A Fundação Clóvis Salgado, órgão ligado ao governo estadual mineiro e que administra, em Belo Horizonte, o Palácio das Artes e a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, demitiu a regente titular da OSMG, Ligia Amadio.
Segundo informações do jornal O Estado de Minas, a demissão aconteceu poucas semanas depois de Amadio ter criticado, em audiência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, os baixos salários dos músicos da Orquestra. Segundo a reportagem do jornal mineiro, assinada por Andrei Megre, outro problema seria o cachê baixíssimo pago a músicos contratados: R$ 100,00 por cinco horas de trabalho.
Na citada audiência na Assembleia Legislativa de MG, Ligia Amadio pediu: “Eu suplico que esse assunto seja levaddo a sério”. Por meio da demissão da regente, o governo do estado de Minas Gerais demonstra de maneira cristalina o seu “jeitinho” particular de levar algo “a sério”.
Por sua vez, a explicação oficial apresentada pela Fundação Clóvis Salgado para a demissão da regente é tão vazia de sentido, que Notas Musicais se recusa a publicá-la, e poupa o leitor de uma parolagem protocolar e que não justifica nada.
Há poucos meses, este autor teve contato direto com o trabalho de Ligia Amadio à frente da OSMG. Foi no começo de agosto do ano passado, quando pude assistir à montagem da ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, no Palácio das Artes. Na ocasião, presenciei um trabalho qualificado de direção musical (crítica aqui).
A conclusão final desse episódio lamentável é aquela que todos nós já conhecemos: no meio musical brasileiro, praticamente todo ele dependente de recursos públicos, qualquer atitude, por mais escorreita que seja, se não vier acompanhada da bajulação dos politiqueiros de ocasião, poderá ser considerada um gesto hostil.
Íntegra da nota oficial emitida pelo Sindicato dos Músicos de Minas Gerais
“Após uma temporada de grandes realizações, os músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais foram surpreendidos, ainda durante as férias, pela preocupante notícia da demissão de Lígia Amadio. Essa maestra de reconhecimento Internacional vinha realizando um trabalho de alto nível à frente da orquestra desde 2023.Tudo indicava que esse trabalho teria seu ponto alto em 2026, quando a OSMG comemora 50 anos de sua criação.
Há um consenso entre a maioria dos músicos de que o trabalho realizado pela maestra foi fundamental para a elevação da qualidade artística do grupo e que seu desligamento vai impactar negativamente no nível do trabalho. Além disso, os músicos viam nela, mais que uma liderança artística, uma aliada nas reivindicações por melhoria nas condições de trabalho e salário. Isso ficou evidenciado numa recente Audiência Pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais na qual se comemorou os 80 anos do Sindicato, ocasião em que ela foi homenageada. Lígia fez um pronunciamento enfático e respeitoso em defesa das necessárias melhorias para os profissionais da orquestra.
A comissão de representantes dos músicos procurou o Sindicato para uma tentativa de solução negociada junto à direção da fundação Clóvis Salgado. Pedimos uma reunião e fomos prontamente atendidos. Infelizmente, a boa vontade em nos receber não perdurou perante nossas argumentações. A direção foi contraditória ao alegar falta de recursos em um momento em que anuncia uma grande programação para a temporada. Foi argumentado pelo Sindicato que no ano da comemoração dos 50 anos da OSMG e 55 anos da FCS é de grande importância para a cultura mineira a permanência da liderança que trouxe esse corpo artístico a esse patamar de grande qualidade. Ainda assim, a direção não recuou da decisão pela interrupção desse trabalho.
Lamentamos profundamente pela demissão de Lígia Amadio nesse contexto, que pode parecer uma reação injustificável à sua postura em defesa dos músicos. Esperamos mais habilidade e bom senso dessa diretoria nesse momento tão significativo para essa instituição cultural”.
Foto: internet (na foto, Ligia Amadio).

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.





