O barítono italiano está em São Paulo, com a soprano Greta Cipriani, para participar da Gala de Ópera Italiana no domingo, no TMSP.
E lá se foram mais de dez anos! Foi em 2013 que Simone Piazzola esteve em São Paulo pela primeira vez, quando interpretou Marcello, em La Bohème, de Puccini, no Theatro Municipal. Na ocasião, sua carreira estava começando a decolar, mas seu belo timbre, seu legato e sua expressividade já eram notáveis.
Agora, já consagrado, Piazzola volta a São Paulo, trazendo na bagagem a experiência acumulada ao trabalhar com importantes maestros e diretores cênicos. Ele retorna ao mesmo teatro, onde entrará na seleta lista de Grandes Vozes da Cia Ópera São Paulo, de Paulo Esper, em uma gala que tem como foco a ópera italiana e que marca os 35 anos da Cia. Antes, porém, transmitiu um pouco do seu conhecimento aos jovens cantores brasileiros, ministrando uma masterclass na academia do teatro. A seu lado, a jovem e simpática soprano Greta Cipriani, sua aluna, companheira de concertos e sua noiva, com quem se casará no princípio do ano que vem.
Cipriani e Piazzola se apresentarão no domingo (24/08), às 17h, no Theatro Municipal de São Paulo, ao lado da mezzosoprano Laura Verrecchia, e serão acompanhados ao piano por Daniel Gonçalves. No programa, além de duas canções de Tosti e uma de Puccini, estão árias de óperas de Rossini, Verdi, Puccini, Mascagni e Giordano. Os ingressos são gratuitos e serão distribuídos, na bilheteria do teatro, duas horas antes do evento. Mais informações aqui em Notas Musicais.
Uma agradável conversa com Simone Piazzola e Greta Cipriani
Tive o privilégio de, nesses dias, conviver um pouco com Piazzola e Cipriani, acompanhando parte da masterclass e dos ensaios para a gala italiana.
A ópera entrou na vida de Piazzola pela televisão, durante a sua infância, graças a um programa que exibia uma apresentação do célebre tenor Mario del Monaco. Piazzola lembra que ficou encantado — e, naturalmente, até hoje del Monaco é um dos seus cantores preferidos. O outro? Sua grande referência? Renato Bruson, com quem estudou. Quando é perguntado a respeito de Bruson, Piazzola emprega expressões como “o meu deus”, “o meu ídolo”. Não raro, durante as conversas, Piazzola cita ou imita, alegremente, a voz grave e o jeito de Bruson. “Foi com ele que aprendi tudo: o que é fraseado, o que é cantar por meio da palavra, o que é a palavra verdiana…” E já emenda: “porque não existe o barítono verdiano, o cantor verdiano: existe o cantor que tem a voz para interpretar os papéis verdianos”. Citando tenores como exemplo, Piazzola lembra que Luciano Pavarotti, que era um tenor mais lírico do que Franco Corelli, por exemplo, cantava Verdi maravilhosamente, porque sabia dizer a palavra verdiana.
O barítono verdiano
Quando Piazzola diz que “não existe o barítono verdiano”, ele se refere a esse termo como classificação restritiva de um cantor, e não como um estilo ou conjunto de características. Nesse sentido, para Piazzola, pode cantar Verdi um barítono que tenha “voz quente, com cor de âmbar — escura sim, mas ambrada, que seja quente — que tenha, também, uma extensão, que não seja um barítono curto e, sobretudo, que saiba dizer a palavra, que saiba frasear da maneira que Verdi queria, teatral”. Piazzola define o canto de Verdi, mesmo aquele das composições tardias, como “bel canto com a palavra verdiana”.
São de Verdi três papéis extremamente relevantes na carreira de Piazzola: Rigoletto, Giorgio Germont, em La Traviata, e Simon Boccanegra. Rigoletto foi o seu primeiro papel protagonista; Germont foi o que Piazzola mais interpretou (em 233 récitas, com todos os grandes maestros do mundo); e o terceiro, Boccanegra, o seu favorito. E não é à toa: para ele, um dos eventos mais importantes da sua carreira foi o Simon Boccanegra de 2014, do Teatro la Fenice, transmitido pela RAI, com regência de Myung-Whun Chung e direção cênica de Andrea de Rosa, em que ele interpretou o papel-título, dividindo o palco com Maria Agresta, Giacomo Prestia e Francesco Meli. A partir daí, veio o Simon Boccanegra no La Scala, depois uma turnê em Xangai com o La Scala, outro Simon em Viena…
Puccini, Donizetti e Mozart
Já em Puccini, lamenta Piazzola, “o barítono é um pouco maltratado…”; no entanto, Puccini “escreveu belas partes: Scarpia [em Tosca], Sharpless [em Madama Butterfly], Marcello [em La Bohème], também em Le Villi (…) há uma ária que é belíssima”. No ano que vem, ele deve debutar como Scarpia: “Estou muito contente de, finalmente, entrar em um Puccini, digamos, mais verista, dramático, como Scarpia”.
Citando Bruson, seu “barítono venerado sobre todos”, Piazzola lembrou que Scarpia não é uma figura vulgar, mas um barão: “se se vai escutar como Bruson interpreta Scarpia, se verá que também aí deve haver a nobreza da voz e do personagem. Mesmo que seja um personagem mau, ainda assim é um barão siciliano, e os barões sicilianos não eram pessoas vulgares. (…) [O canto] é sempre a partir da palavra, não de um rugido”.
De Donizetti, Piazzola já cantou em La Favorite (em francês e em italiano), Lucia di Lammermoore e Roberto Devereux. “Donizetti faz muito bem para a voz, porque, como dizia o maestro Bruson (…), ele não se definia verdiano, mas donizettiano, porque o Donizetti sério é o que nos prepara para enfrentar Verdi”.
Piazzola nunca cantou nenhum papel de Mozart, mas deseja cantar Don Giovanni. “Mozart é tratado, frequentemente, como um compositor para início de carreira, mas, na verdade, é um ponto de chegada”. E lembra do legato necessário e dos recitativos.
Maestros e diretores cênicos
Piazzola já trabalhou e ainda trabalha com grandes maestros. Com Riccardo Muti participou, em 2012, do Concerto de Natal do Senado Italiano (o primeiro evento importante da sua carreira). “Com poucas palavras, Muti consegue fazer com que percebamos a importância da partitura”. Já Zubin Mehta, com quem fez La Forza del Destino, La Traviata e Aida, “não precisa falar, com o gesto nos faz compreender tudo o que ele quer”. Myung-Whun Chung, que o dirigiu em Simon Boccanegra e em Don Carlo, “dá muita imaginação ao canto. Por exemplo, ele me disse: aqui deve ser uma cor de arco-íris em direção às cores claras, que brilham, onde há tanta luz. E, assim, eu entendi qual era a cor da voz que ele queria”. Bruno Bartoletti, com quem Piazzola fez La Fanciulla del West, em 2010, trabalhou intensamente a palavra: “Ele foi o primeiro a me fazer compreender o que eu devia ser no futuro, qual devia ser a direção do meu estudo musical”.
Quanto às encenações, Piazzola garante que não tem nada contra participar de montagens modernas, mas desde que compreenda por que está fazendo determinada coisa. Se a ideia do diretor for apenas fazer de forma diferente porque acha ópera uma coisa chata, “então não faço”, cravou Piazzola que, no entanto, se diz contente com todos os diretores com quem trabalhou, citando vários nomes. “E tive o prazer de participar em tantas produções de Zeffirelli e Hugo de Ana, que, para mim, é um dos últimos grandes diretores do passado que ainda está vivo, e é um dos maiores”.
A importância de ensinar
Nos últimos anos, Piazzola começou a conciliar a carreira de cantor com o ensino. “Gosto muito de ensinar e transmitir aquilo que eu aprendi com os meus grandes professores e, sobretudo, com os grandes diretores de orquestra e cênicos. Porque hoje em dia eu vejo muita gente que fala de um cantar muscular, que passa pelo ponto A, ponto B, ponto C… toda essa bobagem só serve para complicar o cérebro desses pobres jovens. O canto deve ser natural. É preciso conscientizá-los do que está acontecendo no corpo, sobretudo fazendo-os imaginar o som. A minha professora dizia: ‘você tem que ver o som diante dos seus olhos e imaginá-lo plasmado’”. Para Piazzola, deve-se buscar a naturalidade e o relaxamento muscular: a laringe deve baixar naturalmente com a respiração, e não ser empurrada para baixo; o diafragma também se abaixa sozinho. “Com os meus professores — Giacomo Prestia, Renato Bruson, Alda Borelli —, aprendi a buscar a naturalidade e o relaxamento muscular”.
Na masterclass ministrada nos dias 20 e 21 na Academia do Theatro Municipal de São Paulo, vi Piazzola esculpir o som e o fraseado dos jovens cantores mais bem preparados. Ao trabalhar com os que apresentavam mais problemas técnicos, buscava quebrar as tensões musculares e ensinar a fazer o legato. Para isso, sempre criava imagens e movimentos. Todas as vezes que um cantor conseguia compreender essa imagem, sempre que essa imagem surtia efeito no som — e por diversas vezes esse efeito foi bem significativo —, Piazzola soltava, feliz, um “Ah!!” vitorioso.
Para esses jovens, as lições de Piazzola foram uma rara e preciosa oportunidade de aprender um pouco com um grande e experiente nome do mundo lírico. Felizmente, os jovens souberam reconhecer isso e, ao final da segunda manhã de masterclass, queriam mais.

Greta Cipriani
Foi em uma masterclass que, há dois anos, Piazzola e Greta Cipriani se conheceram. Ele logo a escolheu como aluna e começou a dividir o palco com ela, em concertos e recitais. Só mais tarde veio o romance. E Cipriani fez questão de dar um depoimento como aluna de Piazzola: “Simone nos ensina, desde o início, como estar no palco. Se você o conhece pela primeira vez e faz aula com ele, fica com medo, porque ele é muito severo, mas ele prepara os alunos para o mundo do teatro, porque sabe o que há lá fora”.
Em São Paulo, esse lado severo de Piazzola se revelou de forma muito educada, gentil com os alunos e até bem-humorada. Contudo, se a cada evolução ele comemorava, não deixava de apontar os defeitos e nem ficava iludindo os cantores com falsos elogios que não levam a nada. “Ele é direto, felizmente”, diz Cipriani.
Com formação musical também desde a juventude, Cipriani começou os seus estudos como violinista e já tocava em orquestra, mas, no último ano dos estudos formais, migrou para o canto. Aplicada, estudiosa, está vendo a sua carreira progredir rapidamente nos últimos anos. No ano passado, para orgulho de Piazzola, Cipriani estreou em Hong Kong, com grande sucesso, no papel-título de Suor Angelica, de Puccini.
Neste domingo, poderemos ouvir a voz de âmbar de Simone Piazzola e perceber a sensibilidade de Greta Cipriani no Theatro Municipal. A julgar pelos ensaios, o recital promete!
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Cofundadora do site Notas Musicais, é a correspondente no Brasil das revistas L’Opera (Itália) e Pro Ópera (México). Colabora, ainda, com a Opera Magazine (UK) e com o site L’Ape Musicale (Itália). Fez parte do júri das edições 2020 e 2022 a 2025 do Concurso Brasileiro de Canto ‘Maria Callas’ e é membro do conselho de Amigos da Cia. Ópera São Paulo. Em 2017, fez a tradução, para o português, do libreto da ópera Tres Sombreros de Copa, de Ricardo Llorca, para a estreia mundial da obra, em São Paulo. Estudou canto durante vários anos e tem se dedicado ao estudo da história da ópera e do canto lírico.





