Paulo Esper na Conferência de Italofonia, em Roma: uma vida dedicada à Ópera.

A I Conferenza Internazionale dell’Italofonia ocorreu em 18 de novembro e foi organizada pelo Ministério das Relações Exteriores e de Cooperação Internacional italiano. Esper foi convidado “em virtude de seus profundos laços com a Itália”.

No último dia 18 de novembro, foi realizada, em Roma, a I Conferenza Internazionale dell’Italofonia. Como o nome indica, a conferência, organizada pelo Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália e pela Sociedade Dante Alighieri, teve como tema a língua italiana, e seu objetivo foi dar vida a uma Comunidade de Italofonia.

Paulo Esper e Careca

O Brasil teve dois ilustres representantes, um do futebol, uma das marcas nacionais, e outro da ópera, esse importante legado da imigração italiana, sobretudo em São Paulo. Foram eles o jogador Careca — que além de ter passado por diversos clubes, jogou na Seleção Brasileira (de 1982 a 1993) e no Napoli (1987-1993), da Itália — e Paulo Abrão Esper, diretor da Cia Ópera São Paulo.

Como o nosso assunto é a ópera, e não o esporte, vou me abster de qualquer comentário a respeito do futebol, assunto que ignoro quase por completo — mas não a ponto de não me orgulhar de Careca, pertencente a uma geração que me dava motivos para torcer apaixonadamente pela nossa Seleção.

A Conferência

O evento teve início na noite do dia 17, com um jantar de boas-vindas no Palazzo Colonna. A conferência propriamente dita ocorreu no dia 18, na Villa Madama. Sem dúvida, os locais escolhidos já proporcionaram aos participantes uma inserção nesse ambiente onde a rica herança histórica do Renascimento e do Barroco faz reverberar a língua italiana.

A história do Palazzo Colonna remonta ao século XIV, mas ele passou por diversas transformações ao longo dos séculos. No século XVII, passou a ser um suntuoso palácio barroco. Foi nesse período que foi construída a sua galeria, que é aberta ao público e já entrou na minha lista de lugares a serem visitados na próxima viagem a Roma.

A Villa Madama, por sua vez, cujo nome se deve a Madama Margarida de Parma (1522-1586), filha do imperador Carlos V, não pode entrar no meu roteiro: ela pertence ao Ministério das Relações Exteriores. O projeto foi iniciado em 1518 por ninguém menos que Raffaello, no entanto, com a morte do artista em 1520, foi constituída uma comissão para cuidar do término e da execução do projeto, dentre os quais Giulio Romano, herdeiro do atelier de Rafaello, que liderou a decoração.

Paulo Esper no Palazzo Colonna
Renato Mosca, embaixador do Brasil na Itália, e Paulo Esper na Villa Madama

A conferência contou com a presença de diversas autoridades italianas e estrangeiras, como os ministros italianos Antonio Tajani (Relações Exteriores e Cooperação Internacional) e Anna Maria Bernini (Universidade e Pesquisa), e ministros e secretários de vários países: Suíça, Eslovênia, Kosovo, San Marino, Romênia, Somália, Malta, Albânia, Croácia, Montenegro, Bulgária, Macedônia do Norte, Grécia e França. Renato Mosca, Embaixador do Brasil na Itália, também esteve presente. Além deles, a Primeira-Ministra da Itália, Giorgia Meloni, e a Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, participaram por videoconferência. Até o Papa Leão XIV enviou uma mensagem.

Após as exposições das autoridades, chegou a vez de três mesas redondas: A italofonia como comunidade de valores e diálogo; A italofonia como motor de desenvolvimento e crescimento; e A italofonia como diplomacia cultural. Dessas mesas, participaram pessoas das mais variadas áreas. No campo da ópera, além de Esper, o italiano Paolo Petrocelli, diretor da Ópera de Dubai, participou, por vídeo, da primeira mesa.

Eram italianos que viviam e atuavam no exterior, estrangeiros que fizeram a sua vida na Itália ou estrangeiros que, mesmo sem estar na Itália, desenvolveram alguma ligação com cultura e a língua italianas. Foi esse o caso de Paulo Esper, convidado “em virtude de seus profundos laços com a Itália”. Ele integrou a terceira mesa.

“Profundos laços com a Itália”

Desde 1997, quando Paulo Esper foi para a Itália pela primeira vez, seus laços com o país e com o seu povo têm se tornado cada vez mais estreitos. Naturalmente, a ópera italiana sempre está na origem desses laços, que se estendem do âmbito pessoal ao profissional.

Não faltam exemplos dos frutos desses profundos laços de Esper com a Itália.

A ópera Italiana Brasil afora

Um exemplo é a turnê A Caminho do Interior — Ópera, realizada pelo Consulado Geral da Itália em São Paulo e pelo Istituto Italiano di Cultura San Paolo, que, com a direção artística de Paulo Esper, leva a ópera italiana ao interior de São Paulo. A turnê nasceu em 2020, em plena pandemia, por iniciativa do então cônsul geral Filippo La Rosa e de Livia Satullo, sua adjunta.

Graças ao apoio de Domenico Fornara, atual cônsul geral, que tem frisado a importância da divulgação da ópera italiana no Brasil, e de sua adjunta, Marianna Haddad, o projeto, que em 2025 completou a sua sexta edição, está crescendo a cada ano. A turnê tem contado, ainda, com o apoio do diretor geral do Istituto Italiano di Cultura San Paolo, Lillo Teodoro Guarneri, e de sua vice, Margherita Marziali, bem como de Marília Marton, Secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, e da APAA — Associação Paulista dos Amigos da Arte.

Na conferência, Esper comentou a respeito de A Caminho do Interior: “O meu grande prazer é levar a ópera a pessoas que não frequentam o teatro, a lugares onde não se faz ópera. Uma vez, uma senhora de sandálias Havaianas chegou até nós chorando e dizendo ‘Eu achava que isso existia só na televisão’. Isso, para mim, é mais gratificante do que fazer ópera em São Paulo, para quem está acostumado a ir ao teatro”.

Desde 2024, Paulo Esper passou a levar a ópera italiana além dos limites de São Paulo. Com o apoio do Istituto Italiano di Cultura Rio de Janeiro e de seu diretor geral, Marco Marica, Esper já produziu dois espetáculos na capital carioca: a Gala Rossini (2024), com cantores egressos da Academia do Rossini Opera Festival, e a Opera Gala (2025), na qual se apresentaram vencedores de concursos de canto lírico.

O centenário de Renata Tebaldi

Em 2022, ano do centenário da grande soprano italiana Renata Tebaldi, Esper foi convidado, pela Fundação Museu Renata Tebaldi, de Busseto, a participar do Comitê Internacional Tebaldi100. E a sorte foi nossa: em parceria com a Sustenidos e o apoio de Andrea Caruso, diretora do Theatro Municipal de São Paulo, foi realizada uma bela gala com a Orquestra Sinfônica Municipal, sob a regência de Roberto Minczuk e com as vozes do tenor italiano Marco Berti, do barítono brasileiro Rodolfo Giugliani e da impecável soprano italiana Maria Pia Piscitelli.

Reconhecimento dos serviços prestados à ópera italiana

Também em 2022, Esper foi condecorado com o título de Cavaliere dell’Ordine della Stella d’Italia, outorgado pelo presidente italiano, Sergio Mattarella, em razão dos serviços prestados à ópera italiana no Brasil. O título foi entregue pelo cônsul geral Domenico Fornara e por Livia Satullo, cônsul adjunta na época.

Se essa foi a mais importante, não foi a única condecoração que Esper recebeu de mãos italianas. Em 2023, a “promoção da ópera italiana no Brasil” também lhe rendeu uma medalha dos Amici della Lirica Beniamino Gigli, em Roma. A lista de condecorações inclui, ainda, os prêmios Giuseppe di Stefano, Vincenzo Bellini (Catania) e Maria Callas (Sirmione), bem como a Medalha Renata Tebaldi (República de San Marino), entregue no ano em que se celebrava o centenário da morte de Puccini.

Além disso, Esper já participou mais de quarenta vezes de bancas de diversos concursos de canto na Europa, principalmente na Itália. Dentre eles, cito Voci Verdiani, em Busseto, Fiorenza Cedolins, Marcello Giordani (Fano) e Renata Tebaldi, na República de San Marino. Atualmente, é colaborador internacional do Concurso Riccardo Zandonai, em Riva del Garda, do qual tem participado como jurado. Fora da Itália, vale citar Jaume Aragall, em Sabadell, Tenor Viñas, em Barcelona, e o Concurso de Canto de Verviers, na Bélgica.

O carisma e o canto

Carismático, simpático, assim que tomou a palavra, Esper conquistou o numeroso público que assistia às conferências no Palazzo Madama. E o fez por meio daquilo que ele mais ama e que o acompanha ao longo dos seus quarenta anos de carreira: do canto. “Eu preferia cantar”, falou, em tom de brincadeira, com seu italiano fluente, e cantou um verso de Nessun Dorma, de Turandot, de Puccini — que foi o título da turnê A Caminho do Interior deste ano, em homenagem a Luciano Pavarotti, nos 90 anos do seu nascimento.

Foi o canto, sobretudo o canto em italiano, a ópera italiana, que fez com que esse descendente de libaneses e espanhóis, natural de Jacareí, no interior de São Paulo, saísse da sua cidade, deixasse a sua família, à qual é fortemente ligado, e fosse estudar canto em Barcelona. E foi lá que participou do Concurso Tenor Viñas e ganhou uma bolsa para estudar por duas semanas com o célebre barítono italiano Gino Bechi, que fazia parte da banca.

A Cia Ópera São Paulo: 35 temporadas

Como Esper contou em sua exposição, foi Bechi quem lhe deu a sugestão de juntar jovens cantores, como ele próprio havia feito em Florença, e criar uma companhia de ópera no Brasil. A ideia era fazer espetáculos fora dos grandes teatros.

E assim foi feito. Em 1988, quando voltou, após seis meses de estudo na Europa, Esper começou a produzir eventos em Jacareí, no projeto chamado Música Jacareí. E a notícia a respeito dos eventos musicais começou a se espalhar pelo Vale do Paraíba e pelo litoral norte: os limites de Jacareí começaram a ficar pequenos para Esper, que passou a levar a música a outras cidades do Estado. Foi assim que o projeto Música Jacareí virou a Cia Ópera São Paulo, que teve, em 1991, a sua primeira temporada.

A temporada 2025, portanto, foi a 35ª da Cia Ópera São Paulo. Esse marco foi comemorado com um espetáculo da Séria Grandes Vozes: a Gala de Ópera Italiana, que, em agosto, reuniu os italianos Simone Piazzola, Laura Verrecchia e Greta Cipriani, com Daniel Gonçalves ao piano, no Theatro Municipal de São Paulo. Mais uma parceria com a Sustenidos, com o Consulado Geral da Itália em São Paulo e com o Istituto Italiano di Cultura San Paolo. E, como sempre, com o teatro lotado e o público vibrando com a ópera italiana.

Simone Piazzola (foto: Rafael Salvador)
Daniel Gonçalves, Greta Cipriani, Paulo Esper, Laura Verrecchia e Simone Piazzola (Foto: José Luiz)

Quarenta anos de carreira e dois mil espetáculos

Mas as comemorações — e as efemérides — não pararam por aí. No final da mesma semana da Gala, subiu ao palco do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, e do Teatro Municipal de Santo André, mais um espetáculo da Cia Ópera São Paulo com direção artística de Paulo Esper: a Trilogia Verdiana. O ousado espetáculo, inédito na América Latina, reuniu, em uma única noite, os atos finais de Rigoletto, Il Trovatore e La Traviata.

A estreia da Trilogia foi um marco nos 40 anos de carreira de Esper: foi o seu espetáculo número 2000. Antes da primeira récita, Esper foi homenageado por Dyra Oliveira, diretora de arte e cultura, e Gláucio Lima Franca, diretor geral, ambos da APAA, pela cônsul adjunta da Itália, Marianna Haddad, e pelo amigo e patrono da Cia Ópera, Antonio Roque Citadini.

A Trilogia Verdiana foi mais um fruto da ligação de Paulo Esper com a Itália. Isso porque ela fez parte do projeto A Caminho do Interior, do Consulado e do Istituto, em parceria com a APAA e com a Orquestra Sinfônica de Santo André. Abel Rocha, maestro titular da Sinfônica de Santo André, assinou a direção musical, enquanto a direção cênica ficou com o italiano Davide Garattini Raimondi. O elenco foi formado por: Nathália Serrano, Joyce Martins, Richard Bauer, Ariel Bernardi, Vinicius Atique, Thayana Roverso, Daniel Umbelino, Anita Andreotti, Rodolfo Giugliani, Raquel Paulin, Alan Faria e Gianlucca Braghin.

Marianna Haddad, Paulo Esper, Dyra Oliveira, Roque Citadini e Gláucio Franca (Foto: Adriano Escanhuela)
Paulo Esper, Abel Rocha, Davide e o elenco da Trilogia Verdiana (Foto: Adriano Escanhuela)

E qual foi o espetáculo número 1 de Esper? Foi há quarenta anos — ainda nem havia a Cia Ópera, ele tinha apenas 17 anos —, quando foi o marinheiro na ópera Dido and Aeneas, de Henry Purcell, no Theatro Municipal de São Paulo. Desse dia em diante, Esper não parou de computar espetáculos, seja como cantor, como produtor ou como parceiro. Que venham os três mil!

O Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas

Em 1993, Paulo Esper criou o Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas, do qual é o diretor geral e artístico. A escolha do nome de Maria Callas foi natural: o primeiro disco que Esper comprara, dez anos antes de criar o concurso, foi Lucia di Lammermoor, de Donizetti, com Callas no papel-título. A inconfundível voz da soprano e a sua intensa dramaticidade capturaram Esper desde a primeira ária. O fascínio provocado pela descoberta de Callas deixou nele uma marca que está viva até hoje.

Em suas primeiras duas décadas de existência, o Concurso Maria Callas foi bianual, mas em 2013 passou a ser anual. Desde a primeira edição e durante muitos anos, Esper teve a seu lado a pianista Maria Aparecida Rasetti, a “Cidinha”, e sua saudosa tia, a soprano Dalva Esper Nader. Em 1997, o concurso estava apenas na terceira edição, e Esper já trouxe o primeiro grande (imenso!) nome internacional: a soprano Magda Olivero. Claro, um grande nome italiano.

Magda Olivero e Paulo Esper (1997)
Na foto, Paulo Esper, a cônsul adjunta do Uruguai, Raquel Pierotti e Marília Marton.

Na edição seguinte, em 1999, foi a vez de Fedora Barbieri. E o episódio envolvendo a vinda da grande mezzosoprano italiana ilustra bem a determinação de Esper, que não mede esforços para que os seus projetos prosperem. Às vésperas do concurso, houve um grande alagamento em São Paulo, com direito a carros submersos e pessoas afogadas no Túnel do Anhangabaú. O tragédia teve repercussão internacional. Assustada e amedrontada, Barbieri avisou que não viria mais. Esper não teve dúvida: faltando uma semana para o concurso, pegou um avião, foi até Florença e, de joelhos, com um grande buquê de flores nos braços, bateu na porta da diva. Claro, ela reconsiderou e, na semana seguinte, estava em São Paulo para participar da banca do Concurso Maria Callas.

Além de grandes cantores, o júri do concurso tem contado com importantes diretores de teatro, críticos e editores de revistas internacionais especializadas em ópera. Nessa última categoria, cito o francês Richard Martet, o espanhol Fernando Sans Rivière e o italiano Sabino Lenoci.

Ao longo dos anos, além do apoio de órgãos governamentais, o Concurso Maria Callas foi ganhando parceiros também no setor privado, como a Cultura Artística, o Rotary Club de Jacareí e o Hotel Toriba, que promove a série Toriba Musical, para a qual Esper produz alguns espetáculos.

Com mais de 30 anos e gozando de plena saúde, o Concurso, que conta com a coordenação de Alberto Marcondes, já deu a largada para a sua 24ª edição. Ela será realizada de 15 a 22 de março de 2026, em São Paulo e em Jacareí.

A Série Grandes Vozes

Foi em 1997, com a vinda de Olivero, que nasceu a Série Grandes Vozes, que, ao longo desses quase trinta anos, tem trazido os mais importantes nomes da cena lírica internacional (e também nacional). Alguns participam da banca do Callas, ou ministram masterclasses, ou, para o deleite do público, se apresentam em recitais, galas ou mesmo óperas. Para citar apenas alguns exemplos de cantores internacionais, já vieram Virginia Zeani, Fiorenza Cossoto, Fedora Barbieri, Luigi Alva, Jaume Aragall, Enzo Dara, Evgeny Nesterenko, Elena Obraztsova, Raul Gimenez, Mara Zampieri, Bruna Baglioni, Luis Lima, Giovanna Casolla, Maria Bayo, Carlo Colombara, Giuseppe Sabbatini, Mariella Devia, Fiorenza Cedolins, Renato Bruson, Juan Pons, Dimitra Theodossiou, Katia Ricciarelli, Sophie Koch, Ernesto Palacio, Patrizia Cioffi, dentre muitos outros, além dos já mencionados acima, que se apresentaram recentemente em São Paulo.

A força da ópera e da cultura italianas

Na conferência, Esper apontou a força da cultura italiana em São Paulo, cidade que recebeu grande número de imigrantes italianos. Observou que, no início do século passado, as óperas chegavam a São Paulo poucos meses após a estreia mundial. Citou como exemplo Tosca, de Puccini, e Cavalleria Rusticana, de Mascagni. Salientou, ainda, a força da língua italiana, lembrando que mesmo as óperas não italianas chegavam a São Paulo traduzidas para o italiano. Foi o caso de Hamlet, de Thomas, com a qual o Theatro Municipal de São Paulo foi inaugurado, em 1911. Ela foi cantada em italiano, com o grande barítono italiano Titta Ruffo no papel-título.

Essa lembrança foi muito bem-recebida pelo arqueólogo, escritor e apresentador de televisão Umberto Broccoli, que, em sua exposição, cumprimentou Esper e reforçou a importância da ópera, difundida ao longo de décadas pelas ondas do rádio, como propagadora da língua italiana.

O trabalho de Esper, no entanto, não se restringe à ópera Italiana.

Um olhar para a ópera no Brasil

O Encontro de Ópera Brasileira

Enganou-se, porém, quem pensava que Paulo Esper só se interessava pela Itália ou que o seu espírito criativo e empreendedor haviam se acomodado. No ano passado, ele iniciou um novo projeto: o Encontro de Ópera Brasileira: passado, presente, futuro. Realizado no Teatro Estadual de Araras, em parceria com a APAA, o Encontro tem por objetivo fazer um balanço da criação operística no Brasil, especialmente no que diz respeito às composições mais recentes — mas sem deixar de lado aquelas antigas e, em geral, esquecidas. Graças à parceria com a Sustenidos, que tem Alessandra Costa como diretora executiva, o primeiro encontro foi aberto com a ópera A Noite de São João (1860), de Elias Álvares Lobo sobre libreto de José de Alencar. O encerramento, após um dia de discussões e debates, ficou por conta de um recital com composições contemporâneas.

Neste ano, a segunda edição do encontro recebeu a versão pocket de Navalha na Carne, composta por Leonardo Martinelli a partir do texto de Plínio Marcos (1935-1999), que estaria completando 90 anos. O encerramento ficou por conta de O Menino e a Liberdade, com música de Ronaldo Miranda e um libreto de Jorge Coli baseado na crônica homônima de Paulo Bomfim (1926-2019), cujo centenário será celebrado no ano que vem.

Se Não É Agudo, É Grave — Encontro de Gerações na Ópera

No início deste ano, em mais uma frutífera parceria com a APAA, Esper deu a largada para um novo projeto, intitulado Se Não É Agudo, É Grave — Encontro de Gerações na Ópera. Trata-se de uma série de ciclos em que jovens cantores líricos têm a oportunidade de trabalhar trechos de uma ópera com um artista brasileiro já experiente e consagrado — um cantor que passa a integrar a Série Grandes Vozes Nacionais. Cada ciclo é constituído por cinco masterclasses e um recital. As masterclasses e os recitais ocorrem sempre no Teatro Sérgio Cardoso.

Até agora, já tivemos Dido and Aeneas, de Purcell, preparada por Adelia Issa e apresentada na íntegra, além de trechos de Carmen (Bizet), com a preparação de Céline Imbert, Il Barbiere di Siviglia (Rossini), com Inácio de Nonno, El Niño Judío (Luna), com Mauro Wrona, Fosca (Carlos Gomes), com Leila Guimarães, e Salvator Rosa (Carlos Gomes), com Eduardo Janho-Abumrad. Encerrando a sério de ciclos de 2025, em dezembro, será a vez de Werther, de Massenet, com Fernando Portari.

Além de proporcionar essa transmissão de conhecimento de cantores experientes para os mais jovens, os ciclos criaram mais uma importante oportunidade para que os jovens se apresentem. Cantor precisa de estudo, mas também precisa de palco. Nada substitui a experiência vivida no palco. A proliferação de espaços para que os cantores se apresentem é fundamental para o desenvolvimento do canto lírico no Brasil.

Para quem, como eu, tem acompanhado o projeto desde o início, tem sido gratificante observar a resposta dos jovens artistas e do público, que cresce a cada récita.

Dyra Oliveira, Adelia Issa, Mauro Wrona, Leila Guimarães e Paulo Esper (Foto: Adriano Escanhuela)

Humildade e gratidão

Enquanto conversávamos a respeito desse importante evento em Roma, Esper me passava, de memória, a lista de algumas premiações e condecorações que recebeu ao longo da carreira. Apesar de o nosso foco ser a sua relação com a Itália, ele começou a lista pelas condecorações recebidas em sua Jacareí. Mesmo após ter passado por dois palácios, em Roma, e dividido a mesa com personalidades do mundo inteiro, sua cidade natal e o reconhecimento que recebe dos seus conterrâneos continua a ter uma enorme importância para ele. Não à toa, só neste ano, um numeroso grupo de amigos e familiares de Jacareí veio três vezes a São Paulo: na abertura do Concurso Maria Callas, na Gala de Ópera Italiana e na Trilogia Verdiana, seu espetáculo 2000.

Por isso, não posso deixar de citar que, além de ser um Cidadão Benemérito de Jacareí, Paulo Esper já foi contemplado, na cidade, com os troféus Nogueira da Gama e Darcy Reis, além da Medalha de Honra do Rotary de Jacareí, do qual ele é um membro presente e atuante.

Foi em Jacareí que nasceu o Concurso Maria Callas e é lá que, até hoje, com o apoio da Prefeitura, por meio da Fundação Cultural de Jacarehy José Maria de Abreu, são realizados a final e o primeiro recital dos vencedores (dentre outros eventos do Festival Callas). É lá que está a Associação Amigos da Ópera de Jacareí, da qual Paulo Esper é diretor geral e artístico.

Não há forma melhor de terminar esse texto do que citando o final da fala de Paulo Esper na I Conferenza Internazionale dell’Italofonia:

A ópera é a minha vida. É uma força da natureza levar a língua italiana por meio da música, da ópera. Agradeço muito a Deus e a todos que me dão esse presente, porque é realmente um presente trabalhar com a ópera.


Na foto principal, Paulo Esper durante a sua fala na I Conferenza Internazionale dell’Italofonia.

3 comentários

  1. Belíssimo artigo sobre a importância de Paulo Esper no Cenário Lírico Nacional!! Fabiana prestou uma linda homenagem a quem realmente a merece!!!Acrescenta-se o fato da mesma ser uma criatura ,que além de culta e dedicada, ser uma profunda admiradora que se esmera em cultivar e incentivar o canto lírico e a Opera no Brasil !! Tive o prazer de conhecê-la e fiquei feliz em encontrar alguém tão simples e ao mesmo tempo tão sofisticada e amante das artes!! Bravo Paulo!! Você é parte integrante ao propiciar que a Opera vá em frente em nosso país!!!!Parabéns por suas realizações e tantos prêmios recebidos por sua dedicação e amor à arte!!!!! ( Leila Guimarães.)

  2. Sempre propaguei “aos quatro ventos” a minha admiração pelo meu querido amigo Paulo Esper.
    Desde que nos conhecemos, muitos anos atrás, sua criatividade em elaborar projetos que favoreciam cantores, assim como a própria Ópera, literalmente me encantou e continua a encantar.
    O Concurso de Canto “Maria Callas”, o qual preside, tem um diferencial maravilhoso: Paulo oferece oportunidade de trabalho aos premiados. Isso é absolutamente essencial para o início de suas carreiras.
    Pensando-se que os projetos existentes apenas teriam sua continuidade, eis que surge o projeto “Se não é agudo é grave”, do qual também fiz parte, com grande satisfação: mais um projeto que favorece os jovens artistas em início de carreira! Todos os cantores líricos devem respeito a esse empreendedor que é Paulo Esper, justamente convidado para fazer parte da Conferência de Italofonia,em Roma, representando o Brasil. Bravo, meu amigo!

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