Protagonistas e a regência teatral de Ligia Amadio se destacam em montagem correta da obra-prima de Pietro Mascagni.
Cavalleria Rusticana (1890)
Ópera em um ato
Música: Pietro Mascagni (1863-1945)
Libreto: Giovanni Targioni-Tozzetti (1863-1934) e Guido Menasci (1867-1925)
Base do libreto: Cavalleria Rusticana, novela de Giovanni Verga (1840-1922)
Palácio das Artes (Fundação Clóvis Salgado)
06 de agosto de 2025
Direção musical: Ligia Amadio
Direção cênica: Menelick de Carvalho
Cenografia: William Rausch
Figurinos: Marcela Moreira
Iluminação: Régelles Queiroz
Direção geral: Cláudia Malta
Elenco:
Turiddu: Matheus Pompeu, tenor
Santuzza: Eiko Senda, soprano
Alfio: Stephen Bronk, baixo-barítono
Mamma Lucia: Bárbara Brasil, mezzosoprano
Lola: Sylvia Klein, soprano
Coral Lírico de Minas Gerais (preparação: Lucas Viana)
Orquestra Sinfônica de Minas Gerais
Segundo e último título lírico produzido em 2025 pela Fundação Clóvis Salgado, de Belo Horizonte, Cavalleria Rusticana, ópera em apenas um ato e duas partes de Pietro Mascagni, sobre libreto de Giovanni Targioni-Tozzetti e Guido Menasci, com base em uma novela de Giovanni Verga, estreou no Palácio das Artes nesta quarta-feira, 06 de agosto. A tradução literal do título da obra para o português – algo como “Cavalheirismo Rústico” – é tão pouco atraente que o original acaba se mantendo.
A obra-prima de Mascagni, apesar de curta (dura, em média, uma hora e quinze minutos), é uma das mais interessantes óperas do repertório italiano, e uma das quatro ou cinco mais importantes do Verismo (movimento artístico correspondente ao que chamamos por aqui de Realismo/Naturalismo). O compositor escreveu outras peças para a cena lírica, mas nenhuma delas sequer se aproxima da grandeza da Cavalleria. Assim como Bizet e sua Carmen, se tivesse composto apenas Cavalleria Rusticana e mais nada, Pietro Mascagni desfrutaria da mesma atenção que lhe dedicamos até hoje.
Valendo-se de um libreto enxuto, preciso e muito próximo do original de Verga, e utilizando temas condutores da ação (Leitmotiven), sem, no entanto, abandonar o melodismo tão característico da ópera italiana, Mascagni construiu uma obra de grande força dramática.
A trama gira em torno de Santuzza e Turiddu: ele havia jurado amor à Lola antes de partir para o serviço militar, mas, quando regressou, encontrou-a casada com o carreteiro Alfio. Por isso, foi consolar-se nos braços de Santuzza, que se apaixonou por ele, entregando-se totalmente. Lola, egoísta e caprichosa, não quis abrir mão de Turiddu e, “roubando-o” de Santuzza, fez dele seu amante. Até aqui, tratam-se de acontecimentos passados, ocorridos antes mesmo de a ópera começar, mas dos quais vamos tomando conhecimento à medida que a ação avança.
É domingo de Páscoa, mas Santuzza, sentindo-se “em pecado”, não entra na igreja da aldeia. Ela se rebaixa e implora pela atenção de Turiddu. Depois de discutir com ele em vão, e tomada pelo ciúme, acaba por revelar a Alfio que a sua mulher o trai. Este, dominado pelo ódio, jura vingança. Pouco depois, Turiddu, percebendo que Alfio já sabe de tudo, morde a orelha do marido traído – gesto que significa o convite para um duelo no código cavalheiresco do campo (daí o título da ópera) –, e a ação se precipita para o seu trágico final. Uma música sublime, de grande beleza e expressividade dramática, impregnada de cor local, conduz e enriquece essa história de uma Sicilia rural, profunda.

Encenação tradicional com pitadas de ousadia
A montagem do Palácio das Artes, com direção geral de Cláudia Malta, conta com encenação de Menelick de Carvalho. O diretor opta por uma concepção de roupagem tradicional que, em geral, funciona muito bem. Há algumas pequenas ousadias, como a sugestão discreta de uma possível gravidez de Santuzza durante a cena desta com Mamma Lucia (que funciona como uma justificativa para a intensidade do desespero da personagem diante das atitudes de Turiddu); ou então o reforço do caráter duvidoso de Lola, pela maneira como esta se comporta observando à distância a discussão entre Turiddu e Santuzza. Com os solistas e o coro bem dirigidos, a movimentação cênica é bastante convincente durante praticamente toda a ação.
Dois deslizes, no entanto, merecem menção. O primeiro é de marcação, quando o encenador coloca Santuzza no piso superior da casa de Mamma Lucia (foto acima) durante a oração de Páscoa (Inneggiamo, il Signor non è morto!) logo depois de a personagem dizer que ali não poderia entrar por ter sido (ou se sentir) excomungada. O segundo deslize se dá na cena derradeira, que poderia ter sido preparada com mais capricho: o desfecho acaba resultando um tanto frio, com o desmaio de Santuzza e a prostração de todos os demais participantes da cena, enquanto a música ainda evolui para a conclusão.

Nada, porém, que tenha prejudicado o conjunto da encenação, que conta com o bom cenário de William Rausch (construções simples, com o fundo do palco sugerindo paisagem campestre) e com os ótimos figurinos de Marcela Moreira. A iluminação de Régelles Queiroz oscila entre ótimos momentos (como no início, quando o dia vai amanhecendo aos poucos) e outros menos inspirados, como quando, no meio do dia, a cena fica bastante escura.
Protagonistas se destacam
Na récita de estreia, o Coral Lírico de Minas Gerais, preparado por Lucas Viana, ofereceu uma boa performance, apresentando-se bem em passagens como a introdução Gli aranci olezzano, a já citada oração Inneggiamo, il Signor non è morto!, e a cena do brinde proposto por Turiddo, Viva il vino spumeggiante.

A soprano Sylvia Klein interpretou Lola com boa desenvoltura cênica, mas com voz oscilante. De forma semelhante, o baixo-barítono Stephen Bronk, que tão bons serviços já prestou à ópera no Brasil, deu vida a um Alfio elegante na sua rusticidade, ao mesmo tempo em que a sua voz demonstrou certo desgaste e total inadequação à tessitura do personagem, especialmente na região mais aguda. Já a mezzosoprano Bárbara Brasil, se não chegou a estar totalmente à vontade como Mamma Lucia, exibiu uma voz com graves expressivos, quentes e bem sonoros.
Os dois protagonistas foram muito bem defendidos. A soprano Eiko Senda compôs uma Santuzza visceral, intensa e dramática em muito boa medida. Sua voz correu bem pela ária da personagem, Voi lo sapete, o mamma, e nos duetos com o tenor (Tu qui, Santuzza) e com o barítono (Il Signore vi manda, compar Alfio). Sua interpretação desta mulher que se sente desonrada e abandonada pelo homem que ama (e que, em alguma medida, guarda certa semelhança com Cio-Cio-San – a grande personagem da carreira da artista) foi muito convincente.
O tenor Matheus Pompeu, se tem a voz mais leve que a ideal para enfrentar a parte de Turiddu, soube fazê-lo com elegância e inteligência musical. Sem forçar, abordando o personagem como um tenor lírico, entregou arte em alto nível, exibindo um fraseado rico e expressivo desde a sua siciliana inicial, O Lola c’hai di latti la cammisa, cantada fora de cena, passando pelo já citado dueto com Santuzza e pela cena do brinde (Viva il vino spumeggiante), até chegar à sua última e comovente participação, Mamma, quel vino è generoso, em que pede à mãe para que cuide de Santuzza caso ele não regresse.

À frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais em uma ópera na qual a parte orquestral é bastante importante, a titular do conjunto, Ligia Amadio, empregou uma regência fluida e teatral, costurando a trama com uma potente verve dramática. A grande introdução e o célebre Intermezzo foram muito bem defendidos. A lamentar, apenas, uma falha técnica que manteve o órgão amplificado no começo do Intermezzo – falha que certamente será corrigida nas próximas récitas.
Cavalleria Rusticana merece a visita do público e tem mais três apresentações no Palácio das Artes entre esta sexta (08/08) e o domingo, dia 10.
Fotos: Guto Muniz (na foto principal, Eiko Senda e Matheus Pompeu à frente, com Sylvia Klein ao fundo).
Leonardo Marques viajou a Belo Horizonte a convite da Fundação Clóvis Salgado.

Leonardo Marques nasceu em 1979, é formado em Letras (Português/Italiano e respectivas literaturas) e pós-graduado em Língua Italiana. Participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site Movimento.com entre 2004 e 2021.






Muito obrigada, caro Leonardo Marques, pela excelente crítica, e pelo honroso comentário relativo à nossa condução musical do espetáculo, e à performance da OSMG e do CLMG! Um grande abraço e agradecimentos por sua presença.
Vale como um grande aprendizado a análise dessa obra importante da história das óperas que o Leonardo com muita competência nos trouxe!
O P.A. dá um show todas as vezes! São pares perfeitos, orquestra e atores, tudo perfeito, parabéns!!!