela primeira vez ao vivo. A obra foi composta para o filme homônimo do diretor Sérgio Silva, lançado em 1997, com Dira Paes, Marcos Palmeira e Aracy Esteves. Para o concerto, Chaves fez apenas pequenos ajustes à trilha original, que tem um estilo muito diferente de Estética do Frio I e IV: “São dois mundos sonoros, mas é o mesmo compositor”, ressalta.

Na segunda parte do concerto, após o intervalo, a OSPA interpreta a Suíte do Bailado Alfama, do compositor português Joly Braga Santos (1924-1988). Escrita para balé, a música reúne elementos folclóricos portugueses em uma forma simples e despretensiosa, mas ao mesmo tempo dinâmica e divertida, segundo a regente Claudia Feres. Claudia, que assume o comando da OSPA em Estética do Frio, é regente, compositora e diretora artística da Orquestra Municipal de Jundiaí e da Escola de Música de Jundiaí. Mestre em música pela Northwestern University (EUA), dirigiu o projeto Avon Women in Concert e venceu o Concurso de Jovens Regentes da OSPA em 1987. 

O concerto conta ainda com dois solistas: o violonista Bruno Duarte, professor de violão no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e músico premiado no II Concurso Nacional de Violão Fabio Lima e no IV Concurso Internacional Jovens Solistas do Gramado in Concert; e a soprano Elisa Machado, Bacharel em Música pela UFRGS e professora de técnica vocal no Coro Sinfônico da OSPA. Com formação em canto no Conservatório Pablo Komlós da OSPA, Elisa recebeu em 2014 o 1º Prêmio no 12º Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas.

A palestra Notas de Concerto, que precede a apresentação da OSPA, será ministrada pelo próprio Celso Loureiro Chaves. Ela acontece às 19h, na Sala de Recitais, com entrada incluída no ingresso para o concerto, e conta também com transmissão online pelo canal da OSPA no Youtube. O compositor abordará aspectos da sua trajetória e também a de Joly Braga Santos e sua obra Suíte do bailado Alfama.

Recital Música de Câmara: OrquestraQuê? — Sábado, 13 de setembro, às 17h

OrquestraQuê? (foto: Luiza Piffero)

No sábado, dia 13 de setembro, a OSPA apresenta o recital da Série Música de Câmara com o OrquestraQuê?, novo grupo formado pelos músicos Arthur de Faria (acordeon), Sabryna Pinheiro (trombone), Soledad Yaya (harpa) e Tais Nascimento (tuba). O programa tem obras de seis compositores de diferentes épocas, estilos e locais: Georg Philipp Telemann, Marcel Grandjany, Sy Brandon, Heitor Villa-Lobos, Astor Piazzolla, e do próprio Arthur de Faria, reunindo instrumentos que raramente dividem o mesmo palco em recitais.

O programa é iniciado com a Fantasia nº 3, em Dó Menor, obra barroca do compositor alemão Georg Philipp Telemann (1681-1787). Em seguida, com Rhapsody, do compositor franco-americano Marcel Grandjany (1891-1975), o recital dá destaque à harpa. A música contemporânea ganha espaço com Negotiations, composta em 2008 pelo americano Sy Brandon e descrita pela trombonista Sabryna Faria como uma espécie de “teatro sonoro”, no qual os movimentos “dramatizam, com humor e inteligência, os embates e acordos da vida em sociedade”. Já a delicada miniatura O Canto do Cisne Negro, do brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887–1959), é “uma despedida lírica onde a melodia se suspende em melancolia, silêncio e eternidade”, segundo Sabryna.

O destaque do programa fica por conta da estreia de Avenida Paulista Suíte, de Arthur de Faria. Composta especialmente para a OrquestraQuê?, a obra de 2025 evoca tanto o caos quanto a poesia da vida urbana. Concluindo a apresentação, Ave Maria e Oblivion, do argentino Astor Piazzolla (1921-1992), exibem arranjos inéditos também realizados por Arthur.


Concerto Estética do Frio

Quando: 12 de setembro, sexta-feira, às 20h
Palestra Notas de Concerto: às 19h, com Celso Loureiro Chaves
Onde: Complexo Cultural Casa da OSPA (CAFF – Av. Borges de Medeiros, 1.501, Porto Alegre, RS)
Ingressos: de R$ 10 a R$ 50
Descontos: ingresso solidário (com doação de 1kg de alimento), clientes Banrisul, Amigo OSPA, associados AAMACRS, sócio do Clube do Assinante RBS, idoso, doador de  sangue, pessoa com deficiência e acompanhante, estudante, jovem até 15 anos e ID Jovem
Bilheteria: sympla.com.br/casadaospa ou no Complexo Cultural Casa da OSPA no dia do concerto, das 15h às 20h
Estacionamento: gratuito, no local
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 6 anos
Transmissão ao vivo: às 19h (Notas de Concerto) e às 20h (concerto) nocanal da OSPA no YouTube

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Recital Série Música de Câmara – OrquestraQuê?

Quando: 13 de setembro, sábado, às 17h
Onde: Sala de Recitais da Casa da OSPA (CAFF – Av. Borges de Medeiros, 1.501, Porto Alegre, RS)
Ingressos: entrada franca, por ordem de chegada
Estacionamento: gratuito, no local
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 6 anos


Foto principal: divulgação (na foto, a regente Claudia Feres).