É de sabedoria popular que os melhores presentes são quase sempre surpresas. O efeito da descoberta sempre vem nos lembrar de que a vida é um tufão que age com lógica própria, inescrutável. Na música, particularmente, é quase um reflexo condicionado reagir com empolgação quando um novo espetáculo que se ama é anunciado. E não poderia haver reação da qual menos se arrepender. Sempre será assim.
Pois bem, com grata surpresa fui informado ainda no ano passado de que o Theatro Municipal de São Paulo exibirá a ópera Porgy and Bess, de George Gershwin, neste mês de setembro. O libreto é assinado por Ira Gershwin, irmão do compositor, e por DuBose Heyward, autor da peça Porgy, na qual nosso espetáculo se baseou. A ópera estreou em 1935, dois anos antes da morte de George, o qual soube como ninguém pintar com sons a vida americana dos primórdios do século XX, notadamente a da população negra. Se a História tem algo a nos ensinar, não esqueçamos o triste apartheid racial imposto pelas leis Jim Crow daquele período. Explorando com perfeição a complementaridade entre os cânones da ópera tradicional e a música folclórica americana, que atinge seu píncaro nos spirituals, a ópera é uma precursora dos musicais modernos americanos, de Hamilton ao Fantasma da Ópera. O dueto romântico entre Porgy e Bess, You is my woman now, faz certos duetos de musicais posteriores parecerem plágio.
As “travessuras” de Bess, o amor incondicional de Porgy que resiste até a traições, as desigualdades sociais evidenciadas na impessoalidade cruel com que os policiais brancos abordam os moradores de Catfish Row, o amor possessivo de Crown por Bess, entre outros elementos, sugerem a Gershwin uma partitura impregnada de povo, de dores, de cultura interiorana e de dramaturgia do dia a dia irrepetíveis. À sua maneira, via escala pentatônica jazzística, o compositor explora um caminho de óperas do cotidiano que já havia sido aberto por Puccini, e até por Verdi em La Traviata. Nada de heróis wagnerianos abstratos: aqui, o ser humano, na sua pequenez e concretude, irradia grandeza universal. A bondade de caráter de Porgy – humilhado por suas deficiências motoras, mas resiliente na vida e feliz na modéstia (Got plenty o’ nuttin) – ressoa em cada bom coração deste mundo.
Porgy and Bess mescla linguagem falada com o canto tradicional num ritmo veloz e denso, falada demais para ser uma ópera tradicional italiana e falada de menos para ser considerada um singspiel. E, se devo mesmo ser sincero, em alguns trechos parece haver um “atropelamento” da fala na música que torna difícil seguir o que está sendo dito, e indica momentos não tão felizes e inspirados do talentoso compositor.

O começo da nossa saga dá-se com o seu trecho mais famoso: a canção de ninar Summertime, caracterizada pela flexibilidade rítmica num belo Lá menor que a tornou replicável em formato de jazz. Timbrada pelas oscilações em duas cordas, a canção volta a aparecer em partes diferentes da ópera, servindo de anteparo para momentos intensos e dramáticos. Os spirituals que perpassam a obra são de elevada criatividade. Neste mundo eivado de falsas religiões mercantilizadas, sua invocação genuína na ópera, tanto para saudar o assassinado Robbins quanto para aplacar o furacão que mata os marujos, devem servir de suprema inspiração para a retomada do caminho reto e autêntico. A sátira crítica cantada pelo traficante Sportin’ Life contra a crença cristã (It ain’t necessarily so), longe de contrariar o forte apelo à religiosidade local, apenas corrobora, pela dialética das oposições, um fervor que poucas vezes na história da ópera ocidental mostrou a sua face tão explícita e ardentemente.
Se o Duque do Rigoletto cantava “La donna è mobile qual piuma al vento“1, em nenhuma protagonista de ópera isto parece tão próprio quanto à querida Bess. Espremida entre o ciúme possessivo de Crown, o afeto terno e bondoso de Porgy e o fascínio malandro (desculpe-me, Chico Buarque, pelo pecado de utilizar tal palavra no contexto de outro país) de Sportin’ Life, sua música reflete este vai e vem de emoções, com slanci enérgicos, mas sem exagerar na extensão da tessitura vocal. Não é coincidência que a ópera termine com uma não resolução: e viveram felizes e contentes? No. Sem espaço para romances açucarados: lá vai Porgy viajar até Nova York atrás da sua amada.
Durante quase três horas, o transporte para uma vila fictícia na Carolina do Sul dá-se com uma vitalidade afro-americana da mais alta estirpe, tanto quanto o mundo que percebemos é representação imagética e artística. É imagem, é reminiscência de um afeto disperso na bruma do tempo que não volta mais numa dimensão, mas retorna em outra para assombrar-nos. Até o bondoso Porgy comete homicídio. Se o objetivo é inserir o ouvinte não apenas numa cultura, mas num mundo da vida completo, este “Wozzeck norte-americano”2 cumpre o objetivo à risca.
Paulistano, não perca a chance. A ópera será apresentada nos dias 19, 20, 21, 23, 24, 26 e 27 de setembro. Reparei que a penúltima apresentação será no dia 26 de setembro. Darei um centavo e meio a quem descobrir qual compositor faria aniversário nesta data, a primeira sexta-feira da primavera.
1- Tradução: “A mulher é móvel como pluma ao vento” (“móvel” no sentido de “volúvel”).
2- Reynolds, C. Porgy and Bess: an American Wozzeck. Journal of the Society for American Music (UC Davis, 2007) Volume 1, Number 1, pp. 1-28 (https://doi.org/10.1017/s1752196307070010).
Fotos: internet (na foto principal, o compositor George Gershwin).

Bruno Góes nasceu em 1988, é formado em Engenharia e pós-graduado em Filosofia. Já escreveu no site Movimento.com, e fez cursos de piano e violoncelo, este último no conservatório de sua cidade Natal, Passa Quatro. É assíduo interessado em tudo o que concerne a música clássica, com ênfase em compositores de ópera como Wagner, Verdi e Puccini.





