Um Barroco para Rir e Refletir

La Serva Padrona e La Contadina marcam a estreia da Companhia Brasileira de Ópera de Câmara e ficará em cartaz de 21 a 23 de janeiro, no Teatro B32, em São Paulo.

Após uma pausa para as festas de fim de ano, retornar a escrever para site enche-me de sincero júbilo. E não poderia fazê-lo com oportunidade melhor. Como já é sabido dos seguidores deste espaço, em breve será apresentado o conjunto de intermezzos La Serva Padrona, de Pergolesi, e La Contadina, de J.Hasse, pela Companhia Brasileira de Ópera de Câmara. Não necessito apresentar-lhes o espetáculo, o que já foi feito com invulgar competência pelo nosso site aqui. Limitar-me-ei apenas a uma análise pessoal, como de praxe.

Este duo mostra a vocação do Barroco para a comicidade, o riso e a ironia, nem sempre adequados à imagem estereotipada que adquirimos na escola sobre esse estilo na História da Arte. A natureza humana é contraditória, repleta de meneios às vezes involuntários, ondejante, insubmissa. Como dizia Caetano Veloso n’O quereres, onde queres uma coisa, sou outra; figura de linguagem que nosso idioma chama antítese. Esta tendência acentua-se em tempos de transição entre épocas; na Europa, a Revolução Científica já batia às portas, Martinho Lutero havia aberto um sulco no seio da Igreja que jamais se fecharia a despeito da tentativa da Contrarreforma no século XVI, e o Homem viu-se num limbo. Por ser um reino da subjetividade, a Arte refletiria este conflito com a força de suas formas. Note-se a superveniência do Barroco musical em múltiplas décadas em relação aos eventos históricos relatados. Claudio Monteverdi, considerado um dos percursores mais importantes do Barroco musical, firmava-se no panorama musical apenas a partir do século XVII.

Se é verdade que no Barroco a essência é a tensão dialética entre o Homem do cogito cartesiano que começa a estudar-se objetivamente e o ainda fiel servo da Graça e da Providência, não se negue então que também neste estilo haja espaço para todas as manifestações do espírito humano. E o humor pede passagem, carissimi. À espetacularidade das formas e dos ornamentos contraponha-se a gracinha que é o dia a dia insosso e não raro recheado de hipocrisias que marcou a época barroca, do qual podemos tirar um deboche sem medo de sermos felizes. Sejamos francos: vista de perto, a hipocrisia marca qualquer época humana, embora, é claro, não seja o único traço digno de destaque. Aqui no Brasil, Gregório de Matos, nosso Boca do Inferno, teria duas palavrinhas a dizer a respeito, que ele certamente poria em versos.  

Quanto ao aspecto musical, temos a polifonia alemã tão bem representada pelo Pai da Música Johann S. Bach. Sistema complexo de harmonia e contraponto, esta refinada abordagem marca uma inflexão na História da Música, com um novo conjunto padronizado de técnicas a serem utilizadas para conferir às melodias efeitos de continuidade, devido ao uso do baixo, e uma textura harmônica sólida.

La Serva Padrona e La Contadina

No primeiro dos intermezzos apresentados, La Serva Padrona, importantíssima precursora da opera buffa, temos uma simplificação de muitas formas do Barroco tardio, com por exemplo árias apresentadas em formato da capo, começando e terminando da mesma maneira, e uma música mais leve, representando bem o cinismo cômico de Serpina e a carência afetiva do maduro Uberto. Na ária Stizzoso, mio stizzoso torna-se evidente como a música simula os gestos da cena, evocando as emoções que se agitam na alma de quem fala (canta).

Composta para ser intermezzo de uma ópera maior, chamada Il prigionero superbo, que, no entanto, não entrou em repertório, La serva padrona é o mais perfeito acabamento de um Barroco já com um pezinho pronto para entrar no Classicismo a ser futuramente consagrado por Haydn e Mozart.

Quanto a esta precursão no Classicismo, idêntica proposta é vista no segundo intermezzo apresentado, o raro La Contadina de J.A. Hasse. E ponha raro nisso. Observei muita dificuldade para encontrar informações a respeito por aí. O ano de sua estreia é incerto, a julgar pelas fontes consultadas, mesmo tendo sido claramente no século XVIII, entre 1720 e 1770. Mas não seja por isso: é uma corrupta relação entre Scintilla (em italiano: faísca, oh nome sugestivo) e Don Tabarano, focando nos ardis dela para casar-se com ele e na infidelidade de Scintilla a seu Don, que é traído com Lucindo (mencionado apenas). A cavatina de Don Tabarano, que abre a ópera, “Alla vita, al portamento” e árias como “Più viver non voglio”, cantada por Scintilla, adornam esta obra de arte que, contemporânea de La Serva Padrona, apresenta temática semelhante. Imaginar que tenha sido composta na mesma época de muitas solenes cantatas de Bach é algo… exilarante!

São obras de arte de um período específico, esquecido nas brumas do tempo por alguns, mas que vem lembrar-nos de que a arte é atemporal. Onde estiverem o estro humano e a inspiração pelas únicas coisas que importam na vida, lá estará a arte. E no Barroco musical europeu não é diferente.  


Foto principal: Saulo Javan e Carla Cottini em foto de Luis Prado.


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