Se não é Agudo, é Grave — Encontro de Gerações na Ópera: “Dido e Eneas” com Adelia Issa

A série Se não é agudo, é grave — Encontro de gerações na ópera chega ao seu terceiro ciclo de masterclasses e recital. No domingo, 27 de julho, às 11h, no Teatro Sérgio Cardoso, com ingressos gratuitos pelo site do Sympla, será apresentada, na íntegra, com solistas, coro e acompanhamento de piano, a ópera Dido e Eneas, de Henry Purcell. Os jovens cantores serão preparados pela soprano Adelia Issa, que ao longo da sua carreira já interpretou tanto Belinda quanto Dido.    

Com a palavra, Adelia Issa:

Adelia Issa em Dido e Eneas

“Minha estreia no Theatro Municipal de São Paulo foi com a ópera Dido and Aeneas, em 1978, como Belinda. No elenco, Edmar Ferretti, Anna Maria Kieffer, José Antonio Marson, Caio Ferraz e, estreante como eu, Céline Imbert. Foi em forma de concerto, com regência de Martinho Lutero. Entrei em pânico quando o maestro Roberto Schnorremberg, à época diretor do Theatro, disse, num dos ensaios, que estava me observando e, se eu cantasse bem, ele me convidaria para um concerto com a OSM, sob sua regência.

No dia da apresentação, levei uma garrafinha de vodca – o equivalente a um copo – e pensei em tomar alguns goles para relaxar, mas acabei tomando tudo, e fiquei completamente bêbada. Ainda bem que fui muito bem preparada pela minha professora, Hermínia Russo, pois eu nem me lembro do que cantei ou não! Ao final da apresentação, cambaleante, ouvi o maestro Schnorremberg dizer que tinha gostado muito e meu pensamento naquele momento foi exatamente este: ‘gente, acho que cantei todas as notas!’ E ele me convidou para cantar o solo de soprano no Stabat Mater de Karol Szymanowski.

Muitos anos depois, em 2003, o maestro Abel Rocha me propôs cantar o papel de Dido no Theatro São Pedro, em São Paulo, com direção cênica de Iacov Hillel. Apesar de ser um pouco grave para a minha voz, aceitei logo e adorei interpretar essa personagem, ao lado da saudosa Martha Herr e de Rubens Medina, Silvia Tessuto e a estreante Manuela Freua. E depois de mais alguns anos, cantei Dido novamente, com piano, uma semiencenação também de Iacov Hillel e basicamente o mesmo elenco, no Centro de Cultura Judaica, em São Paulo”.

Dido e Eneas

Não se sabe ao certo quando nem onde foi criada a ópera Dido and Aeneas (Dido e Eneas), de Henry Purcell (1659-1695). O que se sabe é que, provavelmente no final da década de 1680, ela foi apresentada por alunas da escola feminina Josias Priest, no Chelsea, em Londres. Não é possível afirmar, contudo, que essa tenha sido a primeira representação da obra ou, sequer, se ela foi composta tendo em vista esse ambiente escolar ou a corte.

Segundo Ellen Harris, na segunda edição de seu livro Henry Purcell’s Dido and Aeneas, o que se pode supor é que a ópera tenha sido estruturada para ter uma curta duração. Com um prólogo e três atos, ela demora pouco mais de uma hora. Hoje em dia, é ainda mais curta. Isso porque a música do prólogo se perdeu: não aparece nas cópias da partitura que sobreviveram – todas do século XVIII.

Se a trama tem como fonte primária a Eneida, de Virgílio, o libreto de Nahum Tate (1652-1715) é derivado de Brutus of Alba, uma peça de 1678 do próprio Tate. Do enredo de Virgílio, restaram na ópera apenas as linhas gerais. Após a queda de Troia, Eneas chega a Cartago, onde Dido reina. Os dois se apaixonam, mas Eneas precisa partir para conquistar Roma e abandona Dido, que morre. Além desse breve resumo, prevalecem as diferenças.

Em Virgílio, Dido é viúva, fez voto de castidade após a morte do marido e rejeitou o pedido de casamento do rei Iarbas. Após a destruição de Troia, Eneas chega de passagem: seu destino é Roma, onde deve fundar um novo reino. Cupido faz com que se apaixonem. Eles ficam juntos por meses, mas Júpiter, ao descobrir a demora de Eneas em Cartago, envia Mercúrio, seu mensageiro, para exigir que ele parta naquela noite.

Em Tate e Purcell, nada sabemos sobre o passado de Dido, que está sempre atormentada: no início por causa do seu amor por Eneas; no final, evidentemente, em virtude do abandono. Não é Cupido o responsável, na ópera, pelo envolvimento do casal (ele é invocado apenas no coro final): Dido e Eneas se apaixonam naturalmente, e a população de Cartago incentiva a união dos dois. E essa união dura uma única noite. Outra importante diferença é que, na ópera, não são os deuses que vão cobrar de Eneas a partida para cumprir a sua missão, mas um espírito maligno que se passa por Mercúrio.

Na ópera, os deuses são substituídos por um elemento tipicamente inglês e que vem diretamente de Macbeth, de Shakespeare: as bruxas. São essa espécie de weird sisters de Tate, que se deleitam em praticar o mal e em promover danos, que separam Dido e Eneas e provocam a morte de Dido.

A forma como Dido morre também difere bastante de Virgílio para Tate. Em Virgílio, após a partida de Eneas, ela se perfura com a espada dele e morre na pira funerária que havia acendido para queimar os pertences que Eneas havia deixado. Em Tate e Purcell, ela morre naturalmente em consequência do abandono, enquanto entoa o seu maravilhoso e célebre lamento: “When I am laid in earth, / May my wrongs create / no trouble in thy breast; / remember me, but / ah! forget my fate”.


Ficha técnica

Preparação vocal e artística: Adelia Issa, soprano
Piano: João Moreira Reis

Coro Osvaldo Lacerda
(Direção musical: Bruno Costa
Pianista Preparadora: Ana Carolina Coutinho)

Elenco:
Dido: Ana Luisa Melo, soprano
Aeneas: Max Costa, barítono
Belinda: Marília Carvalho, soprano
Bruxa: Estefania Cap, mezzosoprano
2ª Mulher / 1ª Bruxa: Elisa Furtado, soprano
2ª Bruxa / Espírito: Bruno Costa, contratenor
Marinheiro: Thiago Costa, tenor

Legendas: tradução de Irineu Franco Perpetuo e adaptação de Ligiana Costa


Se não é agudo, é grave — Encontro de gerações na ópera

O projeto foi pensado para proporcionar a jovens cantores uma interação com artistas líricos brasileiros experientes e consagrados. Cada ciclo desse “encontro de gerações” conta com uma semana de masterclasses, onde os jovens são preparados para um recital cênico. No primeiro ciclo, Céline Imbert trabalhou trechos de Carmen, de Bizet, com um grupo de jovens cantores. No segundo, Inácio de Nonno preparou outro grupo para o primeiro ato de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Agora chegou a vez de os jovens interpretarem Dido e Eneas sob a orientação de Adelia Issa.

Até novembro, serão sete ciclos. Os recitais acontecem sempre aos domingos, às 11h, no Teatro Sérgio Cardoso. Veja a programação abaixo.

O projeto, realizado pela Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA) e pela Cia Ópera São Paulo, tem a curadoria de Paulo Esper, diretor da Cia Ópera São Paulo.


Temporada 2025

Os recitais ocorrem sempre aos domingos, às 11h, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

04 de maioCéline Imbert: Carmen (Georges Bizet) 
08 de junhoInácio de Nonno: Il Barbiere di Siviglia (Gioachino Rossini)
27 de julho Adelia Issa: Dido and Aeneas (Henry Purcell)
31 de agostoMauro Wrona: El Niño Judío (Pablo Luna)
05 de outubroLeila Guimarães: Fosca (Antônio Carlos Gomes)
16 de novembroEduardo Janho-Abumrad: Salvator Rosa (Antônio Carlos Gomes)
07 de dezembroEduardo Álvares: Werther (Jules Massenet)

Ingressos: entrada gratuita / os ingressos podem ser retirados na bilheteria do teatro 1h antes do espetáculo ou pelo site do Sympla.


Imagem: divulgação.