O romance Cem Anos de Solidão, de Gabo Márquez, inicia-se com uma lembrança do coronel Aureliano Buendía: a tarde remota em que seu pai o levara a conhecer o gelo. Pois eu também lembro a tarde remota em que meu pai levou-me a conhecer a ópera. E, pasmem, a protagonista no palco era: mamãe!
Eu cresci ouvindo música clássica em casa. Com sete anos, já me imaginava diretor de orquestra, e Verdi, Wagner e Puccini eram nomes quase tão familiares a meus ouvidos quanto os de Marcus e Leila, meus pais. Em meus deleites infantis, eu acreditava que a música surgisse magicamente a partir da batuta do maestro, e não da orquestra. Há uma famosa cena da ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi (compositor que será tema de outro artigo meu em breve, by the way), em que o rei protagonista blasfema ao dizer-se Deus, e um raio do alto cai em sua cabeça como punição, jogando-o ao chão e destronando-o. Perdi a conta de quantas vezes eu simulava esta cena no sofá de minha casa em Milão, ao deixar-me cair de cara nas macias almofadas italianas.
Não sou especialista em educação infantil, portanto não desejo que minhas palavras aqui sejam tomadas como orientação formal, mas há certas verdades claras o suficiente para eu não temer afirmá-las. Por exemplo: eu sou evidência viva, embora anedótica, do quão importante é a construção de um imaginário saudável em nossos infantes. Sendo mais inclinadas à fantasia e à magia, as crianças podem embrenhar-se na complexidade dos sons que a música clássica oferece, dando-lhes significados particulares e criativos. Em óperas, particularmente, a teatralidade forma um trabalho de arte completo ao unir a música, a palavra e a cena. Richard Wagner chamava essa interdisciplinaridade Gesamtkunstwerk: arte total.
Na legislação nacional (Lei n. 9394, de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação), o ensino de artes é componente curricular obrigatório da educação básica (Art. 26,§2), e a música é linguagem integrante deste componente curricular (Art. 26, §6), mas está longe de isso ser suficiente, se não houver um ambiente cultural propício para tal. As mentes e os corações não se forjam nas leis, mas nas conversas atravessadas de corredor, nos luaus da sexta-feira, nos programas e nos livros a que se tem acesso. A colaboração entre o oficial e o não oficial deve ser sincrônica e harmoniosa como uma sinfonia de Mozart. A educação é um conjunto completo, sendo a música um de seus coroamentos.
É bem verdade que não há comprovação científica de diversos efeitos alardeados da música clássica sobre supostos aumentos na inteligência, o mais famoso destes sendo o “efeito Mozart”. Não obstante, a sofisticação harmônica é percebida pela criança como fonte inesgotável de combinações assim como num mosaico, ajudando a formar imagens que lhe darão um senso de completude. A frequência sonora, medida em Hz, responsável pela diferença entre as notas, e os harmônicos, que são frequências secundárias que formam o timbre, assimilam-se num conjunto de ondas melódicas que, em conjunto com os aspectos culturais que a “tábula-rasa” infantil ainda engatinha para absorver, compõem uma memória única. Isto contribui também para a versatilidade deste público não somente na absorção, mas também na produção do conteúdo.
Assim sendo, não surpreende que meninos e meninas participem com frequência de óperas consagradas, usualmente em passagens de tonalidade maior e diminutas, porém significativas, É o caso do pastorzinho que abre o terceiro ato da Tosca, de Giacomo Puccini, num Andante Sostenuto em Mi maior.
Então, quando nossos pequenos são protagonistas, e ganham edição no Theatro Municipal de São Paulo, mesmo que interpretados por adultos, convém dar uma conferida sem delongas! A partir de 10 de outubro, estará em cartaz a ópera João e Maria (Hänsel und Gretel), baseada no famoso conto dos irmãos Grimm. Trata-se de uma joia composta por Engelbert Humperdinck, sob libreto de Adelheide Wetter, irmã do compositor, e que estreou em dezembro de 1893 sob a batuta do lendário Richard Strauss. Musicalmente de inspiração wagneriana e ancorada no gosto alemão de longa data por histórias de fantasia e mitos dos quais o próprio Wagner serviu-se décadas antes, a felicidade imaginativa vai longe, alimentando um mundo encantado onde drama e comédia intercalam-se num rebuliço de ternura. Não se enganem: é uma ópera para todas as idades.
Já repararam que para músicas do repertório popular é muito mais difícil manter-se no repertório? Principalmente quando falamos de grandes hits atuais: quem consegue garantir que as letras na boca de todos hoje não serão esquecidas amanhã? As grandes marés que sinalizam a liquidez de nossos tempos, conforme apontava Zygmunt Bauman, têm amplitude maior do que no passado, devido à interconectividade, mas duração menor, tendo em conta o tsunami informacional que nos obriga a renovar a atenção quase pavlovianamente. Neste cenário de efemeridades obrigatórias, a música clássica faz honrosa resistência. Suas ondas de interesse duram séculos, com variadas intensidades, facilitando a assimilação duradoura, sendo por isto uma sugestão para começarmos desde cedo a afinarmos nossos ouvidos para ritmos mais elaborados e melodias elegantes. E, se há uma ópera em que não falta elegância, esta é João e Maria.
A ópera será exibida nas datas de 10, 11 (dois horários) e 12 (dois horários) de outubro, Dia das Crianças. A direção geral é de Muriel Matalon, e participa a Orquestra Experimental de Repertório. Vá, e leve teu pequeno!
Arte: site do TMSP.

Bruno Góes nasceu em 1988, é formado em Engenharia e pós-graduado em Filosofia. Já escreveu no site Movimento.com, e fez cursos de piano e violoncelo, este último no conservatório de sua cidade Natal, Passa Quatro. É assíduo interessado em tudo o que concerne a música clássica, com ênfase em compositores de ópera como Wagner, Verdi e Puccini.





