Vozes femininas da Academia de Ópera da casa napolitana se mostraram mais bem preparadas que as masculinas.
Em junho de 2024, quatro cantores italianos formados pela Accademia Rossiniana Alberto Zedda (parte do Rossini Opera Festival, de Pesaro, Itália) se apresentaram no Rio de Janeiro e em São Paulo, trazidos por uma parceria entre a Cia. Ópera São Paulo, os Consulados Gerais da Itália das duas cidades e os seus respectivos Institutos Italianos de Cultura. O sucesso daquelas apresentações reforçou a animação diante de uma das atrações deste ano da Série O Globo/Dellarte Concertos Internacionais. A importante produtora carioca está trazendo também ao Rio e a São Paulo alunos da Academia de Ópera do italianíssimo Teatro di San Carlo: um grupo que recebe o nome de Le Voci del San Carlo di Napoli.
Nesta terça-feira, 26 de agosto, aconteceu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a apresentação carioca do grupo, que chegou aqui com a formação de duas sopranos, mezzosoprano, tenor, barítono e baixo (em São Paulo, a apresentação no Teatro B32 acontece nesta quinta-feira, dia 28).
O baixo sul-coreano Yunho Eric Kim subiu ao palco pela primeira vez para interpretar La calunnia, ária de Don Basilio na ópera Il Barbiere di Siviglia, de Gioachino Rossini, e o que ofereceu ao público foi uma voz dura, pouco maleável, de timbre não muito atraente, com dicção ruim e que, quando sobe aos agudos, enfrenta problemas de afinação. Sua interpretação da cavatinetta Bella Italia, de Il Turco in Italia, novamente de Rossini, foi, para ser educado, dispensável.
O barítono italiano Maurizio Bove cantou somente uma ária, Ah per sempre io ti perdei, precedida de recitativo, da ópera I Puritani, de Vincenzo Bellini, na qual exibiu uma voz de muito pouca expressão. O cantor retornaria ao palco para dois números de conjunto, como se verá alguns parágrafos adiante.

Outro italiano, o tenor Francesco Domenico Doto demonstrou, à primeira vista, alguma indecisão sobre que rumos tomar na carreira: interpretou peças para tenores lírico-ligeiro, lírico, lírico-spinto e lírico dramático – um assombro! Ou seja, ou o rapaz é um fenômeno, ou está muito mal orientado mesmo. E nem é preciso grande esforço para esclarecer essa dúvida.
Doto começou cantando a ária La donna è mobile (do Rigoletto, de Giuseppe Verdi), que até recebeu interpretação razoável, apesar do emprego de um tempo relativamente mais rápido que o habitual. Pouco depois, quando abordou Che gelida manina (de La Bohème, de Giacomo Puccini), sua interpretação foi apenas burocrática – e o principal agudo da passagem soou pouco convincente. Sua ária seguinte também foi de Puccini, a celebérrima Nessun dorma, da Turandot, na qual faltou-lhe o peso vocal naturalmente exigido pela parte de Calaf, e os trechos mais agudos soaram “calantes”. Os números de conjunto dos quais o cantor participou serão abordados adiante.

A mezzosoprano japonesa Sayumi Kaneko cantou quatro peças de Rossini, demonstrando ter maior consciência das suas possibilidades atuais. Duas dessas passagens foram árias: Nacqui all’afanno (seguida da difícil cabaleta Non più mesta) da ópera La Cenerentola; e Una voce poco fa, do Barbeiro. Em ambas, mostrou possuir boa agilidade vocal para os trechos menos exigentes, enquanto aqueles mais desafiadores ainda carecem de melhor controle e sofisticação.
Ao lado do barítono Maurizio Bove, Kaneko cantou o dueto do Barbeiro para Rosina e Figaro, Dunque io son, precedido de recitativo, e aqui se mostrou bem mais consistente, exibindo ótima dicção, naturalidade e um fraseado mais elaborado, enquanto Bove esteve apenas básico. Ambos se desencontraram na conclusão do dueto. A mezzo voltou a apresentar as mesmas qualidades citadas quando abordou, mais adiante, o trio Zitti, zitti, piano, piano (sempre do Barbeiro), novamente ao lado do barítono e também com a participação do tenor Francesco Doto. Este se mostrou quase inaudível durante a interpretação da curta peça.

A soprano ucraniana Maria Knihnytska está, sem dúvida, pelo menos um passo à frente dos seus colegas anteriormente citados. Ela entrou no palco pela primeira vez para cantar Caro nome, a grande ária de Gilda em Rigoletto, e exibiu um belo timbre, boa técnica e ótima agilidade, com praticamente todas as notas no lugar (exceto por uma breve falha de afinação quase no final). Quando voltou ao palco para interpretar Verdi novamente, com Sempre libera, a cabaleta de Violetta no primeiro ato de La Traviata, a soprano deixou transparecer que esse pode ser um passo ainda longo demais para ela, seja pela falha quase no final da peça, seja pela projeção aquém do desejável na região média da sua voz.
Maria Knihnytska participou ainda de dois duetos. O primeiro foi Là ci darem la mano, da ópera Don Giovanni, de Mozart, que cantou bem e exibindo um belo fraseado ao lado do baixo Yunho Eric Kim – que, por sua vez, novamente não despertou grande atenção. O segundo dueto foi justamente a peça que encerrou o programa oficial: Sento una forza indomita, de Il Guarany, de Carlos Gomes, que cantou com o tenor Francesco Doto: ambos se mostraram esforçados ao abordar uma obra que, certamente, não conhecem muito bem e que deve ter entrado no programa apenas para as apresentações brasileiras. A soprano se saiu melhor, mostrando-se mais à vontade com a parte de Cecilia que o tenor com aquela de Peri.

Não deve ter sido por acaso que a soprano italiana Désirée Giove mereceu a maior quantidade de árias do programa (quatro). Suas performances foram as mais seguras e as mais gratificantes da noite. É verdade, no entanto, que a primeira impressão não foi das melhores: em Tacea la notte placida (seguida da cabaleta Di tale amor), de Il Trovatore, de Verdi, faltou expressividade, apesar da boa agilidade demonstrada na cabaleta e da boa dicção. Conforme o programa avançava, a propósito, pôde-se notar que a sua dicção é realmente cristalina, e era possível identificar facilmente todas as palavras que ela cantava.
As peças seguintes que Désirée Giove interpretou foram todas de Puccini, compositor com quem ela demonstrou ter verdadeira intimidade. Sì, mi chiamano Mimì e O soave fanciulla, ária e dueto de La Bohème, trouxeram a expressividade que havia faltado na peça de Verdi. No fim do dueto, quando soprano e tenor repetem por três vezes a palavra “amor”, houve desencontro na segunda vez, com Giove sustentando corretamente a nota, ao contrário do seu colega Doto.
As duas árias derradeiras da soprano (Un bel dì vedremo, de Madama Butterfly; e Vissi d’arte, de Tosca) foram definitivas para atestar a qualidade vocal da artista: para além das já citadas expressividade e excelente dicção, a soprano exibiu um timbre belo e ligeiramente escuro, fraseados bem construídos e presença cativante. E, por mais que ainda seja necessária a lapidação de alguns agudos, eles estavam todos lá. Com apenas 26 anos, Désirée Giove é um nome para se prestar muita atenção.
Os cantores foram acompanhados pelo pianista italiano Gianluca Cremona, que se mostrou mais um mero acompanhador, e menos um intérprete ou diretor musical. No bis, todos os cantores apresentaram juntos a nada surpreendente cena do brinde do primeiro ato de La Traviata (no Rio, este já se tornou um número extra mais do que previsível neste tipo de apresentação), e depois a deliciosa tarantela La Danza, de Rossini – que foi bem animada, apesar de o barítono ter trocado uma palavra em uma das frases que estavam sob a sua responsabilidade.
Em linhas gerais, foi um recital morno, e a impressão final foi a de que as mulheres estão se esmerando nos estudos mais que os homens na Academia de Ópera do Teatro di San Carlo.
Fotos: Renato Mangolin (na foto principal, a partir da esquerda, Désirée Giove, Sayumi Kaneko e Maria Knihnytska).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.






como você foi econômico… quando são artistas brasileiros, sejam jovens iniciantes ou experientes você senta o dedo. Metade do público praticamente foi embora no meio.
Prezado Caio, permita-me discordar. Basta ler o texto com atenção para verificar que eu registrei problemas, sejam de natureza técnica ou de expressão, em todos que participaram da referida apresentação (cantores e pianista). Até mesmo a soprano italiana, que foi a cantora do grupo que mais me agradou, não me convenceu na ária que interpretou de Il Trovatore. Sendo assim, reitero: basta ler o texto com atenção.